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Coronavírus: o hospital russo completamente isolado por surto de covid-19

A maioria das pessoas dentro do hospital foi infectada; pelo menos dois membros da equipe médica e dois pacientes morreram - BBC
A maioria das pessoas dentro do hospital foi infectada; pelo menos dois membros da equipe médica e dois pacientes morreram Imagem: BBC

Anna Pushkarskaya

Da BBC

02/06/2020 16h29

No início de abril, um paciente em um hospital ortopédico em São Petersburgo, na Rússia, desenvolveu pneumonia. Quando o teste de coronavírus do paciente deu positivo, o hospital de Vreden foi fechado e colocado em quarentena.

Mais de 700 médicos e pacientes permaneceriam isolados do resto do mundo pelos 35 dias seguintes.

De muitas maneiras, a situação era semelhante à quarentena a bordo do cruzeiro Diamond Princess, que permaneceu atracado na costa do Japão nos primeiros dias da epidemia de covid-19 e se tornou um local de reprodução do coronavírus - com mais de 700 casos e nove mortes entre passageiros e tripulação.

A maioria das pessoas trancadas dentro do hospital russo foi infectada. Pelo menos dois membros da equipe médica e dois pacientes morreram, segundo relatos. As autoridades de São Petersburgo não divulgaram números oficiais.

Em uma saga sem precedentes, pacientes e funcionários confinados documentaram suas provações no hospital em quarentena nas redes sociais. O serviço russo da BBC também falou com dois pacientes que compartilharam suas histórias.

'Não havia máscaras'

O Instituto Vreden é um centro nacional de traumatologia e ortopedia. Fundado em 1906, este hospital é um dos mais antigos da Rússia.

Os pacientes são encaminhados ao local por médicos de todo o país. Muitos esperam meses e até anos para conseguir uma consulta com os renomados especialistas em Vreden.

Quando o hospital detectou seu primeiro caso de coronavírus, a Rússia já havia introduzido restrições a visitantes estrangeiros e sua população já sabia da disseminação gradual, mas incontrolável, do vírus.

"Disseram-nos que alguém havia começado a tossir, mas [covid-19] não havia sido confirmada [naquele momento]. Fomos informados de que precisávamos obter máscaras apenas por precaução", diz Irina, moradora e paciente de São Petersburgo.

"Não havia máscaras na farmácia do hospital, então improvisamos algumas utilizando gaze", acrescenta.

Outra paciente, Nadezhda, chegou ao Instituto Vreden em 7 de abril de uma cidade no noroeste da Rússia, depois de uma espera de dois anos para consultar um especialista. Ela foi internada, mas nunca iniciou o tratamento para o qual havia viajado.

Ela escreveu nas redes sociais três semanas depois: "Que situação terrível! Eu estava saudável quando cheguei aqui, mas não mais! Alguns dos piores casos foram enviados para outros hospitais. Alguns morreram".

Preparando-se para quarentena

Em 9 de abril, o dia em que o Instituto Vreden fechou as portas para o mundo exterior, havia 474 pacientes e 239 funcionários no local.

Segundo o diretor interino do instituto, foi o secretário de Saúde de São Petersburgo quem tomou a decisão de suspender as operações e fechar o hospital para evitar a propagação da infecção.

Na época, não havia capacidade rápida de teste de coronavírus, o que permitiria separar os infectados dos saudáveis dentro do hospital.

Em 8 de abril, médicos e enfermeiros foram instruídos a ir para casa, se preparar para uma quarentena, e retornar no dia seguinte.

Um dos médicos descreveu nas redes sociais uma atmosfera despreocupada e alegre, enquanto a equipe médica se reunia no estacionamento do hospital com suas malas, como se estivessem prestes a embarcar para um acampamento de verão.

Hospital russo bbc - Arquivo pessoal/BBC - Arquivo pessoal/BBC
Imagem: Arquivo pessoal/BBC

Subestimando o risco

Nenhum paciente foi autorizado a sair. Nas redes sociais, um médico disse que cerca da metade dos internados em seu departamento já havia sido operada e estava em recuperação, e o plano nessa fase era avançar com os procedimentos para a outra metade, seguindo um cronograma existente.

Ele admite que ele e seus colegas subestimaram a seriedade da situação. O próprio médico adoeceu pouco tempo depois.

Irina diz que o sistema de ventilação, que atende actodo o edifício, foi desligado para limitar a propagação do vírus. Os funcionários da cozinha deixavam a comida do lado de fora de cada enfermaria e, depois, cabia à equipe médica interna levar refeições para os pacientes e colegas.

O hospital não estava preparado para lidar com o coronavírus, segundo relatos. Não havia segregação entre áreas "limpas" e "infectadas" e, inicialmente, equipamentos de proteção eram escassos.

Quando os protocolos foram introduzidos, muitas pessoas foram infectadas à medida que o vírus se espalhava implacavelmente no interior do hospital .

"Os resultados dos testes chegaram em 10 dias, a essa altura, os doentes e os saudáveis haviam se misturado", explicou um dos médicos nas redes sociais.

Ajuda de amigos

Outro médico escreveu que, nos primeiros dias da quarentena, a equipe do hospital recebia ajuda de fora - de amigos que providenciavam a entrega de máscaras faciais, antivirais e medicamentos para aumentar a imunidade.

Em 17 de abril, uma remessa de protetores faciais chegou de Moscou.

