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Gigante no feminino, Ferroviária desafia esquadrão invicto do Corinthians

Jogadoras da Ferroviária em partida do Campeonato Paulista - Felipe Blanco/Ferroviária SA
Jogadoras da Ferroviária em partida do Campeonato Paulista Imagem: Felipe Blanco/Ferroviária SA
do UOL

Lucas Faraldo

Colaboração para o UOL, em São Paulo

21/09/2019 04h00

Um dos mais tradicionais e vencedores clubes do país. Paulista. Classificado às finais do Brasileirão feminino, em busca de se tornar o primeiro bicampeão da competição cuja primeira edição data apenas de 2013. Esta não é uma descrição do Corinthians, que, é bem verdade, também luta pelo inédito bi nacional nas decisivas partidas dos próximos domingos (dias 22 e 29). Mas aqui estamos falando da Ferroviária, que, na modalidade das mulheres, em termos de tradição, faz a agremiação do Parque São Jorge parecer uma jovem em evolução.

O clube de Araraquara acolhe a categoria feminina desde o início, ao contrário da equipe corintiana, ativada em 2016, ou de qualquer outra que hoje traga consigo o peso da camisa oriundo do mais difundido jogo dos homens. Não à toa, é celeiro de atletas há quase duas décadas para as seleções principal e de base do Brasil -- feito que mês passado ganhou atenção nas redes sociais após interpelação da comentarista Ana Thaís Matos, do SporTV, sobre a convocação de Aline Milene, meia da Ferroviária.

Mas, afinal, como um clube relativamente pequeno a nível nacional na categoria masculina é tão visado pela comissão técnica da seleção brasileira e encontra-se de frente com uma invicta equipe do Corinthians lutando pelo posto de maior campeão feminino do país?

Nesta gigante Ferrinha, diminutivo é só seu apelido carinhoso e tradicional, mesmo.

Campeã logo em sua primeira participação no Brasileiro feminino, em 2014, a equipe de Araraquara só não disputou uma edição do campeonato, a inicial, em 2013. Na elite nacional há seis temporadas, é, entre os demais clubes que já conquistaram o título (Centro Olímpico, Rio Preto, Flamengo, Santos e Corinthians), a que mais acumula participações.

Pelo Campeonato Paulista, disputado anual e ininterruptamente desde 1997, a Ferroviária, fundada em 2001, é a maior campeã, com quatro taças, junto com Santos e Juventus. Na atual edição do Estadual, as "guerreiras grenás" estão nas semifinais — coincidentemente, contra o Corinthians. Em termos de títulos, ainda destaca-se na galeria da Ferroviária a Copa do Brasil de 2014 e a Copa Libertadores de 2015.

Fora das quatro linhas, o clube foi um dos pioneiros, junto com Santos e América-MG, a assinar carteira de trabalho de ao menos parte de suas jogadoras, em 2017. Tal conquista das mulheres é restrita a poucos times na modalidade, que ainda é tratada oficialmente como amadora pela Federação Paulista, por exemplo.

Com tamanha relevância, a Ferrinha é presença constante na seleção brasileira. A mais recente lista de convocadas da prestigiada técnica sueca Pia Sundhage, divulgada nessa quinta-feira (19), teve sete representantes (30%) das mencionadas que já tenham defendido ou que joguem hoje pelo clube. São elas: a goleira Aline Reis, a zagueira Mônica, a lateral Tamires, as meias Aline Milene e Thaisa e as atacantes Andressa Alves e Bia Zaneratto - esta última jogava no Sub-17 do clube de Araraquara quando tinha apenas 14 anos de idade. Aline Milene é a única em atividade por lá, constate-se.

"A Ferroviária é um dos poucos clubes que sempre teve atletas nas seleções sub-17, sub-20 e principal. Isso mostra como a seleção olha a Ferroviária", pontua Ana Lorena Marche, coordenadora de futebol feminino da Ferroviária, ao UOL Esporte. "É um clube formador, que forma atletas para estarem sempre prontas para alta competitividade. A Ferroviária está entre os grandes e a imprensa realmente precisa ver isso. Muitas vezes a imprensa do masculino não consegue olhar a Ferroviária como a gigante que é. Não à toa está aí em mais uma final do Brasileiro", completa.

Fica evidente que as pessoas envolvidas com o futebol feminino da Ferroviária se orgulham do trabalho desenvolvido e de sua história em construção. Veio daí a opção por interagir com Ana Thais Matos no Twitter, marcando uma posição.

"Acreditamos que realmente foi um comentário infeliz. E respondido pelo departamento de comunicação. Ficou para trás agora", comentou Tatiele Silveira, técnica da equipe araraquarense. "São situações que acontecem porque a Ferroviária não está entre os grandes do futebol masculino. Mas não existe essa comparação com o masculino. Temos um trabalho muito respeitado pelo clube, pela cidade, pela Prefeitura", acrescentou a treinadora, que está na Ferrinha desde o início do ano e carrega no currículo passagem pela seleção sub-17 como auxiliar-técnica.

