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Com retrato de Brasil opressor, Bacurau deve "sair da bolha", diz diretor

O diretor Kléber Mendonça Filho e a atriz Sônia Braga, de Bacurau, em Gramado - Cleiton Thiele/Agência Pressphoto/Divulgação
O diretor Kléber Mendonça Filho e a atriz Sônia Braga, de Bacurau, em Gramado Imagem: Cleiton Thiele/Agência Pressphoto/Divulgação
do UOL

Carlos Helí de Almeida

Colaboração para o UOL, em Gramado (RS)

19/08/2019 04h00

Desde maio, quando Bacurau fez sua estreia mundial no Festival de Cannes, seus autores, os pernambucanos Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, são confrontados com a mesma questão: seria o filme, que descreve um futuro próximo violento e opressor, um retrato distópico do Brasil atual?

"Começamos a desenvolvê-lo há quase dez anos. As filmagens aconteceram no início do ano passado. Na verdade, o tempo, a realidade brasileira, é que acabaram convergindo na direção da ficção de 'Bacurau'", explica Mendonça Filho ao UOL, durante o 47º Festival de Gramado, onde o filme abriu, na última sexta-feira (16) a maratona gaúcha.

À época da projeção em Cannes, de onde o filme saiu com o prêmio do júri (dividido com o francês Les Misérables), o país era agitado por protesto contra os cortes de orçamento na pasta de Educação. Agora, às vésperas de seu lançamento nacional, no dia 29, o governo sinaliza com a possibilidade de censura a projetos fomentados pela Ancine (Agência Nacional do Cinema), e até mesmo com a sua extinção.

Trailer de Bacurau

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"Como cidadão e artista, é difícil entender o que está acontecendo, porque estamos caminhando em território virgem. A gente tem Constituição, leis e democracia, mas muitas dessas ideias de ordem estão sendo abandonadas. Não deveria haver plano de governo para acabar com uma área produtiva do país. Quando algo assim acontece, fico sem parâmetros para entender o que pode acontecer a partir de agora", diz o cineasta de 51 anos.

Bacurau fala sobre um grupo armado até os dentes determinado a apagar do mapa o vilarejo do título, uma minúscula comunidade encravada no interior do sertão pernambucano de população bastante heterogênea, em termos de raça, cor e identidade de gênero. A população oferece forte resistência às ambições de um político corrupto da região, símbolo de forças conservadoras dentro de um Nordeste plural.

É irônico que um filme dirigido por nordestinos e ambientado no Nordeste, região que rejeitou Jair Bolsonaro última eleição presidencial, tenha iniciado carreira brasileira em Gramado, reduto do candidato do PSL, onde recebeu 82,5% dos votos. "Estrear em Gramado não foi uma decisão política, mas de marketing, perfeito para o cronograma de lançamento comercial do filme", observa Mendonça Filho. "O mesmo aconteceu com O Som ao Redor (2013) e Aquarius (2016), que foram exibidos aqui um pouco antes da estreia no circuito".

"De qualquer forma, acho importante que estejamos aqui, no extremo Sul do país, num momento em que há uma tensão em relação ao Nordeste", continua o Mendonça Filho. "Para mim, é bonito ver que é através da arte que a gente pode promover esse encontro, essa reunião entre partes de um Brasil que se rachou", entende Dornelles, 39 anos, codiretor e coautor do roteiro. "O filme pode ser apreciado de diferentes níveis, por seu lado mais político, ou por seu viés de aventura, um entretenimento. Por isso tem dado certo".

Juliano Dornelles, diretor de Bacurau, em Gramado - Cleiton Thiele/Agência Pressphoto/Divulgação
Juliano Dornelles, diretor de Bacurau, em Gramado
Imagem: Cleiton Thiele/Agência Pressphoto/Divulgação

Os diretores justificam seu entusiasmo pelas reações nas redes sociais dos espectadores das primeiras pré-estreias de Bacurau, no último fim de semana. "Basta checar no Twitter: a totalidade de centenas de mensagens são positivas, inclusive de pessoas que são consideradas conservadoras", indica Mendonça Filho. "Tudo indica que o filme vai fazer um crossover de público. Números e análises apontam que crer que Bacurau vai sair da bolha". "Em dois dias de pré-estreias, foram vendidos cerca de 10 mil ingressos. Isso não é pouco", diz Dornelles.

Desde a vitória em Cannes, inédita para o cinema brasileiro, Bacurau tem acumulado prêmios em diversos outros festivais. É representante do país nos prêmios Goya, o Oscar do cinema espanhol. Em setembro, será exibido nos Festivais de Toronto, no Canadá, e Nova York, nos Estados Unidos, importantes plataformas para a temporada americana de prêmios. Isso o torna um dos mais fortes candidatos à vaga para representar o Brasil na corrida ao Oscar 2020, na categoria de melhor filme internacional.

O escolhido será anunciado dia 27 pela Academia Brasileira de Cinema. Entre os 12 inscritos na disputa pela vaga está A Vida Invisível de Eurídice Gusmão, do cearense Karim Aïnouz, vencedor do principal prêmio da mostra paralela Um Certo Olhar do Festival de Cannes. "É um fato: existem filmes brasileiros bons e competitivos que podem ser indicados ao Oscar, sem interferências absurdas e uso de critérios estranhos", ironiza Mendonça Filho, que viu Aquarius perder a indicação para Pequeno Segredo, de David Schurman, no Oscar de 2017.

À época, especulou-se que a derrota de Aquarius, então favorito à indicação brasileira, tinha motivações políticas: a equipe do filme liderou um protesto contra o governo do então presidente Michel Temer durante sua projeção em Cannes, em maio de 2016. Mendonça Filho informa que "Bacurau", uma coprodução com a França, será lançado dia 25 de setembro em território francês, e em janeiro nos Estados Unidos: "Mas se o filme for indicado pelo Brasil ao Oscar, anteciparemos a estreia americana para outubro".

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