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Lucas Leiva: "O europeu quer o Mundial, mas o Liverpool prefere a Premier"

Lucas Leiva defendeu a camisa do Liverpool por dez anos, entre 2007 e 2017 - Reuters / Paul Childs
Lucas Leiva defendeu a camisa do Liverpool por dez anos, entre 2007 e 2017 Imagem: Reuters / Paul Childs
do UOL

Marcello De Vico e Vanderlei Lima

Do UOL, em Santos e São Paulo

12/12/2019 04h02

Resumo da notícia

  • Lucas Leiva acredita que o Liverpool queira mais o Inglês do que o Mundial
  • Meio-campista, porém, vê o time inglês muito interessado em vencer o Mundial
  • "Senão o Liverpool não levaria todos os jogadores", ressalta Lucas Leiva

"Os europeus não levam o Mundial a sério que nem os brasileiros". "Eles se preocupam mesmo é com a Liga dos Campeões". As frases são recorrentes quando o assunto é o Mundial de Clubes da Fifa e representam o pensamento da maioria dos torcedores brasileiros. O torneio, que teve início ontem (11), no Qatar, tem Liverpool e Flamengo como favoritos, e, como não poderia deixar de ser, as discussões entre o provável confronto da grande decisão foram retomadas.

Mas nada como alguém que viveu o ambiente do clube por dez anos para dar a sua versão sobre o tema, não é mesmo? Em entrevista exclusiva ao UOL Esporte, Lucas Leiva, ex-Grêmio e que defendeu os Reds entre 2007 e 2017, não vê o time inglês desinteressado pelo Mundial. Ao mesmo tempo, porém, acredita que eles deem mais importância à Premier League, até pelo longo tempo que o Liverpool não conquista essa taça - a última vez foi em 1989/90.

"A Premier League é muito mais importante para o Liverpool do que o Mundial de Clubes, não tenho dúvidas, porque provavelmente é o mais difícil para eles ganharem, tem mais de 25 anos que não vencem. Mas isso não tira o valor do Mundial de Clubes. Talvez, o mais importante seja a Premier League, por questões óbvias, mas não quer dizer que o Mundial não é importante, senão o Liverpool não levaria todos os jogadores, não levaria força máxima, deixaria alguns descansando ou se recuperando. Enfim, tenho certeza que o Liverpool vai chegar lá para ganhar o Mundial, e nos últimos anos eles estão habituados a disputar títulos e vencer", afirma Lucas Leiva, que conquistou a Copa da Liga Inglesa com o Liverpool em 2011/12.

Toby Melville/REUTERS
Imagem: Toby Melville/REUTERS
Ainda de acordo com o jogador, que está com 32 anos e vive grande fase na Lazio, da Itália, a diferença dos calendários brasileiro e europeu 'contribuem' para que haja essa diferença de tratamento dado pelos clubes em relação ao torneio da Fifa.

"Acredito que o Liverpool dará importância ao Mundial. Vou citar os momentos de Flamengo e Liverpool, que são os dois favoritos a ganhar o título; eles chegam em momentos diferentes de temporada. Até me perguntam: 'Ah, o Liverpool não dá importância ao Mundial'? Acho que isso não é uma verdade. Eu penso que é a questão do momento do Flamengo, a cabeça voltada somente para o Mundial. Terminou o ano, o calendário interno acabou para o Flamengo, então eles estão focando exclusivamente no Mundial. O Liverpool está no meio da temporada, é um calendário que se joga mais na Inglaterra, é impossível o Liverpool estar pensando no Flamengo ou no Mundial sendo que ele tem mais cinco ou seis jogos antes de partir para o Mundial, e tendo uma sequência de jogos nesse período. Pode custar até o título inglês para eles, então não seria muito lógico falar de Mundial nesse momento. Mas não quer dizer também que o Liverpool não pensa em vencer porque a mentalidade do clube é de vitória, e tenho certeza que eles chegarão no momento certo e com foco totalmente exclusivo para o campeonato", diz.

Com contrato até 2022 com a Lazio, Lucas Leiva acredita que os ingleses ficaram incomodados com as derrotas para Flamengo e São Paulo nos Mundiais - de 1981 e 2005, respectivamente - e ressalta que é preciso olhar também para as qualidades dos adversários sul-americanos.

Marco Rosi/Getty Images
Imagem: Marco Rosi/Getty Images
"Ninguém gosta de perder, e não porque não levaram a sério e não deram importância, perderam porque tinham outros times capazes e mereceram. Teve o São Paulo, me lembro da final contra o Liverpool. O Liverpool fez de tudo para ganhar, mas encontrou um Rogério Ceni inspiradíssimo naquele dia e acabou perdendo, então tem também que olhar para o outro lado e ver que tem profissionais que têm capacidade. Devem ter ficado incomodados com o histórico para Flamengo e São Paulo, mas não quer dizer que eles não dão importância. O europeu se importa, sim, com o Mundial de Clubes, mas ele se encontra num momento diferente que o do clube brasileiro. Os clubes brasileiros estão todos de férias e o Flamengo está exclusivamente focado no Mundial, então é normal. O clube europeu deixa para pensar bem lá na frente, mas repito: não quer dizer que não valorize e não queira ganhar a competição", acrescenta.

