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Críticas a governo, homenagens e briga de Narcisa: o lançamento do livro de Fernanda Montenegro no RJ

9.out.2019 - Fernanda Montenegro e a filha dela Fernanda Torres no lançamento de seu livro em shopping do Leblon - Agência Brazil News
9.out.2019 - Fernanda Montenegro e a filha dela Fernanda Torres no lançamento de seu livro em shopping do Leblon Imagem: Agência Brazil News
do UOL

Rafael Godinho

Do UOL, no Rio de Janeiro

10/10/2019 08h35

O lançamento do livro de Fernanda Montenegro em um shopping do Leblon, na zona sul do Rio, foi marcado por homenagens e o reconhecimento da atriz como símbolo de resistência contra cortes na cultura e denúncias de censura a projetos artísticos no governo Jair Bolsonaro (PSL). Críticas ao governo assim como apoio à atriz ante o episódio em que foi chamada de "sórdida" por um diretor da Funarte permearam os discursos de artistas que compareceram ao evento.

A noite de autógrafos de Prólogo, ato, epílogo: Memórias aconteceu na noite de ontem na Livraria da Travessa, atraindo centenas de fãs, artistas e familiares que prestigiaram a dama da atuação —ela completa 90 anos no próximo dia 16. Pouco antes do início do evento, marcado para as 17h, mais de 300 pessoas já aguardavam a autora chegar ao local. A socialite Narcisa Tamborindeguy foi acusada de furar fila e a confusão terminou em bate boca (vídeo abaixo).

O ator Pedro Júnior Rodriguez era o primeiro da fila de autógrafos - Rafael Godinho
O ator Pedro Júnior Rodriguez era o primeiro da fila de autógrafos
Imagem: Rafael Godinho

O ator Pedro Júnior Rodriguez veio do Acre só para conseguir um autógrafo. "Cheguei antes de o shopping abrir, às 9h30. Fiz até um desenho durante a espera para entregá-la", contou o jovem, orgulhoso por ter conseguido o primeiro lugar da fila, que dava voltas por todo o estabelecimento.

Às 18h48, Fernanda entrou no espaço sob aplausos e gritos do público, que até esqueceu o tempo de atraso.

Reação com amor, e não ódio, diz Fernanda Torres

Orgulhosa, Fernanda Torres falou da contribuição da mãe para a arte no país. "Tem algo intocável nela. Ela não cansa. Ela é uma mulher realizada, mas ainda ama e quer trabalhar muito. Espero herdar o fôlego dela", deseja.

A atriz comentou as ofensas do diretor do Centro de Artes Cênicas da Funarte, Roberto Alvim, a Fernanda Montenegro. A manifestação do dramaturgo em seu Facebook aconteceu após a edição de outubro da revista literária Quatro cinco um, em que Fernanda é retratada como uma bruxa sendo queimada em uma fogueira de livros.

Está acontecendo muita injustiça no mundo. Ninguém merece. Aconteceu uma agressão a ela e rolou uma corrente de amor para a mamãe. Pessoas de idades, gerações e classes sociais diferentes começaram a se manifestar. Ao invés de rebaterem com ódio, vieram com amor. E isso foi lindo, incrível. É o reconhecimento a uma brasileira que tem a vida limpa, ligada à arte e à cultura.

Fernanda Torres, atriz

Para Torres, Montenegro gera empatia porque representa boa parte do povo brasileiro.

9.out.2019 - Fernanda Montenegro em noite de autógrafos no Rio - Agência Brazil News
9.out.2019 - Fernanda Montenegro em noite de autógrafos no Rio
Imagem: Agência Brazil News

"Atualmente, estamos vivendo um extremo. Está muito difícil achar um ponto em comum, onde as pessoas concordam. Acho que a mamãe tem isso de chegar o mais próximo possível do centro. Uma filha de operários, neta de imigrantes, que viveu da arte, se formou autodidata. Ela é uma brasileira que os brasileiros olham e dizem: este é o Brasil que eu reconheço", disse.

