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10 anos sem Armando Nogueira: texto inédito e coluna mostram multifacetas

Armando Nogueira durante entrevista em 1993; mais de 200 pessoas foram ouvidas para sua biografia - Márcio Fontes/Folha Imagem
Armando Nogueira durante entrevista em 1993; mais de 200 pessoas foram ouvidas para sua biografia Imagem: Márcio Fontes/Folha Imagem
do UOL

Gabriel Carneiro

Do UOL, em São Paulo

29/03/2020 04h00

"No princípio, o sonho de consumo daquele caboclo magricelo cheio de acnes no rosto, recém-chegado da terra natal, que recebia uma mesada do pai e, posteriormente do irmão, para estudar, era tomar um milkshake na Sorveteria Americana, no edifício Serrador, no centro do Rio de Janeiro. Frequentada pela nata carioca era, como se dizia naquele tempo, "um luxo só". Antes mesmo de aprender a saltar do bonde andando, o jovem acreano de Xapuri tentou conhecer a famosa sorveteria, apinhada de bacanas.

"Fazia mil tentativas de entrar, mas não tinha coragem. Primeiro mês, segundo mês, terceiro mês... Daí quando o bonde se transformou numa coisa familiar na minha vida, quando eu já estava matriculado no Instituto Lafaiete, fazendo o curso científico, quando eu já tinha meus amigos, fui ganhando moral na cidade. Até que um dia falei assim: hoje eu vou na Sorveteria Americana. Recebi a mesada, peguei o bonde, saltei na Cinelândia, parei na porta, olhei aquele sujeito com um gorro, de luvas, o encarei, tomei coragem e disse:

´Por favor, me dê um milkshake`.

Ele olhou pra mim e perguntou:
´Com ovo ou sem ovo?`

Eu não podia imaginar que chegasse àquela sofisticação. Eu não estava preparado para essa pergunta. Dei meia volta e fui embora."

O que você acaba de ler é um trecho inédito da obra "Armando Nogueira, a biografia".

O lançamento pela "Gryphus Editora" está previsto para o segundo semestre, mas o autor Paulo Cezar Guimarães concordou em enviar, além desta passagem sobre a chegada de Armando Nogueira ao Rio de Janeiro, com 17 anos, duas imagens do acervo familiar e ainda um texto publicado na coluna "Na Grande Área" que mostra o lado empreendedor do Rei Pelé —veja abaixo.

Armando Nogueira (agachado, mais à esquerda) em pelada no Acre, onde passou a juventude - Acervo pessoal
Armando Nogueira (agachado, mais à esquerda) em pelada no Acre, onde passou a juventude
Imagem: Acervo pessoal

"O livro seria lançado na época do aniversário de dez anos de morte, mas Armando está me dando muito trabalho", brinca o autor. Hoje, 29 de março de 2020, faz dez anos que o jornalista, escritor e cronista esportivo dono de um dos textos mais conceituados da imprensa nacional morreu, aos 83, vítima de câncer.

"O Juca Kfouri perguntou se eu faria um livro de mil páginas. Não chegará a tanto, mas vai ficar de pé sozinho", diz Paulo Cezar Guimarães, que lá lançou pela mesma editora "Sandro Moreyra, um autor à procura de um personagem", sobre outro célebre colunista. Também botafoguense.

Além da paixão pelo Botafogo, Armando Nogueira se notabilizou por uma série de outras razões em seu tempo: ele foi o criador do "Jornal Nacional", da TV Globo, onde trabalhou entre 1966 e 1990, por exemplo. Também foi testemunha, em 1954, do atentado ao político Carlos Lacerda (1914-1977), episódio que acirrou a crise política da época e culminou no suicídio do então presidente Getúlio Vargas, após 19 dias.

Segundo Boni, antigo executivo da Globo, Armando Nogueira é "a pessoa mais importante para o jornalismo na televisão." Embora tenha transitado em diferentes áreas, teve atuação respeitada na editoria esportiva, com 13 coberturas de Copa do Mundo, seis Olimpíadas, dez livros lançados e incontáveis crônicas publicadas.

O jornalista e um de seus maiores prazeres: voar de ultraleve - Acervo pessoal
O jornalista e um de seus maiores prazeres: voar de ultraleve
Imagem: Acervo pessoal

"O Armando não foi apenas o diretor da Globo, o colunista do Jornal do Brasil com texto fantástico. Ele fazia muitas coisas e costumava se apaixonar pelo que fazia. Ele jogava futebol. Mal. Jogava tênis. Mal para cacete. Mas também voava de ultraleve e tocava gaita muito bem. O perfeccionismo dele não era apenas com trabalho, era até com os hobbies. Um cara talentoso", elogia o biógrafo que nunca conheceu Armando Nogueira: "Me perguntaram depois de escrever quem ele é. E eu não sei responder, o leitor que interprete."

Veja abaixo um texto publicado por Armando Nogueira em sua coluna "Na Grande Área":

PELÉ, ZITO E OS CAVALOS

Pelé está feliz com o ritmo crescente de seus negócios: ele montou um escritório para cuidar de seus contratos, patentes, etc. e a coisa tem dado os melhores resultados. As pessoas que compõem o estafe do craque falam, com entusiasmo, da bossa de Pelé para fazer negócios.

A propósito da eficácia com que Pelé defende seus interesses, o ex-jogador Zito contava, outro dia, a seguinte historinha: um criador de cavalos, admirador dele, Zito, e de Pele, deu de presente aos dois, um par de cavalos puro-sangue.

Zito encontrou Pelé e participou que os dois tinham ganho dois cavalos magníficos.

"Eu nem vi os bichos — disse Zito — mas aceitei de cara."

Santos campeão mundial de 1962. Em pé: Lima, Zito, Dalmo, Calvet, Gilmar e Mauro; agachados: Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe - Reprodução
Santos campeão mundial de 1962. Em pé: Lima, Zito, Dalmo, Calvet, Gilmar e Mauro; agachados: Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe
Imagem: Reprodução

E combinaram que os dois potros ficariam na fazenda de Zito, já que Pelé não teria onde acomodar o dele. Um mês depois. Zito encontrou Pelé e contou, meio chateado:

"Rapaz, um troço chato: sabe que um daqueles cavalos morreu!

Mais que depressa, Pelé decretou:

"Foi o teu!".

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