PUBLICIDADE
Topo

Perigo ou farsa? Veja o que sabemos sobre o caso do Homem-Pateta no Brasil

do UOL

Naiara Araújo

Colaboração para Tilt

04/07/2020 04h00

Sem tempo, irmão

  • Perfis em redes sociais lançam desafios perigosos a crianças, diz polícia de SC
  • Primeiro caso no Brasil aconteceu no Paraná, mas família não registrou ocorrência
  • Mãe conta que mensagens pediam para garoto de dez anos se jogar do prédio
  • Polícia Civil de SC orienta que pais conversem e acolham os filhos

Após um alerta da Polícia Civil de Santa Catarina sobre os perfis de redes sociais com o nome de Jonathan Galindo, apelidado "Homem-Pateta", o caso foi colocado sob suspeita devido às poucas informações sobre ele. A polícia afirmava que esse tipo de perfil lança desafios perigosos e suicidas a crianças e jovens, mas para exemplificar isso, conta até agora com apenas um único relato no Paraná.

A história, que lembra outros virais da internet que foram alardeados como perigosos, como Baleia Azul e a boneca Momo, conta ainda com poucas informações, que vieram primeiro da Polícia Civil de Santa Catarina e começaram a ser investigadas pela Polícia Civil de Mato Grosso do Sul e Polícia Federal.

Por conta disso, cresce a suspeita de que seja um "hoax", termo usado para histórias falsas da internet disseminadas como reais. Ao mesmo tempo, devido à natureza descentralizada da web, é difícil investigar quais perfis fazem piada e quais realmente estão assustando jovens.

A origem do caso no Brasil

Segundo a delegada Patrícia Zimmermann D'Ávila, coordenadora da Delegacia de Proteção à Criança, Adolescente, Mulher e Idoso de Santa Catarina, o "Homem-Pateta" entrou no radar da Polícia Civil por causa do programa "Proteger Para Conhecer", que tem como objetivo conscientizar pais, responsáveis, professores, crianças e adolescentes com palestras sobre os perigos da internet.

O grupo de monitoramento que trabalha no programa identificou os perfis com o nome de Jonathan Galindo e divulgou um alerta no dia 17 de junho. Depois disso, eles receberam informações sobre um primeiro caso, de uma criança de dez anos que teria se deparado com um perfil do tipo no TikTok.

Embora a denúncia ainda não seja oficial, a delegada confirmou em entrevista a Tilt que recebeu informações sobre um caso recente no interior do Paraná. A família, que diz estar assustada com a situação, não registrou um boletim de ocorrência.

"As mensagens foram apagadas, mas com inquérito e perícia pode-se resgatar alguma coisa", explica D'Ávila. Agora, o objetivo da Polícia Civil é convencer a família a registrar um boletim de ocorrência para dar continuidade às investigações.

No primeiro contato com a reportagem de Tilt, a delegada mencionou que foram registrados boletins de ocorrência sobre o "Homem-Pateta" em outros estados, mas acabou voltando atrás na declaração.

Nesta terça-feira (30), foi noticiado no Mato Grosso do Sul um segundo caso de conversa do "Homem Pateta" com uma criança, dessa vez pelo Instagram. Até a publicação deste texto a reportagem não recebeu confirmação da Polícia Civil de Aquidauana (MS) —onde teria ocorrido o caso— sobre o boletim de ocorrência.

Também na terça, a Polícia Federal anunciou que estaria investigando o caso, sem contar mais detalhes. Procurada, a PF disse que "não confirma a existência ou não de possíveis investigações em andamento."

A pedido da reportagem, a Safernet, ONG que monitora riscos aos direitos humanos na internet brasileira, disse não ter achado indícios de que os perfis com o "Homem-Pateta" tenham induzido crianças a suicídio.

"Não há registros de denúncias na nossa plataforma e desconhecemos que haja uma investigação em curso. O episódio tem características de hoax, como o episódio da boneca Momo", diz a nota enviada pela associação.

Primeiro caso no Paraná

A delegada Patrícia D'Ávila confirmou à reportagem que conversou por telefone com a mãe da criança no Paraná, que prefere não ser identificada, na tarde da sexta-feira (26). De acordo com o relato, as mensagens incentivavam o suicídio pedindo que a criança se jogasse de um prédio.

