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Scorpions: Não há espaço hoje para uma música como Wind of Change

Rudolf Schenker (guitarra), Pawel Maciwoda (baixo), Klaus Meine (vocal), Mikkey Dee (bateria) e Matthias Jabs (guitarra) - Divulgação
Rudolf Schenker (guitarra), Pawel Maciwoda (baixo), Klaus Meine (vocal), Mikkey Dee (bateria) e Matthias Jabs (guitarra) Imagem: Divulgação
do UOL

Leonardo Rodrigues

Do UOL, em São Paulo

17/09/2019 04h00

Prestes a embarcar em uma nova turnê brasileira com o Scorpions --serão sete apresentações em sete cidades--, o guitarrista Matthias Jabs é só sorrisos quando o assunto é Brasil. Além de rever amigos, atualizar o bronzeado e se deliciar com nossa culinária, ele voltará ao palco em que afirma ter vivido uma das maiores glórias em mais em de 40 anos carreira, o do Rock in Rio.

Mais do que isso: Jabs usará em algumas músicas a mesma guitarra empunhada 34 anos atrás, uma Gibson feita para ele por encomenda, estilizada com o logo do Rock in Rio —que reproduz o mapa do Brasil— e coberta pelos símbolos e cores da bandeira nacional.

Matthias Jabs no Rock in Rio em 1985 - Divulgação/Rock in Rio
Matthias Jabs no Rock in Rio em 1985
Imagem: Divulgação/Rock in Rio

Após os shows de 1985, o instrumento foi dado de presente a Roberto Medina, criador do festival, que agora o emprestará para o retorno em grande estilo do grupo alemão. "Estamos todos muito ansiosos para tocar de novo com ela. Será fantástico", diz ao UOL Jabs, sem esconder a empolgação no tom de voz.

O repertório trazido pelo Scorpions é um infalível "mais do mesmo", baseado em clássicos dos anos 1970 e 1980, como manda o script da nova Crazy World Tour. A excursão, leva o mesmo nome da realizada entre 1990 e 1991, quando o grupo emplacou seu maior hit, Wind of Change, e acenou à nova configuração geopolítica versando sobre a abertura da União Soviética e a queda do comunismo.

O mundo está próximo / Você já imaginou que poderíamos ser tão próximos, como irmãos?/ O futuro está no ar / Eu posso senti-lo em todo lugar / Soprando com o vento da mudança.
canta o vocalista Klaus Meine em Wind of Change, em estrofe que também virou símbolo da reunificação alemã

Se hoje os tempos andam conturbados na política, com ascensão de ideias e partidos de extrema-direita, haveria ar para os ventos da mudança soprarem mais uma vez? Jabs acha que sim, mas provavelmente eles não virão com trilha sonora. "Hoje em dia há tanto business, tantos estilos musicais diferentes, que há muito pouco espaço para uma música com uma mensagem como essa."

UOL - Vocês tocaram duas vezes no primeiro Rock in Rio, em 1985. Qual é melhor lembrança?

Matthias Jabs - A energia do público. Era simplesmente fantástico. E em termos visuais também. Eram 250 mil pessoas. Um mar de gente. Nós não conseguíamos ver onde tudo acabava porque estava escuro. Era gente, gente, gente e, depois, mais gente. Eu já tinha a noção do tamanho do festival e foi por isso que decidi tocar com uma guitarra especial. Dei ao promotor do show [Roberto Medida] como agradecimento, um símbolo para todos os fãs brasileiros. Estamos todos muito ansiosos para tocar de novo com ela. Será fantástico.

Matthias Jabs em ação com o Scorpions - Divulgação/Facebook
Matthias Jabs em ação com o Scorpions
Imagem: Divulgação/Facebook

E qual é a pior lembrança do Rock in Rio de 1985?

Na verdade, eu só tenho memórias muito boas. Lembro de estar hospedado no hotel Copacabana Palace e haver centenas de fãs do lado de fora. Não dava para sair e curtir a cidade porque era impossível passar pela multidão. Por causa disso, nós e o AC/DC fomos transferidos secretamente para outro hotel, bem mais tranquilo. Como fizemos dois shows [em dois finais de semana diferentes], tínhamos vários dias de folga entre eles. Conseguimos aproveitar a piscina e a praia antes de tocar de novo.

Estamos vivendo na política uma onda de extremismo e incertezas no mundo. Acha que precisamos de uma nova Wind of Change, uma música que fala de mudanças e prega união?

Acho. Mas acho que precisamos, acima de tudo, de mudanças. Só não sei se seria possível hoje em dia alguém aparecer com uma canção com aquele mesmo espírito. Hoje em dia há tanto business, tantos estilos musicais diferentes, que há muito pouco espaço para uma música com uma mensagem como aquela. As mudanças que a música aborda aconteceram 30 anos atrás. Então ela não é exatamente uma música "atualizada".

Estamos em um momento totalmente diferente, que é ainda mais maluco do que o daquela época. E foi por isso que demos o nome de Crazy World para a turnê de novo. Não poderíamos viver em um mundo mais louco do que o que vivemos hoje.

Como viver nesse mundo maluco, então?

Não é fácil. Olhe para esses presidentes e políticos de hoje. São líderes egomaníacos. Não me parece tão bom viver neste mundo como era há alguns anos. Demos passos para trás nos últimos dez anos. Há graves problemas de imigração e todo tipo de problema econômico.

Na vida cotidiana, as pessoas estão sempre olhando para baixo, para a tela de seus smartphones, para e-mails, WhatsApp, Facebook, Twitter, Instagram. O dia está cheio de informação. Talvez tudo isso esteja nos fazendo não pensar mais direito, por não haver tempo para de fato pensar nas coisas. Sabe aquele gráfico da evolução do homem, desde os primatas, em que ele vai ficando ereto até chegar no formado do homo sapiens? Parece que o próximo desenho vai ser o de uma pessoa com uma corcunda e a cabeça virada para baixo, olhando para o smartphone.

Klaus Meine, vocalista do Scorpions - Reprodução/Facebook
Klaus Meine, vocalista do Scorpions
Imagem: Reprodução/Facebook

Você já entrou em várias listas de melhores guitarristas do rock e metal. Que conselho daria a alguém que está começando no instrumento, em uma época em que o rock perdeu tanto espaço?

A música sempre vem em ondas. Historicamente, todo estilo tem sua hora certa para acontecer. Eu aconselharia para um guitarrista iniciante, antes de tudo, tentar se divertir tocando. Tocar com alegria, sabe? Sem pensar no futuro, apenas na música. Segundo, aconselharia tentar tocar o melhor possível. Praticar o máximo de tempo que conseguir. Porque um dia, se você ficar famoso, você terá menos tempo para praticar porque precisará viajar muito, fazer shows, dar entrevistas etc. Depois, antes de entrar em estúdio, acho que todo músico precisa pensar no que tem a dizer com sua música. Sua mensagem é relevante ou é algo que só interessa a você mesmo? É importante descobrir se você tem algo a dizer.

Scorpions no Brasil

18/9 - Curitiba (Pedreira Paulo Leminski)
21/9 - São Paulo (festival Rockfest, no Allianz Parque)
23/9 - Uberlândia (Arena Sabiazinho)
25/9 - Brasília (Ginásio Nilson Nelson)
28/9 - Florianópolis (Arena Petry)
1/10 - Porto Alegre (Ginásio Gigantinho)
4/10 - Rio (Rock in Rio, na cidade do Rock)

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