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Críticas de Bolsonaro à China afetam negócios com maior parceiro comercial?

Presidente Jair Bolsonaro em evento em 2019 com líderes da Africa do Sul, Índia, Rússia e China - Pedro Ladeira/Folhapress
Presidente Jair Bolsonaro em evento em 2019 com líderes da Africa do Sul, Índia, Rússia e China Imagem: Pedro Ladeira/Folhapress
do UOL

João José Oliveira

16/05/2021 04h00

Resumo da notícia

  • Comentários do presidente da República contra China atrapalham atração de investimentos
  • Segundo executivos que fazem negócios da China no Brasil, atração de investimentos poderia ser maior
  • Infraestrutura é setor que mais precisa de capital externo para grandes projetos

O atraso no envio de insumos chineses para a produção de vacinas aqui no Brasil pode não ser o único impacto negativo para país após novas críticas feitas pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido) à China. Os comentários agressivos contra os chineses também estão atrapalhando a entrada de investimentos novos para setores como os de energia, transportes e tecnologia, dizem executivos que fazem intermediação dessas transações.

A China é atualmente o maior parceiro comercial do Brasil, o país que mais compra produtos brasileiros. Os chineses são também um dos principais investidores estrangeiros nos setores de infraestrutura e tecnologia, áreas em que a economia brasileira precisa de capital para se desenvolver, destacam economistas.

Nas câmaras de comércio, que são muitas vezes a porta de entrada no Brasil de empresários chineses interessados em negócios no mercado brasileiro, há relatos de reuniões canceladas ou adiadas depois que Bolsonaro acusou os chineses de terem aproveitado a pandemia para superar outras economias.

Agenda de negócios suspensa

Segundo o presidente da CCIBC (Câmara de Comércio e Indústria Brasil-China), Charles Tang, que lidera uma das principais organizações chinesas desse perfil aqui no país, muitas transações dependem de fatores como financiamento ou aprovações de órgãos reguladores.

E por isso, a cada comentário contra a China, aponta ele, surge o temor de que a burocracia seja usada para travar um projeto, por exemplo. Daí, as negociações emperram.

Se tem negócio suspenso por causa das posições do governo sobre a China? Vou responder dando um exemplo. O mundo inteiro está correndo para ajudar a Índia. A China mandou milhões de vacinas para a Índia. A China não está correndo para ajudar o Brasil. Por que ajudou a Índia e não o Brasil?
Charles Tang, presidente da CCIBC - Câmara de Comércio e Indústria Brasil-China

Sem acusações, haveria mais negócios fechados

Segundo a especialista em desenvolvimento de negócios Brasil-China, Isabelle Carvalho Costa Pinto, há empresas chinesas prontas para fazer investimentos no setor de tecnologia, uma área que está ganhando espaço na agenda de negócios dos chineses no Brasil.

O setor de tecnologia e inovação vem ganhando espaço no interesse dos chineses. O Brasil tem grande demanda, e, do lado chinês, há capital e conhecimento para investir. A China já tem grandes fundos de investimentos dispostos a alocar recursos no setor de serviços, que já estão olhando onde há oportunidades no Brasil, mas também em outros países. Se não tivéssemos tanta tensão e ruído, haveria mais negócios já fechados neste ano.
Isabelle Carvalho Costa Pinto, pesquisadora de relações internacionais pelo programa de pós-graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas (UNESP - Unicamp - PUC-SP)

Receio de que retórica vire ação

Segundo a professora brasileira que atua na Universidade de Negócios Internacionais e Economia, em Pequim (China), Tatiana Prazeres, os chineses são pragmáticos e analisam oportunidades de investimento no Brasil de maneira prática e objetiva, sempre com foco no longo prazo.

O problema, pondera Tatiana, que já foi assessora sênior do diretor-geral da Organização Mundial do Comércio, em Genebra, e secretária de Comércio Exterior do Brasil, é que cada declaração negativa de membros do governo brasileiro alimenta entre investidores chineses o receio de que alguma ação concreta seja tomada contra o país.

