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Brexit reacende debate sobre reunificação das Irlandas

11/12/2019 17h12

Javier Aja.

Dublin, 11 dez (EFE).- Os possíveis efeitos do "Brexit" sobre o Reino Unido dominam a campanha para as eleições desta quinta-feira na região, mas também reinseriram na pauta um debate escandeado nos últimos anos: a reunificação das Irlandas.

A maior parte da população da Irlanda do Norte, que segue como parte do Reino Unido, rejeitou a saída da União Europeia (UE) no referendo de 2016. E o possível estabelecimento de uma fronteira com os vizinhos do sul após o "Brexit", caso não haja acordo entre as partes, é um dos principais obstáculos das negociações.

Para os norte-irlandeses estão em jogo nas eleições britânicas 18 das 650 cadeiras da Câmara dos Comuns, um número pequeno se considerado o enorme impacto do "Brexit" sobre a província autônoma.

Dez delas foram ocupadas na última legislatura pelo ultraconservador Partido Democrático Unionista (DUP), pró-Reino Unido e principal representante da comunidade protestante da Irlanda do Norte.

O DUP também é defensor da saída da UE, mas não de qualquer "Brexit". Os unionistas querem deixar o bloco comunitário mantendo as mesmas condições que o restante do Reino Unido, a fim de proteger os vínculos econômicos e constitucionais que possui com a Grã-Bretanha (Escócia, País de Gales e Inglaterra).

Para o DUP, o acordo firmado pela ex-primeira-ministra britânica Theresa May com a UE não oferecia essas garantistas. Os parlamentares unionistas, parte da base do Partido Conservador na Câmara dos Comuns, votaram contra o pacto em três oportunidades.

Boris Johnson substituiu May no cargo, mas também não conseguiu convencer o DUP de aprovar o texto renegociado por ele com o bloco europeu. Sem conseguir fazer o acordo avançar no Legislativo, o ex-chanceler britânico se viu obrigado convocar eleições antecipadas.

As pesquisas projetam uma vitória de Johnson, mas ainda há dúvidas se o atual premiê conseguirá ter votos suficientes para obter a maioria absoluta da Câmara dos Comuns. Caso isso ocorra, ele não precisaria mais do DUP e seguiria em frente com o plano de saída.

Para Cathal McCall, professor de Política na Queen's University de Belfast, nenhum dos grandes partidos da Irlanda do Norte, sejam os unionistas ou os nacionalistas, o Brexit de Johnson.

O DUP, inclusive, já disse ter sido traído por Johnson. Isso porque o acordo de saída negociado por ele estabelece a criação de uma "fronteira aduaneira legal" entre Irlanda do Norte e Irlanda, que permanecerá na UE.

No entanto, na prática a fronteira será estabelecida no mar que separa a ilha da Irlanda da Grã-Bretanha. Sendo assim, os controles alfandegários serão realizados pelas autoridades britânicas nos portos da Irlanda do Norte sob supervisão da UE.

Da forma como o sistema foi negociado por Johnson, a divisória entre as Irlandas seguiria sendo invisível, o que é essencial para as economias dos dois países, altamente conectados, e para o processo de paz.

Segundo McCall, porém, os unionistas temem que o Brexit de Johnson amplie o descontamento da Escócia e obrigue o Reino Unido a aceitar um novo referendo de independência da região.

O segundo principal partido da Irlanda do Norte, o Sinn Féin, antigo braço político do já inativo Exército Republicano Irlandês (IRA) e majoritário entre os católicos, se opõe a qualquer Brexit.

Para essas eleições, nacionalistas do Sinn Féin, republicados e outros grupos políticos contrários ao Brexit, como os Verdes, decidiram se aliar para desbancar os candidatos unionistas.

O plano de médio prazo da coalizão, segundo McCall, é desgastar o DUP e aumentar a pressão sobre o governo do Reino Unido para que seja realizado um novo referendo de reunificação das Irlandas.

A possibilidade de convocar a consulta está prevista no Acordo de Belfast, de 1998, responsável por encerrar mais de 30 anos de conflito na região.

Segundo o professor, a prioridade do processo de paz nos últimos anos era conseguir uma razoável estabilidade política e acabar com a violência. Uma mudança na situação constitucional da região era vista por muitos como um objetivo ainda muito distante.

A decisão do Reino Unido de sair da UE mudou a situação. Agora, não se descarta em Belfast e Dublin convocar um referendo de unificação nos próximos cinco anos.

"O Brexit complicou as coisas. Se estima que um terço dos eleitores unionistas defende seguir na UE e talvez mude de voto agora. Obviamente eles não votarão no Sinn Féin, mas há outras alternativas, como o Partido Aliança e os Verdes", explicou McCall.

"As diferenças entre unionistas e nacionalistas não desapareceram. O Brexit, porém, somou um novo fator no cálculo. Ele obrigou as pessoas a se questionarem se é melhor permanecer no Reino Unido ou estar dentro da UE, opção que exigiria se reintegrar à Irlanda", completou o professor.

Com esse cenário, se Johnson não conquistar a maioria absoluta, Sinn Féin poderia contribuir para um eventual governo de coalizão do Partido Trabalhista, liderado por Jeremy Corbyn.

"É possível que o Sinn Féin abandone o abstencionismo histórico (o partido se recusa a tomar posse por divergências com a coroa britânica) se Corbyn, que tem antigo laços com o grupo, der garantias sobre um referendo de unificação", disse McCall. EFE

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