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Análise: Nunca há apenas uma explicação para massacres como o de Suzano

do UOL

Beatriz Montesanti e Priscila Carvalho

Do UOL, em São Paulo

2019-03-15T04:00:00

15/03/2019 04h00

Não há uma única explicação que justifique dois jovens entrarem em uma escola e atirarem contra alunos e funcionários. É o que dizem especialistas de saúde mental que falaram ao UOL sobre o crime cometido anteontem.

Segundo eles, há uma série de fatores, no entanto, que ajudam a explicar esse tipo de comportamento violento, que de tempos em tempos culminam em tragédias como a de Suzano: emoções intensas (raiva, ódio, vingança), meio social e traumas, por exemplo.

"A gente tem que partir da seguinte ideia: ninguém nasce bandido. Precisamos pensar o que na história de vida desses jovens e o que no funcionamento da sociedade levam a esse ato", diz Maria de Lourdes Teixeira, psicóloga da PUC (Pontifícia Universidade Católica), especializada na área de criança e adolescente.

Para a professora, crimes como o de Suzano têm duas faces: a do indivíduo que praticou e a do meio social em que ele está inserido.

Precisamos analisar o ambiente em que estamos criando nossos adolescentes e jovens. Que valores estamos fomentando, qual é o padrão de sociabilidade, que valor damos à vida.
Maria de Lourdes Teixeira, psicóloga da PUC

Teixeira não considera a atitude de Guilherme Taucci Monteiro, 17, e Luiz Henrique de Castro, 25, um ato racional. "Ainda que tenha sido planejado, ele é atravessado por emoções intensas de raiva, ódio, desejo de vingança." Policiais que investigam o caso afirmaram que os dois combinaram o ataque com mensagens pelo Facebook.

A professora ressalta, no entanto, que ainda é necessário saber mais sobre a vida dos dois jovens para entender quais acontecimentos poderiam ter desencadeado essa atitude. A mãe de Monteiro afirmou que ele sofria bullying na escola, mas investigações ainda estão em curso. "Pode ser necessidade de romper com a invisibilidade deles, mesmo que significasse a morte", diz.

"Sociedade tensa, que banaliza a violência"

A psicóloga Luciana Szymanski, professora do departamento de psicologia social da PUC, concorda que é necessário analisar o contexto mais amplo em que os jovens estavam inseridos.

Vivemos em uma sociedade extremamente tensa, que banaliza a violência. A violência faz parte do cotidiano das pessoas, crianças morrem por causa de chuva, tragédias como a de Brumadinho, e tudo isso é naturalizado, como se a vida valesse menos de alguma forma.
Luciana Szymanski, professora do departamento de psicologia social da PUC

A isso a professora soma o crescimento do que chama de um discurso do armamento, em referência a setores da sociedade que defendem a posse e porte de armas. "Faz parte de uma conjuntura maior que traz à tona a convicção de que armar a população é a maior solução. Quando na verdade precisamos instalar espaços de discussão, de diálogo e de acolhimento para as crianças e adolescentes."

Ela acha reducionista, por exemplo, apontar o bullying como responsável pelo episódio. "Não podemos afirmar que o bullying leva alguém a cometer um ato como esse, porque a pessoa responde de formas diferentes às coisas que acontece em sua vida. É muito particular a forma como a pessoa se desenvolve no mundo e interpreta suas relações."

Nesse sentido, diz ela, a escola torna-se um alvo por canalizar essas relações. "A criança passa muito tempo da vida dela nas escolas. Ela passa por todas as emoções possíveis lá dentro. Algumas experiências ruins, outras não."

"Quando os criminosos eles escolhem determinado lugar, eles têm memória desse local. Os dois estudaram nessa escola e tinham memórias de raiva, rixa e bullying e por isso devem ter focado nesse alvo", acrescenta Beatriz Moura, psicóloga do Instituto Brasileiro de Medicina e Reabilitação (IBMR) e especialista em saúde mental.

Loucura a dois

O psiquiatra forense Guido Palomba, por sua vez, defende que não há uma explicação lógica para o episódio e atribui o crime, essencialmente, a distúrbios psicológicos.

Para ele, é leviano culpar, em um primeiro momento, questões como jogos de videogame, drogas e bullying. "Ainda que esses fatores possam estar, digamos, na composição desse ato que foi desencadeado", diz.

Segundo o psiquiatra, o fato de serem duas pessoas envolvidas no assassinato pode ser explicado pelo fenômeno chamado de "folie à deux" (loucura a dois), termo em francês para se referir a um transtorno psicótico compartilhado por duas pessoas.

"A loucura a dois sempre pressupõe um indutor, que tem problemas mentais, e um induzido, que é alguém de cabeça fraca", explica Palomba. Casos assim, diz, pressupõem algum tipo de vínculo de subordinação entre as pessoas envolvidas - seja pai e filho, patrão e funcionário ou um amigo que idolatre o outro.

Szymanski discorda da abordagem: "Não há ponto de vista psicológico sem ponto de vista social. Entendo que evidentemente pessoas que fazem isso têm questões, mas mas não dá para fazer a análise a partir da patologia individual. No caso, tivemos duas pessoas que se identificaram com o fato de poder matar crianças e pessoas na escola. Duas pessoas que se identificaram com um projeto de extermínio."

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