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Ícone da queda de braço entre Cuba e EUA vive momento de incerteza em Havana

2019-05-24T10:03:00

24/05/2019 10h03

Lorena Cantó.

Havana, 24 mai (EFE).- A Tribuna Anti-Imperialista José Martí, localizada em frente à embaixada americana em Havana, está se transformado em escombros e os moradores da região questionam o que acontecerá com este símbolo do eterno desacordo entre Cuba e Estados Unidos e que Fidel Castro mandou construir há alguns anos.

"Não creio que abandonarão o projeto inicial, ainda mais nas atuais circunstâncias", afirmou à Agência Efe Ulises Barnet, que mora perto e que passeia diariamente com sua cadela pela esplanada que agora está repleta de pedaços de concreto, terra e vergalhões expostos.

As "circunstâncias" que Barnet menciona são as novamente envenenadas relações com o governo americano, que interrompeu a normalização dos laços com Cuba promovidos pelo ex-presidente Barack Obama e aumentou a hostilidade com novas sanções e retórica incendiária.

Assim como Barnet, muitos estranham que exatamente em um momento no qual as relações voltam a se estremecer, Cuba ignore esta referência "anti-imperialista" que permaneceu de pé inclusive nos tempos mais prósperos da reaproximação diplomática, entre 2014 e 2016, quando a inesperada vitória de Donald Trump provocou uma reviravolta.

No início da semana, o jornal digital independente "14ymedio" publicou que a instalação, que fica ao lado do Malecón, a famosa orla da capital cubana, desapareceria para dar passagem a um edifício de escritórios. Ontem, o site oficial "Cubadebate" desmentiu a informação.

"Sob hipótese alguma vamos demolir a Tribuna. Ela não terá outro propósito senão permanecer a praça por excelência da luta contra o imperialismo", disse o vice-presidente do Conselho de Administração Provincial, Orestes Llanes Mestres, ao portal.

O espaço foi inaugurado em 3 de abril de 2000 por Fidel Castro durante um dos momentos mais tensos da conturbada relação bilateral: a queda de braço pelo retorno de Elián González a Cuba. O caso ficou muito conhecido, porque o menino estava com a mãe e mais 12 pessoas em um bote que naufragou matando quase todos os tripulantes.

A Tribuna, como foi dito quando foi inaugurada, tinha capacidade para 10 mil pessoas sentadas e outras 30 mil em pé. A população logo apelidou o lugar de "protestódromo".

O local foi palco de reivindicações de milhares de pessoas, muitas vezes crianças, para o retorno de Elian, que foi resgatado pela Guarda Costeira dos Estados Unidos, e também de vários shows e atos em apoio à causa palestina ou pela independência de Porto Rico.

Quando Elián retornou à ilha, os megafones da Tribuna apontavam diretamente para o prédio da embaixada americana.

Foi ali também onde os cubanos repudiaram o terrorismo e a guerra pouco depois do atentado de 11 de setembro nos Estados Unidos, em uma "expressão de solidariedade" com as vítimas, segundo disse Fidel Castro na época.

Em 2006, o espaço ganhou 138 enormes mastros e bandeiras em resposta à instalação na fachada da então Seção de Interesses dos Estados Unidos - hoje embaixada - de um painel eletrônico com mensagens políticas que o governo considerou subversivas.

As bandeiras foram mantidas e três anos depois os Estados Unidos apagaram o painel da discórdia, embora atualmente seja possível ver a deterioração dos mastros pela proximidade com o mar, e as bandeiras - inicialmente pretas com uma estrela branca e depois cubanas - só sejam hasteadas em raras ocasiões.

"Quando o vento do mar batia, o barulho era ensurdecedor", disse um diplomata que esteve em Havana naqueles anos e não teve o nome revelado.

A deterioração do lugar aumentou depois das inundações provocadas pela passagem do furacão Irma há dois anos. Na ocasião, a Tribuna ficou debaixo d'água por dois dias.

Os reparos passam por construir uma plataforma mais alta, para reduzir o impacto do mar, e pelo uso de materiais mais duráveis, que resistam melhor à maresia, por exemplo. Além disso, as dez torres e cinco arcos metálicos que emolduram a esplanada precisam ser restaurados.

Neste lugar, onde hoje apenas o ranger dos passos nos pedaços de cimento rompe o silêncio e as partículas de poeira suspensas no ar provocam um efeito quase onírico, não há um tijolo sequer que não guarde algum simbolismo.

As torres representam a Roystonea regia, a árvore símbolo do país; os arcos ilustram a união do povo cubano; o piso tem as cores da bandeira e uma estátua do herói nacional José Martí com um criança nos braços aponta, em tom acusador, para a embaixada dos Estados Unidos.

Encostado na porta de casa na rua Calzada, um morador, sem camisa, observa os montes de areia e escombros.

"Antes tinha um parque, uma fonte bonita e as crianças brincavam. Tomara que façam outro parque", murmurou ele, antes virar as costas e se perder na penumbra do seu edifício. EFE

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