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Lateral teve de mudar vida às pressas para 2ª chance inesperada no Santos

Ivan Storti/Santos FC
Imagem: Ivan Storti/Santos FC
do UOL

Eder Traskini

Colaboração para o UOL, em Santos

2019-02-19T12:00:00

19/02/2019 12h00

- Alô, Matheus? O Sampaoli analisou uns vídeos seus e pediu para que você volte ao Santos, o que acha? Pode ser?

Com a família a caminho e contrato assinado na imobiliária, o lateral-direito Matheus Ribeiro se preparava para mais uma temporada emprestado pelo Santos ao Figueirense quando o Imponderável de Almeida, diria Nelson Rodrigues, na forma do executivo Renato ligou dizendo que ninguém mais ninguém menos do que Jorge Sampaoli havia solicitado seu retorno.

"Foi inacreditável. Minha noiva chegou, eu tive a notícia, mandei ela de novo para casa com a minha mãe e minha avó porque ainda não tinha nem onde ficar em Santos. Foi uma surpresa para mim. Não teve explicação. Renato só me disse que solicitaram meu retorno e eu também não pedi explicação nenhuma, o que eu mais queria era voltar", revelou em entrevista exclusiva ao UOL Esporte.

Cheio de sonhos, Matheus Ribeiro dirigiu por mais de nove horas para chegar a Santos naquela mesma madrugada. Na cabeça o desejo inexorável de apagar da memória do santista um início reconhecidamente ruim e voltar a ser o jogador que chamou a atenção do Peixe pelas boas atuações no Atlético-GO.

"Eu não consegui fazer o que eu fiz lá, ficou claro. Eu não consegui jogar, não tinha confiança, não dei a resposta. Chegar no Santos foi uma mudança muito grande na minha vida. Aconteceu muito rápido. Eu senti o baque depois de jogar mal. Você ver todo mundo te xingando... É uma coisa natural, mas pra mim não era naquele momento", confessou.

Um ano de pesadelo

Matheus chegou ao Santos credenciado pelo título da Série B com o time de Goiás, mas nunca conseguiu repetir o bom futebol. Emprestado no ano passado, o lateral foi atrapalhado por sucessivas lesões.

O azar começou no México, quando atuava pelo Puebla. Foram apenas dois jogos antes de sofrer uma lesão no músculo adutor. Ele se recuperou, mas a equipe antecipou seu retorno e novamente o jogador sentiu a mesma lesão.

O Puebla, então, devolveu Matheus Ribeiro ao Santos, que repassou o jogador ao Figueirense. O início foi bom, mas novamente o adutor tirou dele a chance de se firmar na equipe. Após um ano de pesadelo, nem mesmo o jogador acredita que merecia uma nova chance no Peixe.

"Eu sou muito sincero. Ano passado eu joguei 12 jogos. Na minha cabeça, para voltar eu tinha que ter feito o ano perfeito. Acho que eu não merecia porque eu esperava fazer esse ano e me credenciar a voltar a atuar por um time grande e mostrar o valor que eu não mostrei na primeira passagem", admitiu.

Apesar de sua primeira experiência internacional não ter sido a melhor, Matheus Ribeiro não acha que foi um erro ter escolhido o Puebla quando também tinha proposta do Goiás, no ano passado.

"Foi uma grande experiência. Eu dei azar, nunca tinha machucado na vida. Tratamento lá não é que não foi correto, mas eles quiseram antecipar por necessidade, não tiro a razão deles de acharem que cheguei lá com problema. Acabei passando por um jogador que chegou lá e não queria nada com nada, porque tive duas lesões, mas não tive culpa. Não temos como controlar lesão."

Quando chegou ao Figueirense, Matheus conseguiu se firmar como titular, mas as lesões mal curadas da época do Puebla cobraram seu preço e o lateral chegou a pensar que nunca mais jogaria futebol.

