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Cúpula conservadora ataca esquerda, vende bugigangas e escanteia crise

O deputado Eduardo Bolsonaro, na abertura da conferência CPAC Brasil - Bruno Santos/Folhapress
O deputado Eduardo Bolsonaro, na abertura da conferência CPAC Brasil Imagem: Bruno Santos/Folhapress
do UOL

Lucas Borges Teixeira

Colaboração para o UOL, em São Paulo

13/10/2019 09h31

"Sou conservador!" Este grito tomou o salão principal de um hotel de luxo em São Paulo durante todo o dia de ontem.

Em meio a bandeiras do Brasil (republicano e imperial), bonés com referências aos Estados Unidos e broches cristãos, a primeira edição do CPAC Brasil (Conferência de Ação Política Conservadora) reuniu a cúpula do governo Jair Bolsonaro (PSL) e entusiastas do conservadorismo de todo o país.

Importado dos Estados Unidos, o CPAC é considerado o maior evento conservador do planeta. No Brasil, foi trazido pelo deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) e pela Fundação Indigo, administrada pelo PSL. O objetivo foi debater os valores do conservadorismo, como defesas da família e da propriedade privada, respeito à religião e combate à possível ameaça do comunismo.

Entre influenciadores de direita e convidados internacionais, as principais estrelas do dia foram os representantes do governo, disputados pelos participantes atrás de selfies e autógrafos.

Entre os ministros, estavam Ernesto Araújo (Relações Exteriores), Damares Alves (Mulher, Família e Direitos Humanos), Onyx Lorenzoni (Casa Civil) e Abraham Weintraub (Educação). Até Ricardo Salles (Meio Ambiente) deu uma passada, mas não palestrou nem quis falar com a imprensa. O próprio presidente chegou a ser cotado para participar, o que acabou não se concretizando.

No palco principal, as pautas foram as mais variadas: o combate ao chamado "climatismo" por Araújo, a luta contra o aborto de Damares, a defesa do gênero biológico no esporte pela ex-jogadora de vôlei Ana Paula Henkel, o antifeminismo da deputada estadual Ana Campagnolo (PSL-SC) e a defesa do livre mercado por Weintraub.

A ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, foi muito aplaudida durante o CPAC - MARCELO CHELLO/CJPRESS/ESTADÃO CONTEÚDO
A ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, foi muito aplaudida durante o CPAC
Imagem: MARCELO CHELLO/CJPRESS/ESTADÃO CONTEÚDO

Em comum, a defesa do conservadorismo, dos valores cristãos e do governo Bolsonaro. "Vocês estão falando em reeleição? Eu estou! Precisamos de pelo menos 12 anos para mudar o Brasil", afirmou Damares, sob aplausos efusivos da plateia e gritos com o nome do presidente.

Damares foi a palestrante mais aplaudida do sábado. Com tom messiânico, ela comparou a esquerda ao demônio e afirmou que nenhum governo fez tanto pelos índios ou pelas mulheres quanto o atual.

As chamadas pautas de costume tiveram papel central. "Quando eu falei que menino veste azul e menina veste rosa, o recado que eu mandei é que o menino vai ser menino, menina vai ser menina", declarou Damares. "Chegou a nossa vez", respondeu um participante na plateia.

O meio ambiente foi outro tema muito debatido. Em sua apresentação, Araújo declarou que "a mudança climática deveria ser estudada de maneira serena, racional, mas foi capturada por uma ideologia". Segundo ele, o Brasil seria vítima deste "climatismo", uma derivação do "globalismo". Entre os participantes, era consenso que há outros interesses estrangeiros por trás da preocupação com a Amazônia.

A floresta tropical também foi tema de Bertrand de Orleans e Bragança, descendente da antiga família real brasileira. De acordo ele, a Amazônia continua 95% do mesmo jeito desde a chegada dos portugueses, em 1500.

O clima geral era de bom humor. Com educação e respeito, os participantes faziam filas para aparecer fazendo sinal de arma sob o logotipo da CPAC Brasil ou para conseguir uma foto com algum dos palestrantes.

