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Rio: ONG aponta subnotificação no Complexo da Maré

Complexo da Maré, no Rio - Douglas Lopes/Redes da Maré
Complexo da Maré, no Rio Imagem: Douglas Lopes/Redes da Maré

Wilson Tosta

Rio

27/05/2020 13h11

Um levantamento feito pela ONG Redes da Maré aponta indícios de subnotificação de infecções e mortes pelo novo coronavírus na comunidade da zona norte carioca, onde vivem mais de 140 mil pessoas. Segundo a organização, até 18 de maio foram registrados na região 193% mais doentes e 65% mais óbitos do que a contagem da prefeitura. A Secretaria Municipal de Saúde afirma desconhecer a metodologia do trabalho.

Os números da Redes reforçam a suspeita de que nas áreas mais pobres do Rio a doença tem dinâmica peculiar. Impulsionada por más condições sanitárias e pela descrença da população, o vírus pode ter avançado mais do que se supõe oficialmente. "Não há testagem", disse Eliana Sousa, diretora e fundadora da ONG.

"Pode ser que algumas pessoas estejam morrendo e o diagnóstico não seja conclusivo. Muitas mostram (o atestado de óbito e dizem): 'Olha, não está dito que foi covid-19, porque não houve testagem, mas está dizendo que a pessoa morreu por complicação respiratória.'"

Segundo dados oficiais, na Maré, até a segunda-feira da semana passada, havia 89 infectados e 23 mortos. A Redes contrapôs a contagem que apurou até então no bairro: 261 infectados e 38 mortos. Nos dois casos, considerou tanto confirmados por testagem como casos suspeitos.

O levantamento apontou que 47% dos óbitos estavam sob investigação e que 80% dos pacientes com sintomas não foram testados. Os dados foram compilados a partir de informações passadas pelas redes sociais e checadas por equipes da ONG, que foram às casas de moradores com sintomas.

"Alguns moradores que também apresentaram sintomas nem sequer buscaram atendimento, pois foram orientados a ficar em isolamento em caso de sintomas leves", indica boletim da Redes.


Moradora da comunidade Marcílio Dias, uma das 16 da Maré, Valdineide Bernardo foi uma das pacientes sintomáticas que buscou ajuda médica e recebeu orientação para voltar para casa. Ela contou que a filha Gabriela, grávida e com 17 anos, teve tosse por três dias. Depois, quem começou a tossir foi Valdineide, diabética. Vieram febre, dor de garganta. Ela foi ao Centro Municipal de Saúde João Cândido, onde a médica receitou um antibiótico. Não houve encaminhamento para exame. Na pequena casa, o pai de Valdineide também adoeceu.

"Aqui é um cubículo: um quarto, uma sala, um banheiro. Então, provavelmente deve ser (covid-19). E não mandaram fazer o teste", queixou-se.

Ela reclamou que levou o pai, idoso e diabético, que tinha sintomas, três vezes para ser examinado. Mas disseram que ele estava bem, sem nada na garganta. "E meu pai piorando." Sem ambulância, levou-o em um carro de aplicativo ao Hospital Getúlio Vargas, onde foi internado e aguarda resultado do teste.

Eliana diz que orientações sobre a covid-19 — como ficar em casa se sintomas forem leves — foram inadequadas para moradores de comunidades. Ela também reclamou do que chamou de "sucateamento" das unidades de saúde e da falta de recursos. "Não tem oxímetro (aparelho que mede oxigenação) nas Clínicas da Família."

Erros de endereço — a Maré é bairro desde 1994 — também estariam engordando números dos vizinhos Bonsucesso e Ramos.

Dados oficiais

A Secretaria Municipal de Saúde ressaltou que "os dados que divulga são de casos confirmados por exames laboratoriais". Também informou que o registro por bairros considera a notificação com o endereço informado pelo paciente. A pasta ainda negou sucateamento das unidades de atenção primária nas comunidades do Rio.

A secretaria afirmou que pacientes internados com suspeita de Síndrome Respiratória Aguda Grave "são testados logo nas primeiras 24 horas da internação ou até antes".

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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