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Sem experiência na saúde, Wizard quer cloroquina e fala em ajudar na gestão

Wizard ao lado do presidente Jair Bolsonaro - Reprodução/Instagram
Wizard ao lado do presidente Jair Bolsonaro Imagem: Reprodução/Instagram
do UOL

Lucas Borges Teixeira

Colaboração para o UOL, em São Paulo

06/06/2020 04h00

Isolamento social, testagem e tratamento precoce com kit que inclui cloroquina. Este é o plano do empresário Carlos Wizard Martins, 63, para combater a proliferação do novo coronavírus ao assumir a Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos do Ministério da Saúde.

Fundador de rede de escolas de inglês cujo nome ele posteriormente anexou ao seu, Wizard foi convidado pelo ministro interino, general Eduardo Pazuello, para compor a pasta da Saúde. Ao UOL, o empresário disse ver o uso do kit que inclui cloroquina para casos leves como uma das soluções para frear a curva ascendente no Brasil. A eficácia do medicamento para tratar covid-19, porém, ainda não tem comprovação científica.

Com participação em empresas de diferentes segmentos, Wizard é listado como bilionário pela revista Forbes e ainda não tem experiência em gerenciamento público ou na área da saúde. Sua fortuna é estima em R$ 2,8 bilhões. Ele diz que deverá contribuir com sua expertise em gestão e promete doar o salário.

Wizard está em Brasília desde segunda-feira (1), se reunindo com membros da secretaria e do governo.

Sem histórico no setor público

Sobre o fato de não ter histórico no setor público ou na área da saúde, Wizard diz não ver problema e que o objetivo é ajudar na gestão.

"Eu não sou médico, o ministro [Pazuello] não é médico e tampouco o presidente da OMS [Tedros Adhanom] é médico. Observe que nosso papel é muito mais de enfrentar uma crise, considerar as alternativas, as possíveis soluções. Nós contamos com equipes de profissionais médicos, autoridades altamente qualificadas que servem como consultores para que nós possamos tomar as decisões", afirma o empresário.

Convidado por Pazuello, com quem trabalhou por dois anos na Operação Acolhida, de recebimento de imigrantes venezuelanos na fronteira em Roraima, esta será sua primeira incursão no setor público.

O desafio é grande. Desde o início da pandemia, em fevereiro, ele será o terceiro a ocupar a secretaria. Os outros dois, Denizar Vianna, ligado a Luiz Henrique Mandetta, e Antônio Carlos de Carvalho, ligado a Nelson Teich, saíram quando os dois ex-ministros deixaram a Pasta.

"É um cenário novo. Enquanto você é o presidente de empresa no setor privado, se você amanhece num dia, [olha] a cor da parede, azul, e diz 'a partir de hoje vai ser cor de rosa', tudo que você precisa fazer é chamar os pintores. Já no setor público, eu vou ter de passar por muitos encontros, aprovações, intermediações, protocolos, esperas e hierarquias até, finalmente, ser aprovada a pintura da parede de cor de rosa", exemplifica o empresário, em tom bem humorado.

Pró-cloroquina

Como o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), Wizard defende o uso da cloroquina para casos leves e no tratamento precoce. Segundo o empresário, esta é uma droga antiga que pode ajudar no combate, se somada a outras medidas.

"Vejo [a adoção de cloroquina] de uma forma muito tranquila, segura, com bastante convicção e sem qualquer margem de dúvida. As pessoas pensam que a cloroquina foi lançada em 2020, pelo contrário: faz 70 anos que esse medicamento está no mercado. Está sendo consumido pelo mundo inteiro", afirma Wizard.

Ele aponta que o tratamento precoce deve ser feito junto a medidas de isolamento e de higiene e ao aumento da testagem.

"Nós temos que tomar as devidas precauções. Defendo isolamento social, defendo que a pessoa deve usar máscara, luva, ter todas as precauções. Não é só cloroquina, é um kit com outros medicamentos", afirma o empresário. " É diagnóstico, testagem e tratamento precoce."

