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'Quer que faça o quê?' Sugestões de vários setores a Bolsonaro na covid-19

MATEUS BONOMI/AGIF/ESTADÃO CONTEÚDO
Imagem: MATEUS BONOMI/AGIF/ESTADÃO CONTEÚDO
do UOL

Alex Tajra, Arthur Sandes, Ana Carla Bermúdez e Wanderley Preite Sobrinho

Do UOL, em São Paulo

30/04/2020 04h01

"E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê? Eu sou Messias, mas não faço milagre", disse o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) anteontem ao ser questionado sobre a escalada de mortes no país devido ao novo coronavírus.

A declaração causou "indignação" em governadores, pedidos de "solidariedade com as famílias" por parte da apresentadora da Fátima Bernardes e críticas vindas de comentaristas políticos.

Com mais de 5 mil mortes causadas pela covid-19, segundo a contagem governamental, o país vive também uma profunda crise econômica e social, como mostram as filas diárias de desempregados e autônomos na porta dos bancos — situações que requerem ação governamental rápida, segundo especialistas de diversas áreas ouvidos pelo UOL.

A pedido da reportagem, eles citaram medidas que o presidente da República poderia capitanear:

  • Marcelo Neri: Usar ONGs para distribuir os R$ 600

    "O governo não pode fazer o pagamento do auxílio, que é de certa forma uma compensação para ficar em casa, e encorajar as pessoas a descumprir o isolamento. O que o governo precisa é de coerência. Pior que apontar para uma direção, é apontar para duas. A Caixa precisa pensar em uma outra forma para distribuir essa renda. Antes da pandemia já havia muitas filas, mas era parte do plano de ajuste fiscal: dificultar a concessão de benefícios do INSS, do Bolsa Família, fazia bem ao ajuste. Só que essa fila quilométrica que era virtual, agora é real e joga contra a economia. Para melhorar esse processo de distribuição de renda, o governo poderia usar mais as estruturas dos Cras [Centros de Referência de Assistência Social], ou pedir auxílio das organizações não governamentais, coisa que o governo abomina." (Neri é economista, ex-presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada e diretor da FGV Social)

  • Carlos Nobre: "Precisamos de muita pesquisa"

    "O primeiro ponto é ver o impacto positivo que a diminuição da poluição do ar nas grandes cidades teve na saúde. Essa melhora serve como uma pequena amostra do que deveria ser nosso norte: uma cidade com menor risco para a saúde humana. O governo tem que aproveitar esse momento em que temos cidades menos poluídas e realmente acabar com a queima de combustível fóssil, investir em frotas elétricas e em novas matrizes energéticas. O segundo é a Amazônia. Com a destruição, o desmatamento, corremos o risco de gerarmos epidemias e pandemias, já que a floresta tem centenas, milhares de tipos de vírus. Imagina se aparecer um vírus desses, com a facilidade da transmissão do coronavírus e a mortalidade de um ebola? Temos sorte de isso nunca ter acontecido. Por isso precisamos de muita pesquisa, primeiro pra saber o que temos lá, e depois para termos poder de previsão" (Nobre é cientista e pesquisador sênior do Instituto de Estudos Avançados da USP)

  • Mario Scheffer: "Fila única de UTI é a melhor alternativa ao colapso"

    "Uma regulação única de leitos de UTI para atender Covid-19 em caráter provisório e tempo inicial mínimo de três meses. Com a presença do SUS e setor privado na coordenação, seriam reunidos leitos do SUS já existentes antes da pandemia, leitos públicos novos, leitos privados ocupados por clientes de planos de saúde infectados, e leitos privados ociosos comprados emergencialmente pelo SUS. Definido esse estoque único em cada estado, deveria existir um painel em tempo real com disponibilidade e ocupação de cada leito. O governo precisa liberar os recursos extraordinários prometidos ao SUS e que ainda não chegaram, unificar o preço das diárias de UTI, seja pública ou privada e tornar mais atrativa a remuneração de médicos e profissionais das UTIs." (Scheffer é especialista em saúde pública e professor da Faculdade de Medicina da USP)

  • Cláudia Costin: MEC deve coordenar e apoiar atividades de ensino remoto

    "Uma coisa é o estado de São Paulo oferecer aprendizagem em casa por diferentes meios; outra coisa é uma cidadezinha do interior do Nordeste oferecer isso. Seria muito melhor com a coordenação do Governo Federal. O papel do Ministério da Educação, que ele [Bolsonaro] deveria coordenar, é concentrar a ação de mitigação de riscos de aumento da desigualdade educacional e de piora da crise de aprendizagem. O que o Bolsonaro poderia fazer em educação é coordenar a política educacional." (Costin é mestre em Economia Aplicada à Administração, professora visitante na Faculdade de Educação da Universidade de Harvard e diretora geral do Centro de Excelência e Inovação em Políticas Educacionais da FGV-RJ)

  • Eder Gatti: "Assumir que o país não tem testes"

    "A primeira coisa que o governo federal precisa fazer é assumir a pandemia como uma agenda de governo. Não parece que seja uma prioridade que o governo queira resolver. Nós não temos feito uma quarentena adequada até agora. Não tem jeito: pedir para as pessoas ficarem em casa não é suficiente. O governo precisa subsidiar, de fato, as famílias mais pobres, principalmente os informais e sem emprego. Sem renda, a pessoa terá que sair de casa. O valor de R$ 600 é baixo para a subsistência das famílias e muita gente não consegue receber. Em relação aos testes, os hospitais informam ao governo as notificações de SRAG (Síndrome Respiratória Aguda Grave), que inclui diversas doenças, inclusive a covid-19. Então conhecemos o número da síndrome e não a causa. Até sair o resultado, há subnotificação. O governo só promete, mas não oferece exames para detectar a covid-19. É preciso assumir que não tem exames e divulgar o número de casos e óbitos suspeitos.? (Gatti é médico infectologista, doutor em medicina preventiva e presidente do Sindicato dos Médicos de São Paulo)

  • Cris Olivieri: oferecer linhas de crédito para profissionais da cultura

    "Como política específica, é preciso que sejam abertas linhas de crédito para as empresas e para os microempreendedores individuais, porque a maior parte dos trabalhadores da área da cultura tem MEI. A ideia é que o governo pense em diferentes créditos para diferentes tamanhos. Para os microempreendedores, um crédito de valor não muito alto, de R$ 10 mil, mas generoso --sem juros e com grande prazo de carência, de pelo menos 12 meses. Para as pequenas empresas, um microcrédito de até R$ 100 mil com juros ao redor de 0,5% ao mês, também com carência. E para as empresas maiores, um crédito de até R$ 1 milhão com juros de 0,35% ao mês, mais a taxa Selic, com carência também. Também defendemos a liberação de parte do Fundo Nacional da Cultura, que hoje está contingenciada, para a realização de editais online ou futuros. O mesmo com o Fundo Setorial do Audiovisual, que tem cerca de R$ 1,5 milhão em editais já realizados mas que ainda não foram pagos. É preciso pensar na sobrevivência das empresas e dos artistas. A Secretaria da Cultura deve ter isso em mente: que a covid é força maior e que o uso do dinheiro deve ser feito para a sobrevivência das pessoas." (Olivieri é integrante do Fórum Brasileiro pelos Direitos Culturais, especializada em consultoria jurídica e estratégica para arte, cultura e entretenimento)

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