Fernanda afirma que o lugar de fala da sua mãe é apartidário. Para ela, a polarização política no Brasil não afeta a ideologia de sua mãe.

"Mamãe é um ser independente. Ela já passou por dezenas de governos, modas, tendências políticas ideológicas, mas sempre foi fiel ao que pensava. É como se ela tivesse sempre um pensamento próprio, independente da corrente, pensando sempre no bem de todos. Isso fez dela sempre uma mulher do seu tempo. Com 90 anos, ela é uma mulher do presente. Ela não vive no passado", conclui.

"Ela não se cala", diz a atriz Stella Freitas

Stella Freitas reforça a fala de Fernanda e acrescenta a importância de "Fernandona" para a classe artística.

"Ela não é só uma grande e a maior atriz brasileira, mas também é uma pessoa de grande lucidez para o nosso país. Ela também é uma referência para nós, artistas. Nesse momento de muita censura à cultura, ela resiste e mostra que é possível não parar e não se calar", ressalta a atriz, que atuou ao lado da colega no premiado Central do Brasil (1998), de Walter Salles.

Stella lamenta o episódio envolvendo Roberto Alvim e Fernanda Montenegro e acusa o atual governo de censura.

"É completamente irracional atacar Fernanda Montenegro. É um grande absurdo. É um desrespeito e mostra o momento perigoso que estamos vivendo em nosso país. É um pré-nazismo. A gente não está percebendo que a censura está tomando conta da arte, da cultura, dos jornais e televisão. Ela não se cala. Nós não temos que nos calar também. Nós já estamos sendo perseguidos. Ela é a pessoa mais importante atualmente no nosso país, porque é a nossa voz."

Cristina Pereira estava junto com Stella. As duas veteranas da TV estavam na fila desde as 16h. Com o livro autografado em mãos, por volta das 21h30, a atriz também saiu em defesa da amiga.

"Nós não admitimos que uma pessoa ofenda Fernanda a este nível. É um ignorante, desprovido de conhecimento e desqualificado para o cargo que ocupa. Todos nós nos manifestamos em respeito e carinho a essa grande atriz que sempre nos representou. Ela é uma mulher corajosa. Viemos homenageá-la da maneira que ela merece", diz.

Ao ser questionada sobre o que ele acha de colegas de trabalho como Regina Duarte e Susana Vieira, que são a favor de Bolsonaro e o defendem publicamente, Cristina dá sua opinião.

"A gente acha um absurdo, porque um artista não pode apoiar esse tipo de governo. Nós que justamente lutamos pela liberdade de expressão. Nós acompanhamos tantas lutas, o movimento de redemocratização. Estávamos em um momento de grande crescimento nos governos do Lula e da Dilma. Foi importante. Tivemos uma evolução do país. E de repente, a gente cai nesse momento absurdo, de retrocesso. Claro que, se essas pessoas querem apoiar, elas têm todo direito. Mas acho um contrassenso um artista apoiar um governo fascista", dispara.

9.out.2019 - Narcisa Tamborindeguy em lançamento de livro de Fernanda Montenegro - Reprodução/Instagram
9.out.2019 - Narcisa Tamborindeguy em lançamento de livro de Fernanda Montenegro
Imagem: Reprodução/Instagram

Briga após Narcisa ser acusada de furar fila

Já perto das 22h, horário programado para encerrar o coquetel, Narcisa Tamborindeguy passou na frente de todos e começou a gritar "Viva, Fernanda", enquanto a atriz autografava seus livros.

Algumas pessoas se revoltaram com a socialite e reclamaram que ela furou fila. Houve até uma senhora mais estressada que foi atrás da ex-mulher de Boni para trocar farpas com ela. Chamada de ridícula, Narcisa retrucou sorrindo: "a senhora é o máximo".

Irritadíssima, a senhora partiu para cima de Narcisa e lhe deu três tapas nas costas. A briga precisou ser apartada por uma amiga de Tamborindeguy, que a acompanhou até a saída da loja.

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