LEIA A ENTREVISTA COMPLETA COM LUCAS LEIVA:

UOL Esporte: Você pretende cumprir o contrato ou, de repente, voltar ao Brasil?

Lucas Leiva: Olha, eu penso no presente. No momento estou bem aqui, estou num clube que tem conquistado títulos. Foram dois anos, dois títulos, e estamos numa boa posição no Campeonato Italiano [terceiro], e no dia 22 temos a final contra o Juventus, pela Supercopa da Itália, então meu momento é muito positivo dentro do clube, dentro do país, então é momento de permanência até 2022. A tendência é que isso se mantenha, mas a gente sabe que no futebol tudo pode mudar a qualquer momento, então acabo não pensando muito no futuro, prefiro viver o presente, e o presente está sendo muito positivo. É aproveitar o máximo possível.

UOL Esporte: Você tem o sonho de um dia encerrar a carreira no Grêmio, clube que o revelou?

Lucas Leiva: Sim, é algo que tenho vontade. O Grêmio é um time pelo qual tenho uma identificação enorme, passei grandes momentos lá, tenho um carinho pela cidade, pela torcida, que sempre me tratou muito bem, então é algo que passa, sim, pela minha cabeça. Agora, isso não depende só de mim, não depende somente do Grêmio, depende de vários fatores que vão fazer com que isso se realize. Mas, neste momento, é como eu disse. Não estou pensando muito no futuro, mas é algo que tenho em mente, realmente, e, quem sabe lá na frente eu venha novamente a jogar com a camisa do Grêmio. Espero que isso venha a acontecer.

Jorge Adorno/Reuters
Imagem: Jorge Adorno/Reuters

UOL Esporte: Da Itália, você tem acompanhado o futebol brasileiro?

Lucas Leiva: Acompanho sempre. O Campeonato Brasileiro é um campeonato gostoso de assistir, muito competitivo, talvez seja o campeonato mais competitivo do mundo. São cerca de 12 times que entram com chance de ganhar o título, e eu acompanho bem de perto. Tenho ainda muitos amigos que jogam no Campeonato Brasileiro e o Grêmio é o time que mais assisto, obviamente. Mas esse ano aí tiveram outras equipes que acabei acompanhando, no caso o Flamengo, que foi uma surpresa para todos, foi batendo recordes...

UOL Esporte: No que o Flamengo chamou mais a sua atenção?

Lucas Leiva: O número de vitórias, a forma com que o time jogou, batendo recordes... A gente sabe o quanto é difícil o Campeonato Brasileiro, principalmente jogando fora de casa, e o Flamengo fez uma sequência de vitórias seguidas que impressionou. E, obviamente, a campanha deles na Libertadores. Fiquei bastante impressionado com a forma que o time jogava, principalmente fora de casa no Brasileiro, e também com o ótimo time que montaram.

UOL Esporte: Você já conhecia o trabalho do treinador Jorge Jesus?

Lucas Leiva: Eu conhecia o trabalho dele principalmente do Benfica, onde ele teve bastante sucesso, montou grandes equipes no Benfica. Joguei contra o Benfica quando ele era o treinador, e também o acompanhei no Sporting. Tenho um grande amigo, o zagueiro Coates, que também jogou comigo no Liverpool e depois foi para o Sporting, e o Jesus acabou assumindo, e vejo que ele trouxe algo a mais no sentido de complemento para o futebol brasileiro. É sempre muito difícil você comparar treinadores ou comparar trabalho, são momentos diferentes, times diferentes, situações diferentes, então vejo que ele trouxe algo que, se os treinadores brasileiros tiverem com a cabeça aberta, com certeza poderão acrescentar para eles. Acho que é a mesma coisa quando um brasileiro vem pra Europa ou vai para um outro país, eles também levam algo novo e acho que isso é importante, as trocas de conhecimento. Acho que isso faz crescer qualquer profissional. Penso que o Jesus levou isso ao Brasil e tenho certeza que muitos treinadores vão adicionar algo. E isso faz ser importante essa troca de informação, não só entre treinadores; vocês, jornalistas, vão para fora do Brasil e podem aprender algumas coisas com jornalistas de outros países, e isso é importante, estar com a cabeça, a mente aberta para poder evoluir.

UOL Esporte: Foram quantos de Liverpool?

Lucas Leiva: Foram dez anos.

UOL Esporte: Por estar há mais 10 anos na Europa... Em sua opinião, o treinador brasileiro está ultrapassado?

