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Bairro descolado de Madri expõe falhas de inflação na Europa

Todd White

17/10/2019 15h50

(Bloomberg) -- No descolado bairro de Malasaña, em Madri, o aluguel de Ramon G. Del Pomar triplicou para 3,5 mil euros (US$ 3,9 mil) por mês quando seu contrato foi renovado. É o tipo de aumento exorbitante que se tornou um flagelo de áreas emergentes em toda a Espanha nos últimos anos - enquanto a inflação oficial é de cerca de 1%.

"Quando ouço 1%, dou risada", disse Del Pomar, 69 anos, em entrevista. "O número deve ser falso, porque agora muitas pessoas pagam mais da metade de sua renda apenas por um apartamento."

A aparente desconexão entre as estatísticas oficiais e os custos do mundo real apontam para um problema no centro da política monetária europeia: apesar dos melhores esforços do banco central e flexibilização quantitativa de um total de 2,6 trilhões de euros, a inflação permanece insistentemente baixa. Se as experiências de indivíduos como Del Pomar servem como referência, os índices de preços ao consumidor podem estar abaixo do esperado porque faltam informações importantes - o que significa que a política do Banco Central Europeu está mal calibrada.

Com o início de uma nova era de estímulo e críticas contra bancos centrais por sua impotência, a questão de como calcular a inflação é parte crucial do debate. E a precisão das estatísticas do setor de habitação na zona do euro tem sido um ponto de discórdia.

A S&P Global Ratings disse esta semana que o BCE deveria incluir os custos dos proprietários nos cálculos das moradias. Segundo o economista da S&P, Sylvain Broyer, a medida provavelmente levaria o banco central para outro caminho de política monetária, em direção à estabilidade financeira e distante do afrouxamento.

"Se o BCE tivesse como meta essa inflação mais alta, poderia ter evitado reiniciar o QE em setembro", disse Broyer sobre a flexibilização quantitativa.

Na Europa, não há dados privados sobre custos de moradia para que estatísticos do governo os utilizem como comparação e, de alguma forma, esses custos foram minimizados nas leituras de inflação na Espanha e em muitos países desenvolvidos. Os preços de compra de imóveis, que tendem a superar ou acompanhar os aluguéis, sobem cerca de 5% ao ano na Espanha e 4% no índice geral da zona do euro.

A S&P calcula que, se o BCE levasse em consideração os preços das residências ocupadas por proprietários, sua medida de IPC aumentaria 0,3 ponto percentual e estimularia um "aumento sustentável" nas expectativas de inflação do banco central.

A Espanha tenta melhorar a temperatura do mercado imobiliário e apresentará um novo índice no próximo mês. A maioria dos contratos de aluguel de novos apartamentos que entram no mercado está excluída da inflação, de acordo com relatório do Banco da Espanha. Os preços de aluguéis em oferta saltaram 50% em todo o país nos últimos 5 anos e meio, segundo a pesquisa. Os estatísticos do governo calcularam que os custos de moradia subiram apenas 3% no período.

Um porta-voz da Eurostat, que compila dados de preços, disse que, embora a revisão do índice de inflação para capturar mais custos de moradia tenha sido considerada e rejeitada em 2018, "a pesquisa continuará". Uma porta-voz do BCE não quis comentar.

"Como 60 euros por mês podem cobrir o custo da habitação?", disse Boris Cournède, economista veterano da Organização de Desenvolvimento Econômico que escreveu um artigo de pesquisa em 2005 sobre o impacto da exclusão das moradias dos cálculos do IPC. "O preço de um acampamento seria mais do que isso."

--Com a colaboração de Ainhoa Goyeneche, Paul Gordon e Paul Dobson.

Para contatar o editor responsável por esta notícia: Daniela Milanese, dmilanese@bloomberg.net

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