No saguão, as tendinhas com produtos conservadores fizeram sucesso. Entre os livros, "Feminismo: Perversão e Subversão", de Campagnolo, foi o campeão de vendas, enquanto na banca de camisetas a preferência se deu entre as estampas "Meu partido é o Brasil", "Olavo tinha razão" e uma imagem de um cachorro defecando no símbolo do comunismo.

Outro item procurado foi a bandeira do Brasil monarquista, em diferentes tamanhos. A maior delas, vendida por R$ 150, "saiu muito", informou uma vendedora.

Críticas à esquerda

Como esperado, a esquerda foi duramente criticada pelos participantes. Depois de Olavo de Carvalho, elogiado por todos os que subiram ao palco e aplaudido repetidas vezes pela plateia, o pensador mais citado foi Karl Marx. Como origem do mal.

Eduardo Bolsonaro fala no palco, com imagem e frase de Olavo de Carvalho na tela atrás - Ligia Guimarães/BBC
Eduardo Bolsonaro fala no palco, com imagem e frase de Olavo de Carvalho na tela atrás
Imagem: Ligia Guimarães/BBC

"Eles são a origem de tudo o que é ruim", afirmou Bene Barbosa, presidente da ONG Movimento Viva Brasil, ao se referir a Marx e o colega Friedrich Engels.

Sob vaias e gritos de "ladrões" ou "preso", o consenso é que a esquerda, geralmente referenciada pelos palestrantes como "eles", é uma ideologia opressora.

"Os nossos adversários é que gostam de pensar por rótulos, palavras de ordem. Para eles, existe o gay, a mulher, o operário, o camponês. Para o conservador, existe essa e aquela pessoa. O esquerdismo é totalitário por isso, porque quer totalizar o indivíduo por uma de suas características", declarou o chanceler Araújo.

As críticas eram compartilhadas entre a plateia, que gritava que a bandeira brasileira "jamais será vermelha" e que "o PT destruiu o país".

Participação americana

Ativistas de direita durante o evento CPAC Brasil - MARCELO CHELLO/CJPRESS/ESTADÃO CONTEÚDO
Ativistas de direita durante o evento CPAC Brasil
Imagem: MARCELO CHELLO/CJPRESS/ESTADÃO CONTEÚDO
Outro destaque do evento foi a participação de membros da União Conservadora Americana (ACU, na sigla em inglês), responsável pela CPAC original.

Falaram nomes relevantes no cenário conservador internacional, como Mercedes Schlapp, que participou do setor de comunicação do governo de Donald Trump, e o senador Mike Lee, membro do Tea Party, a ala mais conservadora do Partido Republicano.

Ao lado do marido, Schlapp fez uma exposição de como notícias falsas têm influenciado na política norte-americana. Ela atribuiu à imprensa parte da sua propagação. "Estão vendo que não é só aqui?", questionou Eduardo Bolsonaro, o anfitrião da noite, após a mesa.

Já Lee defendeu o livre mercado e os valores da família cristã. Ele também contou que recebeu uma ligação do presidente Bolsonaro em 2018, quando ainda era candidato. "Único presidente realmente conservador da última geração, talvez duas últimas", declarou o republicano.

Ao final da noite, Eduardo ainda assinou um termo de colaboração com os representantes americanos para a CPAC Brasil se transformar em um evento anual.

Crise no PSL?

Um dos principais temas da política nesta semana, a crise no PSL foi deixada de lado pelos participantes.

"É um dia para celebrar e unir o conservadorismo", repetiu mais de um palestrante durante o sábado. Os deputados presentes, todos do partido, só falaram no tema quando questionados pela imprensa e indicaram mais fidelidade ao presidente Bolsonaro do que à sigla.

A crise, que vem aumentando desde que o presidente foi filmado dizendo para um eleitor "esquecer o PSL", ganhou novas proporções na noite de sexta (11), quando Bolsonaro e um grupo de 19 parlamentares assinaram um ofício exigindo auditoria das contas do partido.

Para muitos, isso representa uma jogada direta do presidente e de seu filho Eduardo para tomar o controle do partido. Eles rebatem com a justificativa de cumprir uma promessa de campanha e lutar pela transparência da legenda.

O grupo também diz dispensar o fundo partidário. Este dinheiro, no entanto, bancou indiretamente o evento. Conforme o UOL apurou, o CPAC Brasil custou cerca de R$ 800 mil do PSL.

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