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1 mês

Mulher encontra irmão internado e sem identidade depois de 4 anos em PE

Cilene Silva e Roberto Silva se reencontraram depois de anos separados - Arquivo Pessoal
Cilene Silva e Roberto Silva se reencontraram depois de anos separados Imagem: Arquivo Pessoal
do UOL

Diogo Cavalcante

Colaboração para o UOL, no Recife

28/02/2021 18h28Atualizada em 01/03/2021 08h38

Imagine a situação: você vive com seu irmão e, de repente, ele some. O sumiço dura anos a fio e a esperança de localizá-lo vivo se apaga. Muito tempo depois, aparece a Polícia na sua casa informando que ele estava o tempo todo internado em um hospital, sem identidade e, assim, sem possibilidade de localização. Parece ficção, mas é a história dos irmãos pernambucanos Cilene Silva e Roberto Silva, que se reencontraram recentemente depois de anos separados.

Cilene tem 61 anos e mora no bairro de Caixa D'Água, em Olinda (PE). Dona de casa, ela ajudou a criar Roberto, de 52, desde que ambos perderam a mãe. A convivência era difícil, por conta de alguns problemas do irmão. "Ele começou a ter problemas na mente, distúrbios. E começou também a ser uma pessoa que saía e voltava para casa. Às vezes sumia, às vezes voltava. Até que em 2016 ele saiu e não voltou mais", relembra ela, em entrevista ao UOL.

O sumiço preocupava, assim como a falta de notícias. Com o tempo, no entanto, a família começou a se acostumar com a ideia de que, possivelmente, Roberto estivesse morto. "Eu tinha para mim que tinham dado um fim nele", acreditava Cilene. Até que em outubro de 2020, um contato da Delegacia de Desaparecidos, da Polícia Civil de Pernambuco, mudou o rumo dessa história.

Tão perto, tão longe

A cerca de 10 quilômetros do bairro de Caixa D'Água, também em Olinda, fica o Hospital do Tricentenário. No final de 2018, deu entrada por lá um rapaz sem documentos e debilitado por conta de um espancamento. Desorientado, não falava muito sobre si. Dizia apenas que se chamava Apauli.

"Nesse período, fizemos algumas articulações com o Instituto de Identificação Tavares Buril (IITB), para tentar identificá-lo, mas sem sucesso. Até que em outubro do ano passado, o IITB coletou as digitais dele e conseguimos localizar seus familiares", conta a assistente social Arlete Aguiar. E qual a surpresa? O nome dele não era Apauli: era Roberto, o irmão de Cilene.

"Eu fiquei feito criança, né. Encontrei ele no hospital muito diferente, corado. A gente se reconheceu. Só que ele ficou meio atordoado. Agora que começa a lembrar mais das coisas", relata a dona de casa. Ela acredita que isso seja impacto das agressões que o irmão sofreu antes de entrar no hospital - ele tem três cicatrizes na cabeça.

Mas independentemente disso, a alegria de ver a nova imagem de Roberto é imensa. "Tem muita diferença, viu. Sabe um andarilho? Assim era ele. Já pensou o que é uma pessoa não saber o que é uma roupa limpa, um perfume, uma pasta? Ele agora anda limpo. Antes ele não conversava 'coisa com coisa', agora fala", emociona-se.

O homem permanece internado no hospital até que a família consiga tirar toda sua nova documentação - está pendente o CPF - e, assim, ele possa voltar para casa. "Passei anos chorando, dia e noite. Agora eu vou todos os dias visitá-lo. Se for preciso, vou até de pé, sem ônibus, com muita alegria", afirma Cilene.

Ajuda da Polícia

O reencontro de Cilene e Roberto foi possível por conta do Projeto Reencontro, da Polícia Civil. Como citado acima, coletaram as impressões digitais do homem e confrontaram com os dados disponíveis no IITB. "Mensalmente, a Delegacia de Desaparecidos manda uma relação dos registros de pessoas desaparecidas. E o IITB, reconhecendo as digitais, faz uma busca manual e eletrônica no sistema interno. Isso agiliza o trabalho", conta o delegado Bruno Magalhães, gestor do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa.

"Começamos o programa em outubro de 2020, pegando 25 casos. Em 17 deles, houve sucesso no reencontro - nem todos com vida; em três descobrimos que a pessoa procurada já havia morrido. E temos a missão de continuar em 2021. Já estamos selecionando novos casos para atuar", afirma.

Agora que reencontrou o irmão, Cilene aproveita para passar uma mensagem de conforto às pessoas. "Eu sei que a fé vai embora, a certeza, tudo vai. Mas quando a gente olha para cima, lá no fundo, a gente tem uma esperança ainda. Mesmo que dê tudo contrário, não desista de procurar", finaliza.

Errata: o texto foi atualizado
Diferentemente do que informou o nono parágrafo, o nome do irmão de Cilene é Roberto, e não Paulo. A informação foi corrigida.

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