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"O samba é resistência. O artista precisa ser engajado", ressalta Beth Carvalho

Anderson Baltar

Do BOL, no Rio de Janeiro

2016-12-02T09:05:32

02/12/2016 09h05

Inquietude é uma palavra que define bem Beth Carvalho. Afinal, foi essa qualidade que motivou a menina criada na Zona Sul do Rio de Janeiro a ir até o subúrbio descobrir uma fantástica geração de bambas na década de 70. Sem levar desaforo para casa, ela participa ativamente da vida política do país e deu voz a verdadeiros manifestos.

“A bossa nova sempre foi muito alienada. Ela era linda, é linda, vim dela, mas é alienada. Já o samba é resistência e eu me identifiquei logo de cara. Acho que o artista precisa ser engajado”, ressalta a cantora, que ainda engata críticas duras ao momento atual do país: “O Brasil precisa de nacionalistas. Antes (na década de 60), pelo menos, foi assumido o golpe. Agora, a situação parece pior”.   

O discurso forte sempre foi presente nos 50 anos de carreira da sambista. Hoje, mesmo com a saúde debilitada por um problema na coluna, ela insiste em continuar sua caminhada: “Tenho muita coisa para fazer ainda, muitos planos para realizar, discos para gravar. Só paro quando não puder mais”.

No Dia Nacional do Samba (2 de dezembro), conheça um pouco mais sobre a "madrinha" do ritmo que completou 100 anos em 2016, contados a partir do marco zero - a música "Pelo Telefone".

Convívio com o samba desde a infância

Nascida em 5 de maio de 1946, Beth foi criada em um ambiente onde a música sempre se fez presente. Ao lado dos pais, ouvia a Rádio Nacional e era apresentada a artistas que a acompanhariam por toda a vida. “Eu adorava ouvir o Nelson Cavaquinho e nem imaginava que, anos depois, eu iria conhecê-lo e gravar pela primeira vez obras como ‘Folhas Secas’, ajudando ele a ter um fim de vida mais digno, com uma casa confortável”, afirma.

Das recordações de infância, também surgiu um amor que até hoje perdura: pela Estação Primeira de Mangueira. “Era bem menina, mas me lembro da primeira vez que fomos assistir às escolas de samba. Eu escolhi a Mangueira para o meu coração. Não me pergunte por quê. Achei a Mangueira mais exuberante, gostei das cores...”, relembra.

Presente no último Carnaval, quando a escola foi campeã, Beth diz que fará de tudo para estar na avenida em 2017. “Temos um campeonato para defender e, além disso, sou enredo na Alegria da Zona Sul, no Grupo de Acesso. Tenho que estar bem até lá porque é sempre gostoso receber uma homenagem tão sincera”, derrete-se.

Na adolescência, foi bailarina e aprendeu a tocar violão. Teve tanta intimidade com o instrumento que virou professora e, quando menos notou, já participava de rodinhas de adolescentes. Com uma voz afinada, Beth logo se destacou e foi chamada para defender músicas em festivais. O sucesso começou a aparecer em 1968, quando, para um Maracanãzinho lotado, ao lado dos Golden Boys, eternizou “Andança” (Danilo Caymmi, Edmundo Souto e Paulinho Tapajós), no 3º Festival internacional da Canção. A composição ficou em terceiro lugar, e a música brasileira ganhou uma nova intérprete.

Da bossa nova ao resgate de baluartes

Surgia uma nova cantora, com estilo inconfundível e personalidade de sobra. E que, sem muita demora, abandonaria os circuitos universitários de música para cair de cabeça no bom e velho samba de morro.

$escape.getH()uolbr_geraModulos('embed-foto','/2016/cartola-e-beth-carvalho-1480620021846.vm')“Meu pai foi perseguido em 1964 e o fato dos músicos da bossa-nova serem alienados me incomodava muito. Encontrei no samba a minha forma de me manifestar politicamente. Minha turma da Zona Sul virou o nariz. Já os sambistas me receberam de portas abertas”, relata Beth, que elege Clementina de Jesus como a pessoa fundamental na guinada de sua carreira. “Clementina foi fundamental para eu ser sambista. Eu a vi cantando e me identifiquei tanto que pensei: ‘Eu sou isso aí. Esse é o meu sentimento pelo samba’. A alma dela eu compreendi. Muita gente não a entende. Mas eu entendi”, diz, emocionada.

