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País tem 40 mil mortes no ano por síndrome respiratória sem causa revelada

23.jul.2020 -  Profissional do MSF (Médicos Sem Fronteiras), durante trabalho na UTI do Hospital Tide Setubal, em São Miguel Paulista, zona leste de São Paulo - Eduardo Anizelli/Folhapress
23.jul.2020 - Profissional do MSF (Médicos Sem Fronteiras), durante trabalho na UTI do Hospital Tide Setubal, em São Miguel Paulista, zona leste de São Paulo Imagem: Eduardo Anizelli/Folhapress
do UOL

Carlos Madeiro

Colaboração para o UOL, em Maceió

07/08/2020 17h35

O Brasil tem registradas, até o dia 1º de agosto, 40 mil mortes por SRAG (Síndrome Respiratória Aguda Grave) por causa não especificada. Os dados são do Ministério da Saúde e revelam uma provável subnotificação de casos da covid-19 no país, segundo especialistas consultados pelo UOL.

A SRAG é a principal complicação causada pela covid-19 e é responsável pela morte de mais de 95% dos casos da virose confirmados até aqui no país. Das 93,5 mil mortes de pacientes com o novo coronavírus registradas até o dia 1º de agosto, 91 mil tiveram a SRAG como causa.

Se colocarmos apenas na conta as síndromes com agentes etiológicos já especificados, a covid-19 responde por mais de 95% dos óbitos registrados. O número de mortes causadas por SRAG por outros agentes não representam 5% do total de óbitos. O já conhecido vírus influenza, que causa gripe, por exemplo, foi responsável por 307 óbitos no ano (3,5% do número de mortes por covid-19).

Para o epidemiologista e professor e pesquisador da USP (Universidade de São Paulo) Paulo Lotufo, não há dúvidas de que a maioria dessas mortes por SRAG não especificada foram causadas por covid-19.

"Eu diria que 99% seria pelo novo coronavírus, mas não foi identificado pela janela de exposição, ou então por ser falso negativo, ou coleta ruim", explica, citando que o problema era pior no início da pandemia.

O número também chama a atenção de quem trata doenças respiratórias há anos. "Não é normal termos tantas mortes por SRAG não especificada", diz o pneumologista e professor da UnB (Universidade de Brasília) Ricardo Martins.

MG e PR têm mais casos de SRAG indefinidos do que diagnosticados como covid-19

Martins lembra que, em 2020, uma notícia positiva foi que o vírus da influenza pouco circulou no país, o que repercutiu no número mais baixo de mortes. "Boa parte destes casos de SRAG são decorrentes da covid-19."

Em dois estados, Minas Gerais e Paraná, esse número de mortes por SRAG sem agente definido chama a atenção por superar inclusive o de covid-19.

Em MG foram 3.222 mortes por SRAG não especificada e 3.070 por covid-19. Já no Paraná, foram 2.263 óbitos não especificados de SRAG e 1.878 por covid-19.

Para Lotufo, os números dos dois estados devem ser analisados de forma separada. "Com certeza Minas testou muito pouco. No Paraná, uma análise de um mês atrás mostrou que eram diagnósticos "outros", ou seja, mau preenchimento da declaração de óbito", explica.

Secretarias apontam melhorias em andamento

O UOL procurou as secretarias de Saúde dos dois estados para que explicassem o porquê de tantos casos de SRAG não especificada. Em ambos os casos as respostas vieram por nota.

No Paraná, a secretaria afirmou que, "devido à pandemia, a vigilância da SRAG está em processo de reestruturação devido à necessidade de adaptação ao cenário de crise com a introdução da circulação do SARS-CoV-2 [novo coronavírus] no país."

"Sendo assim, para a qualificação e análise de dados, o Ministério da Saúde, passou a orientar que sejam contabilizados todos os casos notificados de SRAG hospitalizado, independente dos sintomas apresentados", explica a pasta, sobre o alto número de casos não identificados.

Além disso, a pasta diz que os óbitos por SRAG sem causa definida "são os que tiveram resultados negativos pelos agentes testados, inclusive para Sars-CoV-2 e para os casos onde não houve coleta de material biológico."

MG afirma fazer testes após todo caso de morte por SRAG

O governo de Minas Gerais alega que segue o protocolo do Ministério da Saúde, e todo óbito notificado por SRAG no estado é testado. "Desde 29/12 do ano passado até o momento, Minas Gerais realizou testes em mais de 90% dos diagnosticados como suspeitos de SRAG. O percentual de casos que não teve amostragem processada se refere, realmente, a situações em que os municípios não conseguiram realizar coleta de forma adequada ou em tempo hábil."

A pasta ainda lembra que, em relação às amostras que chegam fora do padrão ou sem qualidade, é preciso considerar que "vários fatores influenciam o resultado do exame, como coleta inadequada, armazenamento e transporte da amostra até o Laboratório Central, tempo decorrido entre a coleta e o início dos sintomas, tipo de material biológico coletado e a oscilação da carga viral. Todos esses fatores podem contribuir para a não-especificação da SRAG", completa a secretaria mineira.

O estado ainda alega que estruturou uma rede de laboratórios para descentralizar o processo de análise e melhorar a qualidade das amostras coletadas.

A secretaria ressalta ainda que está justamente nesta semana em processo de mudança de metodologia na apuração e notificação dos óbitos de covid-19. "Este monitoramento dos dados está sendo feito juntamente com os municípios para uma melhor qualificação no banco de informação do Sistema de Informação de Vigilância Epidemiológica da Gripe (Sivep-Gripe). As atualizações do Sivep-Gripe serão concluídas até segunda-feira (10)."

Total de mortes por por SRAG em 2020: 135.423

  • 90.973 (67,2%) confirmados para covid-19
  • 40.003 (29,5%) não especificado
  • 3.578 (2,6%) em investigação
  • 368 (0,3%) outros agentes etiológicos
  • 307 (0,2%) por Influenza
  • 194 (0,1%) outros vírus respiratórios

*Até 1/8. Fonte: Ministério da Saúde

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