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Indígenas bolivianos marcham contra política ambiental de Evo Morales

16/10/2019 21h03

Santa Cruz de la Sierra, Bolívia, 17 Out 2019 (AFP) - Na entrada de Santa Cruz, ponto de chegada de uma marcha indígena contra o presidente Evo Morales, candidato no próximo domingo a um quarto mandato na Bolívia, a poderosa cacique Beatriz Tapanache chora de raiva.

"Estou preocupada. Não é possível que deixem sem territórios as próximas gerações. Isto não é justo". Evo Morales "diz ser um governante indígena, mas é sim um ditador", afirma Beatriz Tapanache, 64 anos e grande cacique da região de Chiquitania, onde vivem cerca de 80 mil pessoas duramente atingidas por incêndios recentes.

Os gigantescos incêndios que em agosto e setembro devastaram parte da Bolívia provocaram indignação nas comunidades indígenas, que acusam Morales de trair a Pachamama - Mãe Terra - em favor dos agricultores de soja e criadores de gado.

Os defensores do meio ambiente reprovam Morales por promover uma lei que autoriza o aumento de cinco para 20 hectares das queimadas para atividades agrícolas.

O governo atribui os incêndios à seca, aos fortes ventos e ao desmatamento ilegal, mas os indígenas culpam Morales.

"Isto fugiu do controle do governo com pessoas que não conhecem as matas, a selva, a Chiquitania (região devastada pelos incêndios). Foi um descontrole terrível", disse à AFP Adolfo Chávez, líder indígena da bacia amazônica.

"A nação 'chiquitana' foi a mais afetada, a mais atingida porque vive do dia a dia na selva. Vive da coleta, da fruta, da caça, da pesca, do que planta", disse Chávez sobre a extensa planície do leste da Bolívia, entre o Gran Chaco e a Amazônia.

Chávez, que caminha na estrada para Santa Cruz, participou de marchas indígenas anteriores, incluindo a grande mobilização de 2012.

Na ocasião, protestavam contra a estrada através do "Tipnis", um parque natural com um milhão de hectares onde vivem cerca de 50 mil indígenas.

Desta vez, muitos nativos não puderam fazer a viagem, diante da difícil situação em suas regiões.

"Quem vai sustentar nossos irmãos nos próximos seis meses? Já não se pode fazer o que se fazia. As casas queimaram (...), não há mais madeira para se construir nada", lamentou.

- Terras altas, terras baixas -Os indígenas do Altiplano, as terras altas de onde vem Morales, estão na marcha para apoiar seus irmãos das planícies, das terras baixas.

Juan Jaita Aro, 53 anos, é um deles. Sombrero e poncho vermelho tradicional, como muitos outros manifestantes, em um ramo de árvore na mão. É o Lapacho ou árvore sagrada dos incas, de flores rosas, chamado de "Tajibo" na Bolívia e muito presente na Chiquitania.

Além das matas, "os animais também foram queimados e o meio ambiente, contaminado. Por este motivo estamos aqui para apoiar nossos irmãos indígenas das terras baixas", disse Juan, do departamento de Potosí.

"Nós jamais estivemos com Evo Morales porque também nas terras altas fomos atingidos, também fomos explorados, ancestralmente (...). Não o consideramos um indígena, ele é o colonizador da coca do Chapare, porque ele não fala aimara e também não fala quéchua".

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