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Em novo disco, O Terno canta sobre como é cansativo ser hipster

O Terno em foto promocional de seu quarto disco - Biel Basile/Divulgação
O Terno em foto promocional de seu quarto disco Imagem: Biel Basile/Divulgação
do UOL

Maurício Dehò

Do UOL, em São Paulo

25/04/2019 04h00

"Não quero que o que eu fui defina o jeito que eu sou", canta Tim Bernardes em "Tudo Que Eu Não Fiz", primeira música de "< atrás / além >", novo álbum do trio O Terno, lançado nesta semana. A frase faz jus às mudanças e ao crescimento da banda, que chega ao quarto disco trocando guitarras por orquestrações e clima intimista, e sem se deixar amarrar pelo passado. O grupo canta sobre como é se ver, dez anos depois de começarem a tocar juntos, trocando a adolescência pelo mundo adulto.

Quem conheceu O Terno como um grupo indie com guitarras estridentes em "66" (2012), hoje encontra uma banda diferente, que foi caminhando do rock para outro lugar. Há rock, sim, mas também espaço para MPB, pop e samba, com linhas orquestrais amarrando o álbum. E o trabalho de Tim como letrista acompanhou essa evolução, dando chance a ele de olhar para trás e refletir sobre os mundos em que se sente representado, o dos hipsters e o da geração millennial.

Em "< atrás / além >", Tim parte da experiência pessoal para mandar mensagens muito diretas sobre os encantos, desafios e enigmas de amadurecer, deixando muitas vezes aquela pulga atrás da orelha: "será que ele escreveu essa música sobre mim?".

Tanto tempo eu procurei chegar
Naquele ponto que eu cheguei
Eu tive tudo, e não parei
Talvez, no fundo, eu goste mais de procurar

A música

O quarto álbum d'O Terno é um dos mais variados em termos de gêneros. Ele vai de um rock light em "Pegando Leve", uma das músicas mais inspiradas do disco - também por sua letra -, ao samba de "Bielzinho / Bielzinho", o valseado de "Volta e Meia" e a batida de bossa nova de "Pra Sempre Será". Mas o fio condutor é o uso de orquestrações, algo que Tim já havia trabalhado em seu disco solo, "Recomeçar" (2017).

À guitarra e vocal de Tim Bernardes, ao baixo de Guilherme d'Almeida e à bateria de Biel Basile, juntam-se violinos, trompete, trombone, theremin, sax, vibrafone. A guitarra, por sinal, muitas vezes é substituída pelo violão. Parece tudo grandioso, mas ouvir "< atrás / além >" é uma experiência para se fazer na quietude dos fones de ouvido, com atenção aos detalhes e climas conduzidos pela voz marcante de Tim.

O álbum veio de um período de seca: Tim se viu pela primeira vez sem um arquivo de composições, depois de ter usado seu repertório no álbum solo. Isso o levou a buscar uma unidade nas primeiras composições. "Eu comecei a reparar que, quando eu compunha sobre meus sentimentos, muita gente se identificava", explica Tim. Ele, como um jovem homem de 27 anos que se identifica na geração millennial e também entre os hipsters da música, usou esses rótulos para refletir sobre a indústria musical e sociedade.

"Eu reparo hoje que é uma geração com o tempo ansioso, rápido, que funciona esperando por uma notificação, vê Netflix e fica paralisada com o tanto de opções, que se mostra com imagens com filtro. Uma geração em que o texto é curto e que podia ser dita como superficial. Mas, quando se vê no um a um, não é assim", diz Tim, citando na letra de "Pegando Leve" a confusão que é ser um jovem.

Quero descansar, mas também quero sair
Quero trabalhar, mas quero me divertir
Quero me cobrar, mas saber não me ouvir
Quero começar, mas quero chegar no fim

Biel Basile/Divulgação
Imagem: Biel Basile/Divulgação

A intenção do cantor é ver como uma geração que nasceu conectada reage a essas novidades e pode ter mais profundidade do que parece, ainda que ele tenha mais perguntas do que respostas concretas. "Fico curioso para ver qual a consequência de uma geração que cresce com tanta ênfase na novidade. O que fica debaixo do tapete dessa imagem que o pessoal trabalha tanto na rede social?", questiona.

Triste geração que pode tudo
Quando tudo ficou tão banal?
Se afogou no raso, procurando
Profundo no superficial

Tim canta em um trecho que ser "mais um hipster" é cansativo. "O hipster, que é o indie de hoje, parece que sempre está tentando uma coisa diferente, mais maluca. É cansativo ficar refém desse vício de ser diferente. Onde está a graça disso e onde dá para jogar com isso?", reflete.

Mas Tim também fala belamente sobre o amor em "Pra Sempre Será", quando canta, "Que bom ter tido um amor de verdade / Levar comigo um amor de verdade / Correr perigo, amar de verdade", e encerra em tom agridoce com "E No Final". "Poder mudar e assumir para deixar pra trás", canta ele.

Na verdade eu sei que é muito cedo pra parar pelo caminho
Não vou ficar contente, preso num final feliz
Se tudo se transforma, tudo passa nesse mundo
Eu quero ficar velho, eu quero tudo que eu não fiz

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