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Saiba tudo sobre os bastidores da suspensão de Marcão do Povo no SBT

Marcão do Povo, apresentador do SBT, no momento suspenso  - Reprodução
Marcão do Povo, apresentador do SBT, no momento suspenso Imagem: Reprodução
Ricardo Feltrin

Ricardo Feltrin é colunista do UOL desde 2004. Trabalhou por 21 anos no Grupo Folha, como repórter, editor e secretário de Redação, entre outros cargos.

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Colunista do UOL

09/04/2020 12h42

Mal havia nascido o Sol ontem, e um dos apresentadores do "Primeiro Impacto", Marcão do Povo, chegava ao SBT.

Estava agitado como sempre. Falante, risonho, tomou água, fez alguns exercícios musculares faciais. Foi para a maquiagem, vestiu o paletó e entrou no ar.

Minutos depois, com o telejornal no ar, começaria a fazer no improviso uma espécie de "libelo" bajulativo em prol da política de Jair Bolsonaro.

Em sua fala Marcão foi um passo além no radicalismo e no mau uso das palavras.

Enquanto o presidente quer deixar em casa idosos e grupos de risco devido à pandemia de coronavírus, e reabrir o comércio, Marcão defendeu que os infectados fossem colocados num "campo de concentração".

Em nenhum momento dos quase cinco minutos de "desabafo" ao vivo, o goiano Marcos Paulo Ribeiro de Moraes, 40 anos, que antes de ser "do Povo" era conhecido como "Chumbo Grosso", pareceu perceber as sandices que dizia.

Campos de concentração

"Atenção presidente. Não seria interessante pegar o Exército, a Marinha, a Aeronáutica e criar um campo de concentração, de cuidados, com equipamentos mais sofisticados, os melhores profissionais, e colocar essas pessoas com sintomas (lá dentro)? (...)

"Porque aí, presidente, acaba com esse negócio de espalhar dinheiro pelos Estados?", vituperou o "politizado" apresentador ao vivo"

"Então, presidente, é uma dica: o senhor é o presidente da República! Dá (sic) um decreto aí, põe o Exército nas ruas, Marinha e Aeronáutica? e aí, o governador que descumprir, faz igual (ele) tá fazendo com o povo: Cana!", vociferou, para em seguida defender novamente a abertura do comércio e a "prisão" dos infectados em um campo de concentração.

As duas ou três pessoas presentes no estúdio, inclusive um único câmera, se entreolharam mas não disseram nada.

Depois que saiu do ar Marcão continuava falante e simpático com os colegas do SBT.

Se arrumou, tirou a maquiagem e rapidamente foi embora. Ninguém comentou com ele o que acabara de fazer.

Tsunami de indignação

Marcão ainda estava no ar quando o caso chegou às redes sociais, causando indignação. A íntegra do vídeo já estava no Twitter provocando revolta.

Às 10h o diretor de Jornalismo do SBT, José Occhiuso, já estava ciente não só do vídeo, mas dos desdobramentos.

Jornalista veterano, ético, a verdade é que ele nunca foi a favor da contratação nem de Marcão e muito menos de Dudu Camargo.

Os dois nomes lhe foram impostos de cima (leia-se Silvio Santos). Marcão foi contratado em 2017 para espanto de todo o departamento.

Havia sido demitido dias antes da Record, depois de chamar a cantora Ludmilla de "macaca". Está sendo processado por isso.

Se defendeu e disse que foi "mal compreendido". Que a expressão era um "regionalismo". Até agora isso não colou na Justiça.

Um ano antes dele, a redação já tinha sido obrigada a engolir Dudu Camargo, então com 18 anos —contratado depois de ir pedir emprego a Silvio Santos na porta do salão do cabeleireiro Jassa.

Há décadas Silvio toma as decisões assim, como todos sabem. De "veneta". Os departamentos apenas são informados.