Os médicos dentro do hospital agradeceram pelo envio. Mas seria difícil evitar ser infectado em um prédio fechado com altos níveis de concentração de vírus, mesmo que eles lavassem as mãos constantemente e dormissem com máscaras protetoras.

Dez dias depois, e quase três semanas depois de fechar suas portas, o hospital recebeu suprimentos estatais de respiradores, roupas de proteção, óculos e máscaras descartáveis.

Ao longo da quarentena de cinco semanas, apenas pacientes e funcionários em estado crítico conseguiram deixar o Instituto Vreden, pois foram transferidos para outros hospitais.

No entanto, em meados de abril, a maioria dos hospitais de São Petersburgo estava sobrecarregada, pois o número de internações por coronavírus aumentou rapidamente. Era excepcionalmente difícil organizar uma transferência do Instituto Vreden e os médicos precisavam pedir favores a colegas de outros hospitais.

Do lado de dentro, médicos se surpreenderam com a agressividade do vírus. O Instituto Vreden é um centro altamente especializado em traumatologia, ortopedia e cirurgia da coluna vertebral. Possui sua própria unidade de terapia intensiva avançada, mas seus médicos não eram especialistas em lidar com uma infecção viral de proporções epidêmicas.

"O número de sintomas é incrível. Todo mundo está tossindo. As pessoas podem piorar muito rapidamente, você pode perder alguém em 5-6 horas", observou um médico.

Estima-se que 15 a 20% daqueles inicialmente colocados em quarentena foram transferidos para outros hospitais. Aqueles com sintomas graves que não puderam ser transferidos para outro lugar foram colocados em respiradores dentro da própria unidade de terapia intensiva do Instituto Vreden .

Cadeia de contágio

Nadezhda soube que outro paciente desenvolveu febre alta durante a primeira semana da quarentena. Sua condição piorou e ele foi levado para um hospital diferente. Mais tarde, ela soube que ele havia morrido. O teste de coronavírus de Nadezhda deu positivo logo depois.

Ela diz que os médicos agiram heroicamente e fizeram o possível para tratar pacientes infectados e outros médicos e colegas doentes. Foi triste ver quantos médicos ficaram doentes, escreveu ela.

"As enfermeiras também adoeceram. Lembro-me de uma enfermeira que limpava nossa enfermaria, parapeito das janelas, mesas de cabeceira . Ela estava tossindo, mas disse que estava bem. Um dia era seu aniversário, ela completou sessenta anos ... Mais tarde, ficou muito doente e morreu", disse Nadezhda.

Durante o confinamento, bem documentado nas redes sociais, vários pacientes elogiaram médicos e enfermeiros por seus esforços.

A equipe médica comprou uma máquina de lavar com seu próprio dinheiro e lavou a roupa dos pacientes. Alguns dos pacientes ajudaram na limpeza.

"Estávamos descansando em nossas enfermarias enquanto eles cuidavam de nós, mesmo que estivessem com febre. Eles nos deram remédios, lavaram nossas roupas. Nunca demonstraram tristeza ou foram rudes", escreveu um paciente de Moscou.

Quarentena controversa

No meio da quarentena, uma enfermeira do Instituto Vreden publicou um vídeo no YouTube, com o título "Clamando por ajuda".

Ela disse que fez um teste para diagnosticar coronavírus cinco vezes e não recebeu seus resultados. Mais tarde, a mesma enfermeira publicou outro vídeo, dizendo que estava em greve de fome em protesto.

O vídeo foi apagado das redes sociais, mas deixou a Rússia em choque.

Vários parlamentares da cidade de São Petersburgo se dirigiram à vice-premiê russa Tatiana Golikova "em nome dos médicos e cidadãos". Eles disseram que os protocolos de isolamento no Instituto Vreden "não foram avaliados corretamente", o que levou a "quase 100% de infecção de pacientes e funcionários".

Em 3 de maio (dia 25 da quarentena imposta), o diretor do Instituto Rashid Tikhilov , que havia se recuperado da covid-19, disse que o hospital havia estabelecido áreas de coronavírus e zonas separadas livres de vírus.

"Implementamos turnos alternados e preparamos salas de inspeção sanitária", disse Tikhilov.

Um médico, depois de ser liberado para continuar sua recuperação em casa, disse que a decisão das autoridades de introduzir uma quarentena no Instituto Vreden estava "categoricamente errada". A BBC decidiu não publicar seu nome para proteger sua privacidade.

Ele acredita que a situação foi agravada pelos atrasos nos testes. Além disso, deixar médicos e funcionários irem para casa por uma noite antes do início do confinamento do hospital foi contraproducente, dizem especialistas.

Quando questionado pelo serviço russo da BBC, o secretário de Saúde de São Petersburgo, que tomou a decisão de fechar o hospital, respondeu que os testes foram processados na ordem em que foram recebidos.

A reportagem também perguntou se a quarentena valia a pena, considerando o número subsequente de infecções entre pacientes e funcionários e se alguma alternativa havia sido considerada.

Também pediu o número exato de infecções e mortes dentro do instituto ao longo da quarentena. Não recebeu resposta.

"Por um lado, acho que foi errado confinar tantas pessoas em um só local, em vez de testá-las rapidamente, mas ainda foi a melhor opção", diz Irina.

"Pelo menos, não deixamos o vírus correr solto, para lugares mais remotos, onde as pessoas podem ser infectadas e morrer. Pelo menos aqui todos estavam sob a supervisão de médicos e, se as coisas piorassem, teríamos ajuda a tempo."

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