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Sem apoio oficial, escolas de Porto Alegre fazem Carnaval da superação

Reprodução/Facebook/imperadoresdosamba/
Desfile da escola Imperadores do Samba Imagem: Reprodução/Facebook/imperadoresdosamba/
Anderson Baltar

Anderson Baltar é jornalista, formado pela UFRJ e tem 42 anos. Com mais de 15 anos de experiência na mídia carnavalesca, foi assessor de imprensa da União da Ilha e Império Serrano, produtor de Carnaval da TV Globo e trabalhou em coberturas de desfiles nas rádios Manchete e Tupi. Desde 2011, é âncora e coordenador da Rádio Arquibancada, web rádio com programação inteiramente voltada para o Carnaval. Em 2015, lançou o livro "As Primas Sapecas do Samba", ao lado dos também jornalistas Eugênio Leal e Vicente Dattoli.

do UOL

2019-03-18T20:11:19

18/03/2019 20h11

Após chegar ao fundo do poço, com o cancelamento dos desfiles em 2018, Porto Alegre comemora a retomada de seu Carnaval. O último final de semana marcou, na sexta e no sábado, o retorno das apresentações das escolas de samba. Seis agremiações do Grupo Ouro (equivalente ao Especial) e oito do Grupo Prata (Acesso) desfilaram pelo Complexo Cultural do Porto Seco, na Zona Norte da capital gaúcha.

A vitória dos Imperadores do Samba, que conquistaram o bicampeonato celebrando seus 60 anos de existência, não foi o fato mais relevante. Em meio ao esforço conjunto pela retomada dos desfiles, todas as agremiações têm motivos para comemorar. Sem subvenção da prefeitura de Porto Alegre desde que Nelson Marchezan Jr assumiu o poder, em 2017, as escolas, congregadas pela Uecgapa (União das Escolas de Samba do Grupo de Acesso de Porto Alegre), conseguiram, via venda antecipada de camarotes, bancar a estrutura mínima para os desfiles. Na falta de verba para arquibancadas, largas áreas livres foram abertas gratuitamente para o público, que a ocupou com suas cadeiras de praia e bolsas térmicas recheadas de cerveja e salgadinhos.

Se a pista de desfiles foi viabilizada, as escolas, por outro lado, tiveram que encontrar uma solução para bancar seus cortejos. Valendo-se da reciclagem de materiais, do trabalho por mutirão e de pequenos apoiadores, conseguiram, de forma bastante digna, colocar seus carnavais na rua. Como medida para conter gastos, o julgamento do quesito alegorias e adereços foi suspenso. Mesmo assim, todas as escolas desfilaram com um número razoável de elementos alegóricos.

No que diz respeito ao que aconteceu na pista, os desfiles proporcionaram momentos de emoção. Bons sambas-enredos e baterias competentes animaram o público, que caiu no samba sem se importar se o visual não era tão opulento como nos anos anteriores. No Grupo Ouro, que não teve rebaixamento, os Imperadores conquistaram mais uma vitória para sua galeria, com Estado Maior da Restinga, Império da Zona Norte, União da Vila do IAPI, Imperatriz Dona Leopoldina e Bambas da Orgia nas colocações seguintes. No Grupo Prata, a vitória foi da Império do Sol, da cidade de São Leopoldo, na região metropolitana de Porto Alegre.

Falhas aconteceram, mas não empanaram o brilho da festa. A iluminação da pista deixou a desejar, assim como a demora entre um desfile e outro, ocasionada pela existência de apenas um carro de som para todas as escolas. O julgamento também desagradou, com alguns jurados repetindo a danosa prática de banalizar a nota 10.

Com simplicidade, os sambistas de Porto Alegre deram uma lição para os aficcionados por Carnaval de todo o país. Em uma cidade em que a cultura negra pulsa, apesar de ignorada pela inteligentsia oficial, colocar na rua um desfile sem qualquer apoio é algo a ser exaltado. O samba gaúcho dá sinais de recuperação e deixa um gosto de expectativa para 2020. Se for mantido fora da data oficial e com todo um ano pela frente para solucionar eventuais falhas e conseguir formas de financiamento mais seguras, Porto Alegre tem tudo para voltar a ter um dos principais desfiles de escolas de samba do país.

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