Ferroviária e Corinthians se enfrentam quatro vezes em menos de duas semanas - Felipe Blanco/Ferroviária SA
Ferroviária e Corinthians se enfrentam quatro vezes em menos de duas semanas
Imagem: Felipe Blanco/Ferroviária SA

Há quase duas décadas nos trilhos

O projeto de futebol feminino na Ferroviária surgiu em 2001 numa parceria da Prefeitura de Araraquara. A fórmula é similar por trás de outras equipes femininas que se tornaram tradicionais em São Paulo, como o São José e o Rio Preto: o poder público investe na modalidade em paralelo a avanços sociais na área do esporte, ajudando também na fomentação de patrocínios aos times junto com o empresariado local.

Atual prefeito de Araraquara, Edinho Silva (PT) teve o mesmo cargo entre 2001 e 2008. Era ele quem administrava a cidade na ocasião em que a Prefeitura firmou parceria com o Grupo Pão de Açúcar para investir na construção de escolinhas de esportes, de onde saem as principais promessas da região entre as jovens meninas que jogam futebol.

"Hoje 40% do elenco principal vem das nossas categorias de base. Isso vem da história de investimento da Ferroviária no futebol feminino", diz a coordenadora Ana Lorena.

"Hoje são 6.300 crianças em mais de 20 modalidades. São mais de 60 pontos de escolinhas pela cidade", afirma o prefeito, ao UOL Esporte. "Já naquela época o futebol feminino tinha muita relevância.Tanto que esse projeto é que gera a Bia [Zaneratto]. Depois conseguimos em parceria com a Ferroviária que o projeto utilizasse a marca do clube e aí fomos integrando o futebol feminino nessa parceira para que todo o modelo metodológico, de gestão, de preparação da base, de capacitação fosse incorporado na lógica que já existia para o futebol masculino. A Ferroviária está no futebol feminino desde antes de existir qualquer obrigatoriedade para os clubes", explicou.

Edinho Silva, quando ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social do governo de Dilma Rousseff, presidiu a comissão do Profut em 2015 e foi justamente quem bateu o pé no Congresso pela exigência do investimento em times femininos aos clubes interessados em renegociar suas dívidas. Bastante criticado por cartolas na época, ele viu sua cobrança em prol da modalidade ser ratificada pouco depois pela Conmebol, que passou a exigir em 2019 que as agremiações participantes de seus torneios tenham equipes de mulheres.

Foi a partir de tais exigências que vários clubes de tradição no futebol masculino brasileiro, como o próprio Corinthians hoje adversário da Ferroviária, passaram a investir ou em parcerias com equipes femininas já formadas ou na ativação de times próprios. "Mesmo agora com grandes clubes cumprindo obrigatoriedade, a gente continua figurando entre os grandes brasileiros. Ano passado ficamos entre os quatro primeiros no Brasileirão e agora somos finalistas", afirma a coordenadora grená Ana Lorena Marche.

A tradição entra (ou não) em campo

"A Ferroviária é grande. Mostramos a história do clube para as meninas, que sabem muito disso", diz Ana Lorena. Ela levanta a bola para o que pode se tornar um incentivo extra às jogadoras na hora de defender a camisa grená frente a um adversário fortíssimo como o Corinthians, mas, neste campo, não tão tradicional quanto a Ferrinha.

O quanto esse peso da tradição do futebol feminino em Araraquara pode ajudar o time do interior frente a um rival que acumula incrível sequência de 34 vitórias — a última delas sobre a própria Ferroviária, na última quarta-feira, pelo jogo de ida das semifinais do Campeonato Paulista, vencido pelas adversárias por 4 a 0. As equipes se enfrentam quatro vezes no intervalo de uma semana e meia por conta de encavalamento dos mata-matas.

"Infelizmente as pessoas olham muito mais para os clubes de camisa e esquecem de olhar um pouco para a história do futebol feminino. A Ferroviária tem uma história muito bonita aí desde muito tempo. Aqui tem uma tradição absurda. A gente luta por isso, pela história do clube, pela paixão", argumenta a atacante Nathane, artilheira da equipe no Brasileirão com sete gols. Ela disputou as duas últimas temporadas pelo Flamengo. E explica a diferença:

"No Flamengo tem muita torcida, vem muito mais cobrança. Aqui é uma cobrança mais interna de a gente mesmo lutar pela história da Ferroviária. Aqui a história do clube é bem importante para a gente. Sempre tentamos provar que a gente merece sim estar ali em cima com os 'de camisa'."

A técnica Tatiele Silveira reforça o discurso. "A representatividade da Ferroviária no futebol feminina é gigantesca. Isso fortaleça cada atleta que passa por aqui. Nos momentos decisivos essa tradição, esse peso da camiseta, acaba nos fortalecendo e nos motivando cada vez mais", diz, numa visão que não é unânime entre as jogadoras da equipe grená.

"Ferroviária tem bastante tradição no futebol feminino, desde 2001. Mas acho que não tem ganho nenhum em campo", opina a goleira Luciana, líder de uma das melhores defesas do campeonato. "Da mesma forma que trabalhamos do nosso lado, os adversários trabalham do lado de lá. Acho que quem for eficiente sairá vencedor. Não é porque a Ferroviária tem a tradição que tem um poder maior, ou o Corinthians por causa do nome."

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