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Agente que faturou com venda de Mayke no Cruzeiro não tinha registro na CBF

Cesar Greco/Ag. Palmeiras/Divulgação
Mayke em treino do Palmeiras Imagem: Cesar Greco/Ag. Palmeiras/Divulgação
do UOL

Rodrigo Mattos e Thiago Fernandes

Do UOL, em Belo Horizonte

2019-06-18T09:30:00

18/06/2019 09h30

A venda de Mayke do Cruzeiro ao Palmeiras, ocorrida em setembro do ano passado, apresenta algumas irregularidades. A comissão de R$ 800 mil paga a Carlinhos Sabiá, agente ligado a Itair Machado e representante dos mineiros no negócio, não foi declarada à CBF. E a empresa usada para fazer o acordo, a qual tem o filho do empresário, Felipe Costa Isidoro, como sócio, só foi regularizada na entidade mais de um mês depois.

O UOL Esporte teve acesso a documentos que explicam como ocorreu a operação, realizada em 28 de setembro de 2018.

Carlinhos Sabiá representava a ADS Engenharia e Construções, empresa que tinha 30% dos direitos econômicos de Mayke por levá-lo à Toca da Raposa em 2010. Ao formular um novo contrato do jogador, em novembro de 2013, o clube redividiu os direitos econômicos, e o caso foi parar na Justiça. A empresa reivindica até hoje o percentual do lateral direito.

O agente alega que, por isso, entrou no negócio do atleta que estava emprestado ao Palmeiras desde 13 de maio de 2017 e com os direitos econômicos fixados em 4 milhões de euros (R$ 17,4 mi na cotação atual).

"Estava autorizado pela empresa que detinha 30% dos direitos econômicos do atleta Mayke a tentar negociar com o Cruzeiro ou Palmeiras, sem ter que recorrer à Justiça. Procurei o Cruzeiro e, na oportunidade, o Cruzeiro não mostrou interesse em fazer um acordo. Então eu disse que iria ao Palmeiras ver se eles teriam interesse e, como negociante, perguntei se poderia abrir conversa para negociar a parte do Cruzeiro. Como tive a resposta afirmativa, pedi uma autorização que me foi dada", disse Carlinhos Sabiá ao UOL Esporte.

"Fui a São Paulo para me reunir com o Palmeiras. Depois da reunião, fui orientado a entrar em contato com os representantes do atleta [Fábio Mello e Giuliano Bertolucci]. Marquei a reunião com o Cruzeiro e os representantes do atleta novamente em São Paulo. Essa reunião foi no hotel onde o Cruzeiro estava concentrado para a primeira partida da semifinal da Copa do Brasil, contra o Palmeiras [em 12 de setembro de 2018]. O Cruzeiro fez a proposta para os representantes e deixou acertado comigo. Se eles fossem efetuar a compra, me pagariam a comissão de 10% do valor que seria pago ao Cruzeiro", acrescentou.

A diretoria cruzeirense foi procurada para confirmar a versão do empresário. O vice-presidente de futebol Itair Machado ratifica o que foi dito por Carlinhos Sabiá à reportagem.

Em 17 de setembro de 2018, Carlinhos Sabiá recebeu uma declaração que o autorizava negociar pelo Cruzeiro. Uma das cláusulas da permissão, assinada pelo presidente Wagner Pires de Sá, dizia que o representante teria até 28 de setembro para firmar o acordo com o Palmeiras. O negócio foi concluído justamente no dia da expiração da licença. Este documento foi mostrado à reportagem pelo próprio agente. No entanto, ele não autorizou que fosse feita uma fotografia ou cópia do mesmo.

Um mês mais tarde, em 28 de outubro de 2018, Carlinhos Sabiá e Itair Machado assinaram o contrato de comissionamento pela venda do lateral-direito. O documento estabelece que o agente ficaria com 10% do valor total recebido pelo Cruzeiro na negociação. Como os mineiros embolsaram R$ 8 milhões no acordo, o empresário foi agraciado com R$ 800 mil. O pagamento ao agente foi dividido em duas parcelas idênticas de R$ 400 mil. A primeira foi paga em 29 de setembro de 2018, enquanto a segunda foi enviada em 19 de outubro do mesmo ano. Ambos os depósitos aconteceram antes da assinatura do compromisso.

O problema é que a empresa utilizada na intermediação do acordo, a Jeo Rafah Sports EIRELI, só foi registrada na CBF em 1º de novembro de 2018, de acordo com o próprio Carlinhos Sabiá. A companhia, em nome do filho do agente, Felipe Costa Isidoro, foi criada no mesmo ano, em 24 de janeiro, e já havia operado de forma irregular em outras negociações. Uma delas foi a ida de Bruno Silva do Botafogo para o Cruzeiro, no início da temporada. Na ocasião, o empresário faturou R$ 1.101.920,00 pela contratação do jogador.

Como consequência disso, Sabiá não informou à CBF os valores recebidos nas comissões pelas negociações de Bruno Silva e Mayke. Para fiscalizar clubes e empresários, a entidade divulga anualmente as operações que contaram com a participação de intermediários registrados. A Jeo Rafah Sports, por exemplo, aparece no relatório deste ano por conta da venda do mesmo Bruno Silva do Cruzeiro ao Fluminense.

A reportagem apurou que a CBF está investigando algumas das operações feitas pelo Cruzeiro desde a matéria do Fantástico e já solicitou documentos à diretoria do clube.

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