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Como o novo clipe do Supla está interferindo na política de Cubatão

Supla no Rock in Rio - Marco Antônio Teixeira/UOL
Supla no Rock in Rio Imagem: Marco Antônio Teixeira/UOL
Aline Ramos

Aline Ramos é jornalista, mas tá mais pra palpiteira, por isso cria conteúdo na internet desde 2014. Você com certeza já fez algum teste dela no BuzzFeed, onde foi redatora por dois anos. É especialista em diversidade e dá consultoria para marcas em temas como raça e gênero. Mas o que ama mesmo é escrever sobre entretenimento e dar opinião sobre tudo, se bobear até sobre a sua vida.

do UOL

Colunista do UOL

09/07/2020 16h34Atualizada em 09/07/2020 17h09

A notícia de que Supla está gravando um clipe em Cubatão (SP) mobilizou todo tipo de comentário. Para muitos, o fato é só mais uma bizarrice. Para mim, é mais uma amostra do quanto Supla está sempre na vanguarda da música brasileira. Não sabe do que estou falando? Veja este vídeo:


Cubatão sediou em 1990 um grande acontecimento: o meu nascimento. Cresci pelas tais ruas que Supla comenta na entrevista dada para a equipe de comunicação da prefeitura da cidade. A energia que ele sentiu ao pisar em Cubatão é a mesma que a minha família sente por décadas. E posso dizer com conhecimento de causa: é realmente uma energia peculiar.

Só quem cresceu em Cubatão sabe o quanto a cidade pode lembrar Blade Runner. Mas isso só rola quando os moradores locais não estão ocupados xingando o prefeito. E o que Supla fez foi justamente levantar um debate político quando escolheu a cidade como cenário para o seu novo clipe.

Crítica política

Provavelmente, você conhece Cubatão pela fama de cidade mais poluída do mundo. O que já foi um fato, mas a cidade enfrenta questões para além disso. O pólo industrial de Cubatão não é mais o mesmo, tanto pelo maior controle da poluição quanto pelo desmonte de várias empresas, como a Usiminas. As demissões em massa afetaram fortemente a população cubatense.

Nos comentários do vídeo publicado na página da cidade no Facebook, muitos cubatenses sugeriram que Supla usasse o que restou da Usiminas como locação. Alguns lembraram o cantor de não pisar na prefeitura. E é aí que a coisa pega.

Além do alto índice de desemprego, a cidade acumula diversos problemas. Os cubatenses precisam lidar diariamente com a falta de conservação das ruas, com uma crise nos hospitais e unidades básicas de saúde, com a drástica diminuição do salário de professores da rede pública, com a diminuição de postos de empregos devido à terceirização de serviços, corrupção e mais alguns probleminhas.

Devido aos problemas crônicos, a sensação do cubatense é de desamparo e descaso. É como se a cidade estivesse realmente abandonada, jogada às traças. Um cenário pós-apocalíptico. É por isso que a escolha da cidade pelo Supla soa para muitos como uma crítica. Afinal, até o cantor paulistano reconheceu as mazelas de Cubatão.

Território inimigo

Alguns moradores demonstraram preocupação no uso do vídeo para fins políticos. O receio é que o prefeito Ademário Oliveira (PSDB) use o vídeo para se reeleger.

Porém, Ademário já se referiu aos seus adversários políticos como "bando punk heavy metal". E eu nem preciso dizer que Supla é o quê? PUNK! Um dos mais famosos representantes do punk rock brasileiro. Você nem precisa ouvir suas músicas para saber que ele é punk. Minha mãe sabe, sua vizinha sabe, o filho da Giovanna Ewbank que acabou de nascer sabe, todo mundo sabe. Basta olhar para ele.

No ano passado, foi feito um pedido de impeachment de Ademário, mas a proposta não foi para frente. Na mesma época, circulou uma notícia falsa, a famosa fake news, com uma pesquisa igualmente falsa com dados de intenção de votos.

O prefeito negou estar envolvido na divulgação da notícia e disse que isso tudo era obra de lideranças políticas que não passam de um "bando de punk heavy metal". Supla, cuidado, não pise na prefeitura!

Bom, diante de toda a grandiosidade desse acontecimento, o que eu espero mesmo é que passem a se lembrar da minha Cubatão como a cidade que Supla gravou seu clipe pós-apocalíptico.

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