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EUA indicia Maduro por narcoterrorismo; Venezuela denuncia 'golpe de Estado'

26/03/2020 21h00

Washington, 27 Mar 2020 (AFP) - Os Estados Unidos indiciaram nesta quinta-feira (26) o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, por narcoterrorismo e ofereceram até US$ 15 milhões por informações que permitam sua detenção, o que o governo da Venezuela denunciou como uma "nova modalidade de golpe de Estado".

"Queremos que seja capturado para que possa responder por seus atos em um tribunal americano", disse o procurador-geral, Bill Barr, durante coletiva de imprensa realizada por videoconferência por causa da pandemia de Covid-19.

Consultado sobre a conveniência desta medida quando um terço das pessoas em todo o mundo estão em isolamento social para evitar contágios da doença, Barr disse que se deve fazer "tudo o possível" para livrar a Venezuela da corrupção do governo Maduro.

O Departamento de Justiça americano também apresentou acusações contra o número dois do regime venezuelano, Diosdado Cabello; o vice-presidente encarregado da Economia, Tareck El Aissami; o ministro da Defesa, Vladimir Padrino; e o presidente do Tribunal Supremo de Justiça, Maikel Moreno; bem contra os militares reformados Hugo Carvajal, ex-chefe da Inteligência militar; e Clíver Alcalá Cordones.

Maduro e 14 funcionários e ex-funcionários, assim como um empresário venezuelano e dois líderes da desmobilizada guerrilha comunista das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) - Iván Márquez e Jesús Santrich - são acusados de usar a cocaína "como uma arma" contra os Estados Unidos nas últimas duas décadas, faturando centenas de milhões de dólares.

O Departamento de Justiça acusou Maduro, integrante do governo de seu antecessor, o falecido presidente Hugo Chávez (1999-2013), de liderar o grupo narcotraficante Cartel de los Soles e de trabalhar junto com as Farc, considerada uma organização terrorista por Washington.

"Durante mais de 20 anos, Maduro e vários colegas de alto escalão supostamente conspiraram com as Farc, provocando a entrada de toneladas de cocaína e devastando as comunidades americanas", disse Barr.

A Venezuela vive um colapso econômico aprofundado desde a chegada de Maduro ao poder, em 2013, que provocou a fuga do país de quase cinco milhões de pessoas, segundo a ONU.

- "Nova modalidade" -De Caracas, o chanceler Jorge Arreaza criticou o passo dado por Washington como uma tentativa de derrubar Maduro.

"O governo de Donald Trump volta a investir contra o povo da Venezuela e suas instituições democráticas, utilizando uma nova modalidade de golpe de Estado com base em acusações miseráveis, vulgares e infundadas", disse.

Barr disse que os Estados Unidos não reconhecem a legitimidade de Maduro como chefe de Estado da Venezuela, como tampouco reconhecia Manuel Noriega como presidente do Panamá, quando foi acusado de narcotráfico em 1989.

As diferentes acusações foram apresentadas em Nova York, Flórida e Washington DC.

"As ações de hoje enviam uma mensagem clara aos funcionários corruptos em várias partes de que ninguém está acima da lei ou para além do alcance do cumprimento da lei americana", destacou, por sua vez, o chefe interino da agência americana antidrogas, a DEA, Uttam Dhillon.

Se for julgado e condenado, Maduro pode ser condenado à prisão perpétua. Mas não está claro como o governo de Trump pode levá-lo perante um juiz.

- "Cocaína como arma" -O Departamento de Estado também ofereceu recompensas de até 10 milhões de dólares por informações que permitam deter Cabello, El Aissami, e outros dois acusados: Hugo Carvajal, ex-chefe de Inteligência militar, e Clíver Alcalá Cordones, colaborador próximo de Chávez.

Também prometeu 5 milhões de dólares para deter Iván Márquez, ex-número dois das Farc e chefe das negociações dos rebeldes no acordo de paz de 2016.

Segundo documentos judiciais, o Cartel de los Soles e a então guerrilha das Farc enviaram cocaína processada da Venezuela aos Estados Unidos através de pontos de baldeação no Caribe e em países centro-americanos, como Honduras.

"Maduro usou muito deliberadamente a cocaína como uma arma", disse o procurador federal Geoffrey Berman.

O Departamento de Estado estimou que 250 toneladas ou mais de cocaína transitavam pela Venezuela ao ano.

Ao anunciar as recompensas oferecidas com a finalidade de levar perante à Justiça Maduro e os funcionários e ex-funcionários venezuelanos, o chefe da diplomacia americana, Mike Pompeo, disse que "estas pessoas violaram a confiança pública, ao facilitar os envios de narcóticos a partir da Venezuela".

"O povo venezuelano merece um governo transparente, responsável e representativo, que atenda às necessidades do povo e que não traia a confiança do povo ao perdoar ou empregar funcionários públicos que se dediquem ao tráfico ilícito de narcóticos", disse Pompeo.

Acrescentou, ainda, o compromisso dos Estados Unidos para "ajudar o povo venezuelano a restaurar sua democracia através de eleições presidenciais livres e justas".

Os Estados Unidos, assim como outros quase 60 países, consideram fraudulenta a reeleição de Maduro em 2018 e apoiam os esforços de organizar novas eleições, liderados pelo opositor Juan Guaidó, presidente da Assembleia Nacional (Parlamento), a quem desde janeiro de 2019 reconhecem como presidente interino.

Mas apesar das pressões diplomáticas e de uma bateria de sanções de Washington, Maduro mantém o apoio de China, Rússia e Cuba.

O encarregado de política externa de Guaidó, Julio Borges, disse que as acusações são produto de uma investigação de dez anos. "A Força Armada deve escutar com atenção esta mensagem, deve ser um divisor de águas", afirmou.

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