Seu modelo é a cidade de Porto Feliz, no interior paulista, que passou a adotar, junto à quarentena, o chamado "kit covid-19" em maio. Os cidadãos são examinados e quem estiver com sintomas iniciais da doença recebe um kit com hidroxicloroquina, azitromicina, enoxaparina, remédio para enjoo e anti-inflamatório.

"O prefeito Cássio Prado [PTB] é médico e tomou todas as medidas preventivas para proteger a população", afirma Wizard. Apesar disso, até a última quinta (4), Porto Feliz tinha 3 óbitos e 54 casos confirmados, segundo a Secretaria da Saúde de São Paulo, a mesma proporção de mortes registrada nacionalmente: 5,5%.

Rejeição à cloroquina é "questão ideológica"

Para Wizard, os questionamentos à droga têm sido feitos por motivos políticos. "Lamentavelmente, [o uso] se transformou em uma questão ideológica. As pessoas hoje estão divididas. Mas me permita afirmar que existem centenas de estudos científicos que defendem o uso", declara o empresário.

"Pessoas que vão para a Amazônia tomam constantemente cloroquina. Meu filho, Charles Martins, passou dois anos na África, toda semana ele tomava cloroquina. Agora será que cinco dias de uso da cloroquina vai dar taquicardia, vai dar arritmia? Claro que não", questiona o empresário.

Ainda não há, no entanto, um consenso científico sobre o uso do medicamento. A OMS (Organização Mundial da Saúde) diz não haver comprovação científica de que o remédio reduza a mortalidade.

Para Wizard, o que tem mantido as curvas de óbitos e casos ascendentes é a manutenção do isolamento social sem nenhum acompanhamento ou tratamento precoce.

"Sabe o que me preocupa de verdade? São aquelas pessoas que não fazem tratamento precoce. Elas não são diagnosticadas, não são testadas, ficam em casa e, quando essa pessoa passa para a fase 3 [mais grave], vai pro hospital, descobre que já está muito avançada. Daí ela vai ter que ser internada, vai para a UTI [Unidade de Tratamento Intensivo], vai ter que ser intubada, depender de respiradores... Lamentavelmente, milhares de brasileiros já perderam a vida seguindo esse protocolo", afirma Wizard.

Defensor do aumento da testagem, ele diz que já deverá ir ao Rio de Janeiro na próxima segunda-feira (8) para visitar a Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), um dos centros de referência em pesquisa de infectologia na América Latina.

Bilionário, empresário e dono de diversos negócios

Se esta será a primeira incursão no setor público, no privado Wizard tem uma experiência considerável. Formado pela universidade norte-americana BYU (Brigham Young), da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, o curitibano fundou a rede de escolas de inglês Wizard em 1987.

Por meio do modelo de franquias, ele expandiu o negócio até criar o Grupo Multi Educação, então formado por redes de escolas de idiomas e profissionalizantes, como Yázigi, Microlins e Skill. Em 2013, o negócio foi vendido para o grupo britânico Pearson por R$ 1,95 bilhão.

Com os ganhos, Wizard comprou, por meio da sua assessoria de investimentos Sforza Holding, a Mundo Verde, maior rede de lojas de produtos orgânicos e naturais da América Latina. No ano seguinte, entrou para o meio esportivo e fundou, juntou ao ex-jogador Ronaldo Nazário, a rede de escolinhas de futebol Ronaldo Academy. Também criou a BR Sports, hoje dona da operação das marcas Topper e Rainha.

Empresário Carlos Wizard, dono da rede de franquias Mundo Verde - Davi Ribeiro/Folhapress - Davi Ribeiro/Folhapress
Wizard é conhecido por ter empresas em diversos segmentos
Imagem: Davi Ribeiro/Folhapress

Em 2016, expandiu ainda para o setor de alimentação e trouxe ao Brasil a rede norte-americana de fast-food Taco Bell e, dois anos depois, adquiriu as operações da Pizza Hut e do KFC, de frango frito.

Wizard voltou ao mundo da educação em 2017, com a compra de 35% da Wiser Educação, dona das redes WiseUp e NumberOne, do empresário Flávio Augusto da Silva, que também tem participação do fundo de investimentos Kinea, do Itaú.

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