Topo
Notícias

Da recuperação ao risco de recessão: como a guerra afundou a economia mundial

22/08/2022 06h15

Era para ser o ano da confirmação após uma forte recuperação em 2021 sem confinamentos. Mas, depois de seis meses de guerra, 2022 será mais um ano melancólico para a economia mundial.

- Duas economias "pequenas" sacodem o mundo -

"Há seis meses, o quadro macroeconômico era muito diferente de hoje", disse a agência de classificação S&P Global em nota.

Na época, havia boas perspectivas de crescimento e a inflação era considerada "em boa parte transitória".

Mas "as coisas mudaram, e não para melhor", completou a S&P Global.

Grandes organizações internacionais reduziram sistematicamente suas previsões de crescimento global para este ano. O Fundo Monetário Internacional (FMI) agora prevê um crescimento de 3,2%. Em outubro de 2021, a projeção era de 5%.

Era difícil imaginar em 24 de fevereiro, dia do início da invasão russa da Ucrânia, que dois países que representam somente 2% do PIB e do comércio mundial, segundo a OCDE, afundariam o planeta na depressão.

Apesar desse peso modesto no cenário da economia global, a Ucrânia e a Rússia são potências no comércio de grãos e energia, e a guerra fez os preços dispararem.

- Alimentos, gasolina... Tudo mais caro -

Da Europa aos Estados Unidos, da América Latina à África, o cenário é o mesmo.

Na Tunísia, "as classes trabalhadoras estão passando por uma catástrofe", afirmou Naima Degaoui, uma enfermeira aposentada de 70 anos.

"Os preços sobem em quase todos os lugares, é o pêssego, o damasco, a pimenta cujo preço quadruplicou, a carne vermelha", acrescentou.

A 11.000 km de distância, em Valparaíso, no Chile, Nayib Piñeira, assistente social de 33 anos, disse que "tudo está mais caro". Um litro de gasolina custa 1.300 pesos, "praticamente o que um cidadão europeu paga com um salário europeu".

A alta dos preços dos alimentos, somada ao custo do transporte e de produtos como o trigo, os azeites e os fertilizantes, foi tamanha que a ONU alertou para o risco de um "furacão de fome" na África, embora os preços tenham baixado nas últimas semanas.

A indústria também sente o impacto: os maiores setores consumidores de energia, como o químico, o siderúrgico e o metalúrgico, estão sofrendo, prejudicando a manufatura na Alemanha e na Itália. 

Na China e no Japão, a indústria está enfraquecida pela estratégia chinesa de tolerância zero no combate à covid-19.

- Bancos centrais e autoridades políticas ultrapassadas -

Diante da inflação galopante, a política de ajuda maciça associada aos confinamentos durante a pandemia voltou à tona, apesar das dívidas públicas historicamente altas.

Subsídios ao aquecimento, descontos nos combustíveis, tetos de preços e impostos sobre os lucros das companhias petrolíferas... Os países europeus competem na imaginação, enquanto os Estados Unidos adotam sua "Lei de Redução da Inflação", um plano de investimentos de US$ 370 bilhões.

O apoio público tornou-se ainda mais essencial à medida que os bancos centrais endurecem a política monetária para reduzir a inflação.

"Eles não têm mais escolha", resume Bertrand Candelon, professor de finanças da Universidade Católica de Lovaina.

Esses aumentos acentuados nas taxas de juros já causaram um colapso nos mercados financeiros. O índice S&P500 - das 500 maiores empresas listadas na bolsa dos Estados Unidos - registra suas piores perdas semestrais em 14 anos.

- Possível recessão após desaceleração mundial -

Os indicadores globais inspiram pouco otimismo: a confiança do consumidor americano está perto de seu ponto mais baixo da história, e o ânimo dos empresários alemães está no menor nível em dois anos, enquanto o setor imobiliário chinês sofre uma grave crise.

Quanto à energia, a Europa enfrentará "um inverno de todos os perigos", alertou Candelon, caso a Rússia reduza ainda mais o fornecimento de gás ao Velho Continente.

Juntamente com as políticas menos acomodatícias dos bancos centrais, este colapso gera temores de uma recessão mundial, embora por enquanto as principais previsões excluam esse cenário mais pessimista.

Mas há sinais de que a economia global é resiliente. Os mercados mundiais na Europa e nos Estados Unidos estão em boa forma, levando o governo Joe Biden a afirmar que seu país não está em recessão, apesar de dois trimestres consecutivos de queda do PIB.

Em nota, analistas do HSBC compararam a economia mundial com o experimento de física quântica conhecido como Gato de Schrödinger: "a economia mundial pode estar em recessão e não estar", disseram eles, assim como o gato pode estar vivo ou morto dentro da caixa.

alb/jbo/mas/am/mvv

© Agence France-Presse

Notícias