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Produtora de 'O Homem Que Copiava' é acusada de racismo e diretora rebate

Mariani Ferreira e Luciana Tomasi, entre outros, em live sobre "Inverno" promovida pela APTC-RS - Reprodução/YouTube
Mariani Ferreira e Luciana Tomasi, entre outros, em live sobre 'Inverno' promovida pela APTC-RS Imagem: Reprodução/YouTube
do UOL

Liv Brandão

Do UOL, em São Paulo

07/07/2020 13h37

Durante um debate ao vivo promovido pela Associação Profissional de Técnicos Cinematográficos do Rio Grande do Sul (APTC-RS), as falas da produtora Luciana Tomasi (de "Saneamento Básico, o Filme", 2007, e "Meu Tio Matou um Cara", de 2004, e "O Homem Que Copiava", de 2003, além de séries da TV Globo como "Decamerão, a Comédia do Sexo" e "Brava Gente") foram acusadas de racismo.

Ao ser questionada sobre a possível influência francesa no filme "Inverno" (1983), produzido por Luciana, e a europeização do cinema gaúcho, a produtora frisou os sobrenomes de origem europeia entre a maioria dos convidados e falou a seguinte frase:

Não adianta a gente tentar fazer um filme da senzala, entende? (...) Eu inclusive tenho sangue francês (...) Cada um faz [filme] sobre a sua história.

Além dela, estavam presentes no debate o diretor e roteirista Giordano Gio, como mediador, além do diretor e roteirista Carlos Gerbase (marido e parceiro profissional de Luciana), o montador Giba Assis Brasil e a atriz Luciene Adami, todos parte da equipe de "Inverno". Completando a escalação, a roteirista Mariani Ferreira, única negra do grupo.

Gerbase e Adami riram das colocações de Luciana, que foi interpelada por Mariani, com a voz embargada:

Acho que tem duas coisas no cinema gaúcho que sempre me impressionam: essa coisa de mostrar uma Porto Alegre que é apenas um recorte da Porto Alegre real, não é a Porto Alegre total. Ao mesmo tempo em que essa Porto Alegre é a Porto Alegre dos Tomasi, dos Gerbasi, dos Adami, Porto Alegre também é a Porto Alegre dos Oliveira Silveira. Porto Alegre é onde nasceu o 20 de novembro [feriado do Dia da Consciência Negra]. É bem triste dizer que não se faz 'filmes de senzala' em Porto Alegre.

Após Luciana dizer que "se fazem filmes de senzala em Porto Alegre", Mariani respondeu que estes, na verdade, são filmes da Casa Grande:

A gente vê uma representação extremamente branca, uma Porto Alegre muito branca nesses filmes.

Em seu perfil no Instagram, Mariani publicou um desabafo:

Uma fala extremamente racista e infeliz defendeu que o cinema que não é feito por descendentes de europeus, deve contar a sua própria história: a senzala. Nossa existência é muito maior do que apenas a história da dor que nossos ancestrais sofreram nas mãos dos europeus e seus descendentes. Filmes feitos por pessoas negras são filmes e ponto. Cineastas pretes têm abordado em seus trabalhos diversos assuntos, com sensibilidade e talento.

#Repost @macumba_lab (@get_repost) ??? NOTA DE REPÚDIO: Em live da APTC-RS (Associação Profissional de Técnicos Cinematográficos), no dia 03 de julho, uma fala extremamente racista e infeliz, defendeu que o cinema que não é feito por descendentes de europeus, deve contar a sua própria história: a senzala. Nossa existência é muito maior do que apenas a história da dor que nossos ancestrais sofreram nas mãos dos europeus e seus descendentes. ? ? Filmes feitos por pessoas negras são filmes e ponto. Cineastas pretes têm abordado em seus trabalhos diversos assuntos, com sensibilidade e talento. Lamentamos profundamente que em 2020 ainda se conheça tão pouco sobre a cultura brasileira. E escrevemos cultura brasileira porque a cultura negra é parte central dessa cultura. Reiteramos que a história negra é rica, muito além da senzala e da escravidão. Escravidão, que mesmo findada há séculos, insistem em nos imputar como sendo nossa história e ponto. Nossa história é mais do que o que fizeram conosco, vai além do genocídio que marca nossas peles com ferro quente. ? É urgente que reflitamos uma narrativa que faça jus à grandeza da negritude, consideramos de suma importância lembrar e fazer lembrar que quem tem o hábito de colocar o negro em lugar de subalternidade nas telas é a branquitude.? ? "Temos que falar sobre libertar mentes tanto quanto libertar a sociedade" (Angela Davis).? Edit 1: Na versão original desde post, chamávamos a fala apenas de infeliz. Mas a afirmação feita durante a live foi racista, foi um ato de racismo. Por isso arrumamos ali em cima. É sempre importante denunciar atos de racismo pelo que eles são. ? #MacumbaLab #pretosnocinema #artistaspretos #vidasnegrasimportam #tempretonosul #audiovisualpreto?? #cinemapretogaucho

Uma publicação compartilhada por Mariani Ferreira (@marianiferreira90) em

Após trechos do debate ganharem repercussão nas redes sociais, a APTC-RS editou a descrição da íntegra do debate no YouTube, para incluir o aviso "este vídeo contém falas de cunho racista" junto de um comunicado:

O silêncio e omissão dos outros participantes após o ocorrido expõe ainda mais uma realidade do audiovisual brasileiro branco que é incapaz de perceber ou reagir imediatamente a absurdos como o que registramos aqui. Não poderíamos ter sido omissos naquele momento, independente do quão chocados estávamos. A APTC reconhece e pede mais uma vez desculpas pelo seu erro de não ter reagido com a urgência necessária à situação, não se posicionando imediatamente.

Assistir as falas de cunho racista e o silêncio dos presentes neste debate, é desconfortável, doloroso e ofensivo. Porém, é importante deixar disponível o registro dessa discussão na íntegra, para que não caiamos no erro de invisibilizar o debate em uma sociedade contaminada pela forte herança colonial e escravocrata, contexto no qual essa entidade surgiu e se consolidou.

Luciana, por sua vez, publicou um extenso pedido de desculpas em seu perfil no Instagram:

Antes tarde...

Uma publicação compartilhada por Luciana Tomasi (@luciana_tomasi) em

Quem nos conhece e sabe sobre as causas pelas quais sempre lutamos sabe que nenhum sentimento de exclusão ou preconceito cabe em nosso coração. Mas isso, de maneira nenhuma, nos exime do erro cometido

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