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"CPI escancarou ação pró-Covid por parte do presidente", diz cientista política

27/10/2021 06h58

A cientista política Luciana Santana, professora na Universidade Federal de Alagoas e também na Universidade Federal do Piauí, conversou com a RFI sobre a aprovação do relatório final da CPI da Covid-19, que pede a punição do presidente Jair Bolsonaro e de mais 79 pessoas. Para a analista, o trabalho da comissão de inquérito entra para a história por ter deixado às claras uma ação coordenada do governo federal para confundir a população sobre como agir diante do coronavírus.

A cientista política Luciana Santana, professora na Universidade Federal de Alagoas e também na Universidade Federal do Piauí, conversou com a RFI sobre a aprovação do relatório final da CPI da Covid-19, que pede a punição do presidente Jair Bolsonaro e de mais 79 pessoas. Para a analista, o trabalho da comissão de inquérito entra para a história por ter deixado às claras uma ação coordenada do governo federal para confundir a população sobre como agir diante do coronavírus.

"Se essa CPI não fosse instaurada, provavelmente a gente continuaria hoje com muitas das nossas interrogações", afirma Santana. Ela cita como dúvidas que poderiam persistir se o presidente não teria coordenado um trabalho para ajudar o país na pandemia, se ele é realmente inapto ou se contribuiu com a estratégia pró-Covid. "Será que as pessoas ali do lado do presidente sabiam que se atuava deliberadamente dessa forma?", evoca, acrescentando que "hoje, a gente não tem mais muitas dessas dúvidas e já tem evidências de como isso se deu, que existiu uma estratégia deliberada dentro do governo para que as melhores e mais corretas decisões não fossem tomadas, para que a população tivesse uma insegurança em relação às informações e não soubesse quem seguir, se o governador, o prefeito ou presidente". "Isso nós conhecemos hoje graças à CPI", destaca Santana.

Para a analista política, depoimentos e apurações mostraram o que o próprio presidente, na ponta, reverberou durante toda pandemia. "A gente tem os agravantes, que é a irresponsabilidade por parte do Executivo, especialmente do presidente, de forma muito extensa, explícita, não apenas numa documentação, não apenas em algum testemunho, mas a gente diariamente viu isso nos noticiários, ouviu do próprio presidente o que ele pensava da pandemia, a contrariedade dele em relação à ciência, a contrariedade em relação a medidas sanitárias importantes que deveriam ter sido adotadas."

A especialista reconhece que o cidadão comum sente às vezes uma sensação de impotência diante de acusações tão graves e sem perspectiva de punição no curto prazo. Mas espera que haja resposta do Judiciário e que outras apurações venham na sequência. "Agora essa CPI acabou, mas o reflexo continua. E vamos ficar atentos ao que vai acontecer depois."

Santana cita a CPI das Fake News, por exemplo, que está parada e pode voltar. "Há uma expectativa muito grande que ela seja um complemento do que foi a CPI da Covid, inclusive compartilhando várias provas, vários documentos", avalia.

O mais difícil nessa análise, afirma a cientista política, é compreender as razões que levaram o presidente a agir dessa forma, vendo sua popularidade despencar, insistindo em erros e equívocos que contrariavam não só cientistas, mas todo o planeta, como a importância da vacina.

É uma questão bastante complexa. "Eu acho que a opção de adotar a estratégia do conflito vem do próprio perfil de Bolsonaro", opina. "Ele já era uma figura complicada como parlamentar e tentou trazer isso para o Executivo, tanto que ainda no primeiro ano de mandato, após vencer com boa vantagem de votos, seu índice de aprovação cai muito", recorda. "No ano seguinte, então, isso já derrete. Não houve aproximação do Congresso no início, só em meados do ano passado ele procura o Legislativo, o centrão, quando sua situação já era bem delicada", conclui Santana.

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