Lucas Leiva: Tem anos que não trabalho com treinador brasileiro, mas acho assim: o que faz o treinador brasileiro, de trabalhos, é o Campeonato Brasileiro e a Copa do Mundo, a seleção brasileira, e talvez por insucesso as pessoas acabem analisando o treinador brasileiro como ultrapassado. Ou, se nesse caso, vem um treinador e faz o trabalho que fizeram Flamengo e Santos, campeão e vice, acaba tendo uma repercussão negativa em relação aos treinadores brasileiros. Mas me lembro também que quando o Renato Gaúcho ganhou a Libertadores todo mundo dizia: 'Ah, o treinador brasileiro tem um jeito mais diferente, mais paizão, mais tranquilo, também tem sucesso'... Então é o seguinte: é a questão do momento. Talvez se o Brasil tivesse sucesso na Copa do Mundo... Porque sucesso no Brasil é vitória, é título, e aí no Campeonato Brasileiro os dois treinadores estrangeiros terminaram em primeiro e segundo. Acho que isso acabou alertando e chamando um pouco mais a atenção, mas não vejo que os treinadores brasileiros estão ultrapassados. Mas não posso fazer uma análise mais profunda porque faz muitos anos que não trabalho aí, e a última vez que fui para a seleção brasileira foi com o Felipão em 2013, antes do Mundial, então há seis anos. Para fazer uma análise mais profunda tem que estar no dia a dia com os treinadores e ver o trabalho deles. A gente acompanha à distância.

UOL Esporte: O Liverpool jogará sério pra tentar ganhar o Mundial? Dará a importância devida?

Lucas Leiva: Acredito que sim. Vou citar os momentos de Flamengo e Liverpool que são os dois favoritos a ganhar o título; eles chegam em momentos diferentes de temporada. Até me perguntam: 'Ah, o Liverpool não dá importância ao Mundial'? Acho que isso não é uma verdade. Eu penso que é a questão do momento do Flamengo, a cabeça do Flamengo, é somente para o mundial. Terminou o ano, o calendário interno acabou para o Flamengo, então eles estão focando exclusivamente no Mundial. O Liverpool está no meio da temporada, é um calendário que se joga mais na Inglaterra, é impossível o Liverpool estar pensando no Flamengo ou no Mundial sendo que ele tem mais cinco ou seis jogos antes de partir para o Mundial e tendo uma sequência de jogos nesse período. Pode custar até o título inglês para eles, então não seria muito lógico falar de Mundial nesse momento. Mas não quer dizer também que o Liverpool não pensa em vencer porque a mentalidade do clube é de vitória, e tenho certeza que eles chegarão no momento certo e com o foco totalmente exclusivo para o campeonato.

UOL Esporte: Então o Liverpool dá mais importância para o campeonato interno do que o Mundial?

Lucas Leiva: A Premier League é muito mais importante para o Liverpool do que o Mundial de Clubes, não tenho dúvidas, porque provavelmente é o mais difícil para eles ganharem, tem mais de 25 anos que não vencem [última conquista foi em 1989/90]. Mas isso não tira o valor do Mundial de Clubes. Talvez, o mais importante seja a Premier League, por questões óbvias, mas não quer dizer que o Mundial não é importante, senão o Liverpool não levaria todos os jogadores, não levaria força máxima, deixaria alguns descansando ou se recuperando. Enfim, tenho certeza que o Liverpool vai chegar lá para ganhar o Mundial, e nos últimos anos eles estão habituados a disputar títulos e vencer.

UOL Esporte: Em Liverpool, no clube, na cidade, fala-se alguma coisa sobre as derrotas para Flamengo e São Paulo nas decisões do Mundial?

Lucas Leiva: Ninguém gosta de perder, e não porque não levaram a sério e não deram importância, perderam porque tinham outros times capazes e mereceram. Teve o São Paulo, me lembro da final contra o Liverpool. O Liverpool fez de tudo para ganhar, mas encontrou um Rogério Ceni inspiradíssimo naquele dia e acabou perdendo, então tem também que olhar para o outro lado e ver que tem profissionais que têm capacidade. Devem ter ficado incomodados com o histórico para Flamengo e São Paulo, mas não quer dizer que eles não dão importância. O europeu se importa, sim, com o Mundial de Clubes, mas ele se encontra num momento diferente que o do clube brasileiro. Os clubes brasileiros estão todos de férias e o Flamengo está exclusivamente focado no Mundial, então é normal. O clube europeu deixa para pensar bem lá na frente, mas repito: não quer dizer que o europeu não valorize e também não queira ganhar a competição.

UOL Esporte: Você acredita numa final Liverpool e Flamengo?

Lucas Leiva: Acredito que sim, e tem sido assim nos últimos anos. Mas surpresas já aconteceram, como a do Mazembe contra o Internacional [2010], então toda atenção é pouca.

UOL Esporte: Chegando Liverpool e Flamengo na final, quem é o favorito?

Lucas Leiva: Não existe favorito, é bem equilibrado. Se isso vier a acontecer seria uma final bem disputada.

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