Marcão tranquilão

Às 11h os bastidores não só do SBT, mas do Grupo Silvio Santos, já estavam tensos.

Marcão, por outro lado, estava tranquilo, apesar de já estar sendo há horas ofendido em redes sociais. Sua equipe já estava a postos deletando ofensas no Instagram.

A jovem presidente do Grupo SS, recém-empossada, Renata Abravanel, 35 anos, estava diante do maior problema sério e público de sua gestão como executiva.

Estava em contato direto com a irmã Daniela Beyruti, 43 anos, também diretora.

Ambas, por sua vez, faziam contato com outros funcionários da casa, como Rafael Larena, uma espécie de assessor para assuntos problemáticos do dono e apresentador da emissora.

As irmãs viram o vídeo no twitter, mas pediram ao SBT cópias. Acompanhavam nas redes sociais e na imprensa a péssima repercussão.

Alô, Silvio

Decidiram ligar para o pai, que está confinado em casa desde que retornou das férias nos EUA, e lhe explicaram o assunto.

Silvio não tinha assistido nada e até então não sabia do "tsunami" atingindo suas empresas.

As filhas nem sequer enviaram o vídeo para Silvio porque sabem que ele mal abre o email e jamais entra no Twitter.

Após ouvir as filhas, Silvio, por sua vez, ligou para seu assistente Rafael Larena.

Enquanto isso alguns executivos já defendiam junto às filhas de Silvio o afastamento imediato de Marcão. Mas, sabiam que ninguém ali podia tomar essa decisão.

Marcão foi trazido por SIlvio e só ele poderia decidir ou não afastá-lo.

Larena descreveria o vídeo e cada palavra de Marcão para Silvio, que pediu um tempo para pensar.

O assessor também leu trechos de comentários que estavam saindo nas redes sociais e veículos de imprensa.

A direção do SBT e do Grupo SBT ficaram em compasso de espera e sob tensão até por volta das 15h, quando Silvio ligou mandando afastar Marcão.

Disse que em hipótese alguma os jornalistas da casa podem ser ofensivos com quem quer que seja e determinou que fosse feita uma nota oficial.

Alguém ligou no celular de Marcão e o informou que ele estava suspenso por no mínimo 15 dias.

Logo depois a informação vazou. O SBT divulgou um comunicado oficial exatamente às 15h59.

Segundo a coluna apurou, Marcão ficou primeiro indignado. Depois, inconformado, revoltado. Se disse mal compreendido (como sempre. Afirmou que estava sofrendo uma grande injustiça. Por fim ameaçou chorar.

No fim da tarde de ontem ele postaria uma foto em preto e branco de Clint Eastwood com a frase de efeito: "Não se preocupe com os que te odeiam. Preocupe-se com os que fingem gostar de você".

Sua assessoria teve trabalho o dia todo para bloquear e deletar mensagens ofensivas. Ainda está no ar o trecho de seu "libelo" em que defende a prisão de governadores e o fim do "espalhamento de dinheiro" para Estados que "não têm" casos de coronavírus.

Quem olha o perfil do jornalista no Instagram hoje (09) nem imagina a besteira que ele fez. Praticamente só há mensagens positivas, simpáticas, amistosas, de apoio.

Na manhã desta quinta, o apresentador suspenso postou um vídeo sentado, em seu escritório. Nele, diz que "está trabalhando muito", que está "ajudando muitas pessoas".

"Tudo passa, que Deus tem a resposta para todas as perguntas, A vida é assim. Nós temos de pagar um preço altíssimo pra que possamos chegar aonde Deus quer."

Postou também por escrito um trecho bíblico com a já surrada hashtag #deusnocomando.

O trecho em questão é do Apocalipse (1:17), em que uma voz diz a João: "Tenho autoridade sobre a morte e o mundo dos mortos".

Marcão deveria, antes de mais nada, ouvir a própria voz.

Ricardo Feltrin no Twitter, Facebook, Instagram e site Ooops

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