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SC: Gêmeos escapam de ataque a escola por atraso para fazer exames

Franciely dos Santos Weckert e Ederson Weckert com os filhos gêmeos Maria Helena (à esquerda) e Miguel Antonio - Hygino Vasconcellos/UOL
Franciely dos Santos Weckert e Ederson Weckert com os filhos gêmeos Maria Helena (à esquerda) e Miguel Antonio Imagem: Hygino Vasconcellos/UOL
do UOL

Hygino Vasconcellos

Colaboração para o UOL, em Saudades (SC)

09/05/2021 04h00Atualizada em 09/05/2021 08h18

Dois gêmeos escaparam do ataque à escola Aquarela por uma decisão súbita dos pais. Miguel Antonio e Maria Helena, de 1 ano e seis meses, eram da mesma turma na qual estudavam as quatro crianças que foram esfaqueadas na última terça-feira (4) - só uma delas sobreviveu. Duas professoras também foram mortas.

Os irmãos chegaram atrasados à creche, pois foram fazer exames de rotina. A atendente Franciely dos Santos Weckert, 30 anos, e o técnico agrícola Ederson Wechert, 32, chegaram a levar os filhos até a porta da sala de aula, mas, ao verem as outras crianças dormindo na "hora da soneca", decidiram trazê-los de volta para casa. Isso ocorreu às 8h40, aproximadamente uma hora antes de o esfaqueador entrar no local.

"Eu olhei para dentro da salinha e eles estavam todos dormindo e a televisão estava em um volume bem baixinho, não sei nem se ouviam, deveria estar passando musiquinha de ninar. Se a gente deixasse eles, de certo modo iria atrapalhar o sono (das outras crianças), porque iríamos bater na porta e acordar a turminha toda para deixar só dois, então falei para meu marido: 'Vamos levar para casa'", conta a atendente ao UOL.

Franciely estava de folga do trabalho, em uma confeitaria na cidade vizinha de Pinhalzinho, e decidiu que iria aproveitar o dia com as crianças. Pouco mais de uma hora após o casal deixar a escola, a atendente recebeu um telefonema do marido, que naquele horário já estava no trabalho na cidade vizinha de Cunhataí.

"Quando ele me ligou, eu não entendi muito o que ele estava querendo me falar. Daí eu disse: 'Calma, me explica direito porque eu não estou entendendo'. Daí ele falou: 'Na creche. Teve um ataque na creche. Entrou um cara na creche e machucou as professoras, machucou as crianças'. Mas ele não sabia me falar o que tinha acontecido direito", explica.

Preocupada, a atendente saiu de casa e foi às pressas até a escola, a cerca de 500 metros de distância. Com ela, estavam a sogra, os gêmeos e o outro filho do casal, Anthony Henrique, de 6 anos.

"Quando nós conseguimos nos aproximar, chegar bem em frente ao portão da creche, uma professora veio na minha direção e me abraçou tão forte, e ela disse: 'Que bom que vocês não trouxeram as crianças hoje'. Aí eu falei para ela: 'Mas o que que aconteceu?'. Daí ela explicou que um cara entrou na escola e foi direto na salinha deles. E ela disse: "Foi horrível, a única coisa que a gente conseguiu fazer foi salvar as outras turminhas, trancar as outras portas, porque a gente não tinha o que fazer. Aí ela me abraçou e disse: 'Vocês tiveram muita sorte que eles não vieram'. Eu perdi meu chão", relata.

Além dos gêmeos, uma outra criança também não foi à aula pois estava gripada.

Exames adiados

Os exames dos filhos do casal já deveriam ter sido feitos havia 15 dias, mas a família decidiu fazer justamente no dia do ataque. Ao chegar ao hospital, a menos de duas quadras da residência deles, os pais se deram conta que tinham esquecido a caderneta de saúde das crianças e tiveram que voltar para casa - o que os atrasou ainda mais.

"No dia a dia a gente levava as crianças na creche e via, conhecia os pais das outras crianças. Eu sou natural de Saudades, então a maioria eu conheço, e saber que era da mesma turma a gente fica apavorado, são pessoas próximas", relata o pai.

O casal foi com os filhos nas cerimônias de despedida às vítimas e relataram que ficaram bastante abalados. "Eu até falei para a minha sogra que eu não deveria ter ido porque a minha cabeça ficou...sabe quando tu começa a imaginar coisas demais? E tu pensa: 'Meu Deus'. É uma situação que eu não sei se suportaria passar, de verdade, não sei se aguentaria [perder os filhos]", explica Franciely.

Quatro dias após o ataque, a mãe ainda não sabe quando vai levar os filhos de volta à escola. "Eu estou com bastante medo. A gente não sabe o que vai acontecer no dia de amanhã. Vamos esperar pelo menos até a investigação terminar, para ver se tinha só ele [o autor do crime]. Por que é muito difícil. A gente jamais quer que isso aconteça de novo, ninguém quer. Então, de certo modo a gente vai ficar meio na retaguarda", conclui.

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