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Em meio a aberturas, Sul vê casos de coronavírus subirem 86% em uma semana

Na segunda, houve a reabertura de shoppings em Curitiba - Giuliano Gomes - 25.mai.2020/Estadão Conteúdo
Na segunda, houve a reabertura de shoppings em Curitiba Imagem: Giuliano Gomes - 25.mai.2020/Estadão Conteúdo
do UOL

Nathan Lopes

Do UOL, em São Paulo

26/05/2020 04h00Atualizada em 26/05/2020 10h52

O número de novos casos de coronavírus no Sul do país quase dobrou na última semana, de acordo com levantamento do UOL com os dados do Ministério da Saúde. O crescimento acontece em um período em que os estados da região têm flexibilizado as medidas de isolamento social, permitindo a reabertura do comércio e de instalações religiosas, por exemplo.

Dois fatores podem ser as causas para o resultado: os baixos índices de isolamento social em dias úteis nos três estados da região e a taxa de reprodução do vírus. Hoje, nenhum estado do país tem taxa de reprodução abaixo de 1 —o que significaria que a epidemia estaria em tendência de queda.

Na semana epidemiológica 20, cuja referência é o período entre 11 e 17 de maio, os três estados do Sul haviam acumulado 2.991 novos casos de pessoas com a covid-19. Na semana 21, encerrada no domingo (24), foram 5.581, um crescimento de cerca de 86%.

Essa foi a maior alta na comparação com as outras quatro regiões do país. Considerando todo o país, a quantidade de novos casos na semana passada cresceu 55,8% no mesmo período. Sudeste, Norte e Nordeste oscilaram entre 59,4% e 51,8%. No Centro-Oeste, a alta foi de 36,9%.

A região Sul é, proporcionalmente, a menos afetada pelo novo coronavírus, tendo 0,6 caso a cada mil habitantes. A média do país é de cerca de 1,7.

Mais do que o dobro

Rio Grande do Sul e Paraná foram os estados que registraram os mais altos crescimentos na comparação entre as duas semanas. No território gaúcho, a alta foi de 129,2% na comparação entre as duas últimas semanas. No estado paranaenese, 105,3%. Em Santa Catarina, a taxa foi menor, de 42,5%.

Nas últimas semanas, atividades econômicas têm sido liberadas na região. Há shoppings em operação no Rio Grande do Sul, Santa Catarina e no Paraná. Academias também estão abertas nos três estados, assim como igrejas, com algumas restrições, como acontece em Porto Alegre.

Os gaúchos, por exemplo criaram um sistema de bandeiras para indicar que tipo de atividade pode ser retomada em determinadas regiões do estado. Cidades de Santa Catarina e Paraná já convivem com um isolamento mais brando desde meados de abril.

Total de casos e mortes nos estados do Sul até dia 24 de maio:

  • Rio Grande do Sul: 6.470 casos e 180 mortes
  • Santa Catarina: 6.696 casos e 105 mortes
  • Paraná: 3.212 casos e 153 mortes

Isolamento

Com medidas de distanciamento menos rígidas, o isolamento tem taxas baixas para brecar a epidemia. Especialistas apontam que o ideal seria de ao menos 60%. Mas, segundo o "Mapa Brasileiro da covid-19", na sexta-feira (22), último dia útil da semana passada, os índices de isolamento social na região Sul beiravam o 40%:

  • Rio Grande do Sul: 40,1%
  • Santa Catarina: 38,4%
  • Paraná: 39,1%

No fim de março, quando a pandemia começava a se expandir pelo país, os índices nos três estados passavam dos 50%. Na última sexta, o Brasil possuía uma taxa de 41,2% de distanciamento social.

Com mais pessoas nas ruas, a chance de a taxa de reprodução do vírus crescer é maior.

Até o último domingo (24), as taxas nos três estados eram de:

  • Rio Grande do Sul: 1,70
  • Santa Catarina: 1,36
  • Paraná: 1,37

O Brasil tem taxa de 1,43. Para que a pandemia mostre tendência de queda, é preciso que essa taxa esteja abaixo de 1.

"Abaixo de um, nós temos a doença sendo reduzida, tendendo a desaparecer. Acima, temos crescimento exponencial. Quanto maior o número, maior a velocidade", afirma o doutor em biologia molecular de bactérias Emanuel Maltempi de Souza, presidente da Comissão de Acompanhamento e Controle de Propagação do Coronavírus na UFPR (Universidade Federal do Paraná).

Para ele, "essa taxa reflete o número de casos que a gente tem hoje".

Risco de piora

O professor Lúcio Botelho, do Departamento de Saúde Pública da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), avalia haver um risco de agravamento da pandemia no país. Um dos motivos, além do baixo isolamento e da taxa de contágio da covid-19, é a chegada do inverno. "Isso aumenta potencialmente a transmissibilidade".

Maltempi tem uma visão parecida e diz que sua impressão é de que o momento é de "uma aceleração real da taxa de contágio". "E é uma aceleração que preocupa", comenta, observando os números de seu estado, o Paraná.

Em 17 de maio, uma semana antes, a taxa no Paraná estava em 1,26, segundo dados da plataforma loft.science. A mesma tendência se observou no Rio Grande do Sul. Em Santa Catarina, a taxa se manteve estável.

Para o doutor, o afrouxamento das medidas de distanciamento foi precipitado. Isso só deveria ter acontecido quando a taxa de contágio estivesse abaixo de 1. Mesmo assim, também é preciso manter o controle da situação a partir de testes, examinando todos com sintomas e as pessoas que entraram em contato com os doentes. "Tem que ir atrás das pessoas que tiveram contato com as pessoas positivas. Enquanto não tiver isso, pode ter taxa exponencial de crescimento."

A taxa de contágio, na avaliação de Maltempi, "mostra o perigo desse vírus". "Ele é muito rápido. A gente precisa estar um passo à frente do vírus, e não pode relaxar em nenhum momento", comenta. "Enquanto não tiver uma vacina, a gente vai ter que conviver com isso. Porque a alternativa é muita gente morta."

Botelho diz que o momento também pede um entendimento político para "mais rapidamente" resolver a pandemia. Os aconselhamentos diferentes nas diversas esferas do poder têm jogado contra um melhor enfrentamento da situação. Assim, também se poderia "mais rapidamente retomar o chamado crescimento econômico", avalia.

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