Apesar da pele clara e da origem burguesa, Beth assumiu um papel fundamental no mundo do samba. “O samba é uma cultura do povo negro, eu sou uma enxerida. Se bem que acho que não tem branco no Brasil. Graças a Deus”, comenta, aos risos. O “atrevimento” de Beth, no entanto, rendeu ótimos frutos; um dos principais e mais lembrados até hoje é o de lançar pérolas inéditas de Cartola e Nelson Cavaquinho em um momento em que ambos andavam esquecidos.

“Cheguei um dia na casa de Cartola e perguntei se ele tinha algo novo. Ele me cantou ‘As Rosas Não Falam’ e ‘O Mundo é um Moinho’. Gravei ‘As Rosas’ e foi um sucesso imenso. A partir daí, todo disco meu tinha uma música de Cartola”, conta. A partir do pontapé de Beth, o sambista mangueirense decolou na carreira, lançando discos e rodando o país fazendo shows.

“Madrinha” da turma do Cacique e embaixatriz do samba paulista

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A cantora também tem responsabilidade em descobrir uma geração de sambistas que, no final dos anos 70, estava agitando, quase incognitamente, o subúrbio de Ramos, no Rio de Janeiro. A turma do Cacique, capitaneada pelo Grupo Fundo de Quintal, chegou às paradas de sucesso de todo o Brasil graças ao faro de Beth. “Sempre gostei de rodar pela cidade atrás de boas rodas. Quem me levou ao Cacique de Ramos foi o Alcir Portela (então jogador e depois técnico do Vasco). Quando cheguei lá, fiquei louca. Imagina ver aquela turma toda do Fundo de Quintal, Jorge Aragão, Almir Guinéto… Todos tocando amadoramente? Eu passei a viver lá com eles. Até casa em Ramos procurei para morar”, diverte-se.

Em meio a rodas de samba, partidas de baralho e bailes de gafieira, a amizade de Beth e da turma do Bira Presidente, do Fundo de Quintal, se consolidou. E o samba conheceu uma nova vertente, com novos instrumentos, como o banjo, o repique de mão e o tantan. O marco inicial dessa união foi a gravação de “Vou Festejar”, em 1978, seguida de sucessos como “Coisinha do Pai” e “Camarão que Dorme a Onda Leva”.

Revisando o passado, Beth se espanta com a própria descoberta: “Eu sabia que ali tínhamos grandes sambistas e eu tinha certeza de que o público deveria conhecê-los. Mas, sinceramente, não imaginava que uma geração inteira de grandes bambas, como Zeca Pagodinho, Arlindo Cruz, dentre outros, me chamariam hoje de madrinha”.

O faro de Beth Carvalho não se limitou ao território carioca. Desde os anos 70, a cantora faz um intercâmbio constante entre o Rio de Janeiro e São Paulo, participando de rodas de samba na capital paulista e até desfilando. “Já fui campeã duas vezes pela Vai-Vai. São Paulo sabe fazer samba, sim, foi até por isso que eu fiz o disco ‘Beth Carvalho Canta Sambas de São Paulo’. Tive um orgulho enorme, esse disco vendeu 600 mil cópias.  E depois eu tive o prazer de lançar um grupo, que já se desfez infelizmente, que é o Quinteto em Branco e Preto”.

A sambista lembra com carinho do início dessa relação com a terra da garoa: “Quando eu comecei a ir para a periferia de São Paulo que ninguém conhece (fui lá para São Mateus, periferia mesmo), aí eu conheci o verdadeiro sambista paulistano. Eles sabiam tudo que eu gravei. É o melhor público de samba!”.   

O samba é o porta-voz do povo”

Ao ver o samba completando 100 anos de sua primeira gravação, Beth acredita que o gênero continua marcado como o que melhor define o cotidiano do brasileiro e que, sempre que o país precisa ser retratado, é o samba que surge: “O samba é o verdadeiro porta-voz da população brasileira. E, quando temos eventos como a Olimpíada, é o que temos de melhor para mostrar para todo o mundo”.

Mesmo distante do topo das paradas, o samba, na visão de Beth Carvalho, ainda está no coração do povo: “O sertanejo e outros gêneros tomaram conta, têm mais dinheiro. Por exemplo, ninguém pega um artista de samba de jatinho para ir fazer samba para a comunidade do samba, mas para ver música sertaneja bota. Não é melhor ou pior, é que o que toca diariamente acaba entrando na cabeça das pessoas. Mas o samba consegue segurar essa peteca. O samba é a vida, é a cura. Sem samba, não tem vida!”.

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