"Eu voltei de Fortaleza de cadeira de rodas, não conseguia andar. Foi uma lesão de adutor que não é tão importante para andar, mas eu não conseguia. Não conseguia dormir direito nos primeiros dias. Quando eu me machuquei eu não me imaginava nem jogando de novo, pela dor e pela forma como eu estava. Quando voltei a fazer trabalho com bola no começo do ano eu não conseguia fazer os movimentos, pensei que não ia dar a volta por cima", confessou.

O fantasma de Zeca

Desde que chegou ao Santos, Matheus Ribeiro conviveu com o fantasma do lateral Zeca: o destro que jogava na esquerda. Credenciado pela facilidade em utilizar a perna 'que não é a boa', o jogador veio como substituto ideal do ex-Menino da Vila.

Atuando pela direita no Atlético-GO, Matheus demonstrava facilidade em cortar para o meio e cruzar ou chutar a gol com a esquerda, marcando inclusive gols pelo time de Goiás. No entanto, daí a ser o titular da posição a história era bem diferente.

 "Essa questão da lateral esquerda eu não sei como surgiu... Eu nunca joguei na esquerda na minha vida. Os treinadores viam em mim uma facilidade de usar a perna esquerda, não que necessariamente eu jogaria na esquerda. Mas quando você chega em um time grande, você quer jogar. No treino eu até conseguia desempenhar, mas no jogo eu ficava perdido. Minha confiança foi lá embaixo, até pra treinar eu já não conseguia mais. Não que eu não possa ser usado na esquerda, isso depende da situação e vou fazer o meu melhor, mas eu sou lateral-direito. Não é que 'substituir' o Zeca pesou, mas é uma característica que eu não tenho, de jogar na esquerda e puxar para dentro como ele faz."

Tragédia familiar quase encerrou a carreira

Matheus Ribeiro saiu de casa aos 14 anos, quando foi aprovado em uma peneira no Internacional. Gaúcho de Erechim, ele vem de uma família humilde, mas que nunca havia passado dificuldade até o momento que duas tragédias acometeram os Antunes Ribeiro e quase encerraram a carreira do jovem lateral.

"Meu pai reagiu a um assalto e meu avô teve um infarto fulminante. O mundo ficou de cabeça para baixo, eu queria parar, estava a ponto de desistir, porque imagina, todo mundo em casa precisando de ajuda e eu esperando uma coisa que era uma ilusão. As pessoas da família cobrando. Estava ali batalhando para comer, para viver", lembrou.

Cabisbaixo no Inter, Matheus foi emprestado ao Juventude, mas ainda abalado, não teve sucesso. Aos 20 anos, o lateral ficava sem clube. Ele voltava pra casa quando recebeu um convite do pai de um amigo para jogar no União Frederiquense, da segunda divisão do Gaúcho.

"A equipe tinha perdido todas as partidas do primeiro turno. Fui para lá pra tentar e aconteceu uma reviravolta, o time foi campeão da divisão de acesso. Inacreditável. Todo mundo começou a machucar e eu tive que jogar. Acabei tendo uma certa visibilidade e fui contratado pelo Ypiranga da minha cidade. Mas na minha cabeça não passava que eu iria virar um jogador mesmo, jogar em uma equipe melhor. O Gaúcho tem uma certa visibilidade e eu estava bem, fiz um gol no Grêmio. E nisso o Athlético-PR e o Coritiba me ligaram e eu não acreditava, pensava que eles estavam confundindo, não era possível."

Era sim. Em um ano, Matheus Ribeiro deixou a segunda divisão do Campeonato Gaúcho para atuar na Série A do Brasileiro. Jogou cinco partidas pelo Athlético-PR e chegou ao Atlético-GO, onde se projetou para o cenário nacional.

"Hoje eu dou graças a Deus ao futebol. Se não fosse isso, eu não sei o que seria de mim e da minha família", desabafou.

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