Na segunda-feira (29), a mãe do garoto que teve contato com o perfil relatou o episódio no programa "Encontro com Fátima Bernardes", da Globo.

Há uns dez dias, antes de dormir, o meu filho perguntou se ele podia dormir no meu quarto. Aí na hora eu estranhei, mas o rosto dele estava perplexo de medo. Ele estava trêmulo, estava com muito medo. (...). Aí ele relatou que na parte da manhã, ele estava numa rede social que vinha um anúncio embaixo para ele clicar. Quando entrou, aparecia a imagem de "Jonathan Galindo" (...) ficava insinuando para que meu filho se jogasse de um prédio

Apesar de ter ocorrido em outro estado, o caso chegou até a Polícia Civil de Santa Catarina por conversas internas. A mãe da criança tem uma relação próxima com um funcionário do Núcleo de Inteligência e Segurança Institucional do Tribunal de Justiça de Santa Catarina e relatou para ele o problema familiar.

Curiosidade e novos perfis

Embora o alerta possa aumentar os acessos aos perfis do "Homem Pateta" e até incentivar a criação de novas contas e conteúdos nas redes sociais —alguns youtubers brasileiros já fizeram vídeos pegando carona na história, tentando explicar ou fazendo piada com o personagem— a intenção da polícia é orientar sem criar pânico.

"O objetivo é alertar os pais a monitorarem e a conversarem com os filhos", explica a delegada. "Mesmo correndo o risco de gerar novos perfis com o mesmo nome, o mais importante nessa hora é dar aos pais a chance de proteger os filhos."

Como agir?

Os usuários que identificarem qualquer ação mais perigosa desse tipo de perfil devem procurar a Polícia Civil do seu estado e registrar um boletim de ocorrência, para que a polícia consiga identificar quem está por trás dessas ações.

De acordo com a delegada D'Ávila, é muito importante que as crianças e adolescentes se sintam acolhidos nessa situação. "Muitos jovens ficam com medo e os pais acabam dando bronca, mas o acolhimento e a orientação é o melhor que pode ser feito."

A origem do "Homem-Pateta"

A imagem que ficou conhecida como "Homem-Pateta" tem sua criação atribuída ao cineasta e maquiador James Fazzaro, dono da empresa JMF Filmworks, em Fort Wayne (EUA).

Fotos do perfil de Fazzaro no Facebook mostram que ele divulgou as imagens do seu personagem que leva uma prótese de cara de cachorro em 2012 e em 2014.

Também é possível encontrar outras imagens desses personagens em uma galeria de arte virtual chamada Fur Affinity, na qual ele aparece com o nome DuskySamalcunha confirmada por ele pela primeira vez em seu blog, em 2011— e com a imagem que se tornou mais famosa.

Outros personagens semelhantes criados por ele receberam os nomes de Gary the Goof e Larry LeGeuff, todos com visuais semelhantes.

Gary and Larry LeGeuff: wretched brothers

Publicado por James Fazzaro em Domingo, 23 de março de 2014
Publicado por James Fazzaro em Terça-feira, 3 de junho de 2014

Segundo a Polícia Civil de Santa Catarina, os perfis com o nome de "Jonathan Galindo" e usando a imagem de Fazzaro estão ativos em países de língua espanhola desde 2017, principalmente no México. Uma rápida busca no YouTube mostra que youtubers aproveitaram o tema para conseguir audiência, embora existam registros de atividades do perfil no Facebook desde o ano anterior.

Um exemplo disso é o canal mexicano El Rey del Random, que recebeu mais de 230 mil visualizações em um vídeo de 9 de janeiro de 2017 e chama a atenção com o título do vídeo: "Jonathan Galindo | O perfil do Facebook mais assustador (Não te deixará dormir)." No vídeo, o youtuber mostra as postagens e imagens do perfil que imitam o personagem Pateta.

Desde que o assunto voltou a repercutir, dessa vez no Brasil, o número de vídeos em português sobre o "Homem Pateta" não para de crescer no YouTube, nos mesmos moldes do fenômeno do México. Alguns divulgam mensagens e ligações que não sabemos se são verdadeiras ou criadas por eles.

Embora a divulgação de conteúdo impróprio e os crimes digitais sejam assunto sério, muita gente ainda leva na brincadeira. Até um funk foi criado para fazer piada com Jonathan Galindo.

Notícias