Os chineses analisam oportunidades no Brasil olhando o longo prazo. Mas se esses comentários mais duros do governo brasileiro em relação à China se traduzirem em medidas concretas, há consequências para os investimentos chineses no Brasil. Então, é claro que há um certo receio por parte da China de que isso possa acontecer, que essa retórica se traduza em medidas concretas.
Tatiana Prazeres, senior fellow na Universidade de Negócios Internacionais e Economia de Pequim

Dinheiro demora mais para chegar

Segundo executivos de três bancos que financiam ou intermedeiam projetos de infraestrutura no Brasil para grupos chineses, as negociações com a China demoram. Podem ser meses ou às vezes anos antes de um negócio. É o padrão de negociação com os chineses, dizem.

Mas esse ritual se tornou ainda mais forte nos últimos dois anos, apontam os executivos dos bancos, que pediram para não serem identificados. Segundo eles, o recado que interlocutores chineses passam é: "se valer a pena, a gente vai investir, mas o dinheiro vai demorar mais para chegar".

Impacto nos leilões de privatização

Esse atraso pode ser um problema para investimentos que têm momento definido para acontecer. Caso dos leilões de privatização ou de concessão de empresas e serviços públicos.

Neste ano, por exemplo, já tivemos as concessões de aeroportos, portos, de ferrovia e da empresa de saneamento do Rio. Nenhum grupo chinês apresentou uma proposta vencedora.

Os chineses são maduros e pragmáticos, de forma que se se convencerem que têm oportunidades no Brasil, vão participar dos leilões. Mas o presidente da República é a voz que representa um país. Então, declarações despropositadas relativamente a um dos nossos maiores parceiros comerciais e financeiros geram, no mínimo, constrangimentos.
Antonio Corrêa de Lacerda, conselheiro da Sobeet - Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais e Globalização Econômica

Segundo Corrêa de Lacerda, também diretor da Faculdade de Economia, Administração, Contábeis e Atuariais da PUC-SP, o governo brasileiro deveria se esforçar para focar as relações com a China nas oportunidades e nas condições efetivas de parcerias, em vez de perder tempo com desaforos.

Por que a China é importante para o Brasil?

Comércio internacional: A China é o maior parceiro comercial do Brasil, para exportação e importação.

A relação comercial com a China garante ao Brasil saldo positivo de US$ 35,4 bilhões em 2020. O Brasil reduziu gastos, importando 2,7% a menos (US$ 34,6 bilhões), e exportou mais, com aumento de 7,3% (US$ 70,08 bilhões) o triplo das vendas para os EUA.

Por que Brasil precisa exportar mais? Se exporta mais produtos, o Brasil recebe mais dólares. E os exportadores brasileiros que vendem para a China, por exemplo, podem aumentar a produção e, dessa forma, também contratar mais trabalhadores, gerando mais empregos.

A China é um parceiro comercial importante da indústria brasileira. A participação deles na infraestrutura é absolutamente estratégica, em grandes projetos mais estruturantes, como transportes e energia, por exemplo. E não há dúvidas de que declarações que foram de fato muito hostis contra um parceiro comercial do tamanho da China não ajudam em nada. Tanto é que o governo está mudando a postura com o novo chanceler (ministro de Relações Exteriores).
Venilton Tadini, presidente da Abdib - Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base

Investimentos diretos: A China é um dos líderes em investimentos estrangeiros no Brasil, com presença em diversos setores da economia. Os investimentos chineses em negócios brasileiros desde 2008 superam US$ 70 bilhões em 66 transações, segundo dados do China Global Investment Tracker, publicado por The American Enterprise Institute e The Heritage Foundation, que reúnem dados de 3.500 negócios da China em todo o mundo nos últimos 12 anos.

Desde 2010, os investimentos chineses no Brasil passaram por quatro ondas. A primeira delas mirou o setor de matérias-primas, com investimentos em mineração e petróleo. Depois, a partir de 2010, a China entrou na indústria de bens de capital e de consumo, com a chegada das montadoras, por exemplo. Veio então a terceira onda, desde 2013, nos serviços financeiros.

Desde 2014, os chineses estão investindo mais fortemente em energia e infraestrutura. Agora é a vez do setor de tecnologia.

Na pauta dessa área, está o lançamento do 5G no Brasil, a quinta geração das redes móveis e da banda larga. A China tem capital e tecnologia para disputar os leilões, mas enfrenta resistência do governo.

Continuo sentindo falta de uma estratégia de atração de investimentos por parte do Brasil. Afinal, o que queremos do investimento estrangeiro?
Antonio Corrêa de Lacerda

Governo não comenta

O UOL procurou o governo para comentar o efeito das declarações do presidente Bolsonaro nas relações com a China, mas não teve resposta.

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