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PMs agridem alunos dentro de escola em São Paulo; veja imagens

do UOL

Nathan Lopes e Stella Borges

Do UOL, em São Paulo

19/02/2020 08h04Atualizada em 19/02/2020 13h51

Resumo da notícia

  • Nas imagens é possível ver 6 PMs participando das agressões
  • Um aluno de 17 anos é imobilizado com uma gravata, leva uma rasteira e é chutado no chão
  • Um policial chega a apontar arma para estudantes que observavam a cena
  • PMs entraram em escola pública de São Paulo para retirar um jovem da unidade
  • Governo de SP diz que PMs serão afastados e caso, investigado

Imagens divulgadas em redes sociais mostram policiais militares agredindo dois jovens dentro da Escola Estadual Emygdio de Barros, no Rio Pequeno, na zona oeste de São Paulo, na noite de ontem. Um dos PMs chega a apontar uma arma em direção aos demais estudantes que observavam e gravavam a cena.

Nos vídeos é possível ver um dos rapazes sendo dominado por um policial com uma gravata. Outro aluno é agredido com socos enquanto outro policial, por trás, dá uma rasteira nele, que cai no chão. Ainda caído, ele é chutado.

A PM (Polícia Militar) disse que irá afastar os agentes envolvidos na ocorrência. Nas imagens, aparecem ao menos seis PMs participando da ação. A Ouvidoria da PM disse que pediu a "apuração rigorosa" do caso.

Em nota, a Corregedoria da PM disse que, com base nas imagens, "verificou-se que a abordagem fugiu aos procedimentos padrões (protocolos) ensinado nas escolas de formação". O texto diz ainda que um Inquérito Policial Militar será instaurado para apurar o caso.

A confusão teria começa após a PM ser chamada para retirar um jovem de 18 anos de dentro da escola. Segundo a escola, ele não estava matriculado na unidade e se recusava a sair. Ele foi um dos agredidos pelos policiais.

Em vídeo obtido pelo UOL, o outro jovem agredido, de 17 anos, mostrou os ferimentos na boca, na canela da perna direita e na testa. No hospital, ele disse que foi informado apenas que os ferimentos vão cicatrizar e que ele estava liberado.

Na Polícia Civil, o caso em investigação foi registrado como desacato, lesão corporal, resistência e ameaça por parte dos jovens.

A versão dos jovens

O jovem de 18 anos contou, segundo o boletim de ocorrência, que era aluno até janeiro, quando a escola tentou desligá-lo. Ele, porém, disse que recorreu à Secretaria de Ensino, tendo sido reintegrado ao corpo de estudantes.

Seu horário de aula teria mudado do período da manhã para o da noite, o que o teria prejudicado, já "que trabalhava até as 20h". Ele teria perdido duas semanas de aula.

No boletim, ele aponta que um inspetor da escola o avisou na última segunda-feira (17) que estava matriculado.

"Ontem [dia 18], a diretora chegou, disse que ele não havia sido matriculado e pediu que ele saísse da escola", disse ao UOL Dimitri Sales, presidente do Condepe (Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana), órgão do governo de São Paulo. Ele acompanha o caso dos jovens.

O jovem, porém, disse que tinha a prova de que estava matriculado e se recusou a deixar a escola. A diretora, então, chamou a PM. O jovem diz que, ao aceitar deixar a escola, pediu para que os policiais não encostassem nele. Na sequência, foi agredido na boca por um deles.

Depois, o jovem entrou em outra sala de aula. Nesse momento, um colega, um adolescente de 17 anos, começou a filmar a cena. "E acabaram ambos sendo agredidos por policiais militares." Um PM agrediu o menor de idade com o celular que ele usava para registrar a situação, de acordo com o boletim. Os dois jovens disseram que foram agredidos também fora da escola.

No boletim de ocorrência, eles relatam que foram ameaçados de morte e foram agredidos mesmo algemados.

A versão da diretora

À Polícia Civil, a diretora disse que o jovem foi desligado da escola por falta de frequência. Segundo ela, o aluno deveria fazer nova inscrição e aguardar por uma vaga. A entrada dele na escola foi proibida. "Mas este [o jovem] a desobedeceu, adentrou o estabelecimento, e se recusou a sair".

A diretora apresentou uma ata do conselho da escola, de dezembro de 2019, em que "existe a sugestão de afastamento [do jovem] em razão de indisciplinas variadas"

A versão da PM

De acordo com o boletim de ocorrência, a partir dos relatos dos policiais, "um ex-aluno se recusava a sair da sala de aula". A diretora, então, acionou a PM.

O jovem teria entrado em outras salas, gerando tumulto, de acordo com o documento. Na sequência, sempre segundo a versão dos agentes, outro estudante tentou agredir um policial, que usou spray de pimenta "para deter o avanço de um grupo de alunos". As imagens, porém, não mostram nenhuma agressão aos policiais. O PM utiliza o spray quando o menor de 17 anos pega o celular para filmar a ação.

Um terceiro aluno, não identificado, teria falado que estava armado. Por esse motivo, os policiais justificam terem mostrado a arma para os estudantes. "O policial viu a necessidade de sacar a arma e fazer cessar a ação". "A atitude se fez necessária, tendo em vista a proteção de sua integridade física", traz o boletim.

Na saída da escola, estudantes teriam atirado "carteiras, cadeiras e demais objetos disponíveis sobre os policiais".

"Abuso de autoridade"

Para Sales, do Condepe, essa "foi mais uma ação desastrosa da Polícia Militar, permeada por muita violência e abuso de autoridade".

Mãe de um dos jovens agredidos, Raquel Rodrigues disse que "ali não era o lugar adequado para aquela violência toda". "Estavam lá para o serviço de policial. Não levar violência. Me pergunto como mãe, será que dentro da escola é um lugar seguro?", disse à TV Globo.

Conselheiro tutelar que atua na região da escola, Gledson Deziatto disse que situação ocorrida ontem é "inaceitável". "Tanto por parte dos policias quanto da diretora. Havia outro caminho, havia o diálogo."

A PM disse que "o comandante da área, assim que tomou conhecimento, determinou a imediata instauração de inquérito policial militar para a rigorosa apuração dos fatos". "O comandante também afastará os envolvidos da atividade operacional até o término das investigações".

Hoje pela manhã, alunos na escola protestaram e gritaram frases como "ih, fora".

Em nota, a secretaria estadual de Educação também disse que vai apurar o episódio e que colabora com a polícia para esclarecer o fato.

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