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Cemitério de SP abre centenas de covas após aumentar enterros por covid-19

Cemitério da Vila Formosa, em São Paulo, teve aumento no número de enterro depois do início da pandemia de coronavírus - Nelson Almeida/AFP
Cemitério da Vila Formosa, em São Paulo, teve aumento no número de enterro depois do início da pandemia de coronavírus
Imagem: Nelson Almeida/AFP
do UOL

Do UOL, em São Paulo*

02/04/2020 11h39

Centenas de covas abertas à espera dos mortos pela covid-19. A imagem chocante que grita na capa do Washington Post, um dos principais jornais do mundo, mostra como o cemitério da Vila Formosa, o maior da América Latina, se prepara para o pico da pandemia de coronavírus no Brasil.

Uma foto semelhante, e as outras que ilustram esta reportagem, foram registradas na última segunda-feira pela agência France Press. E elas escancaram um dos lados mais cruéis da crise atual: os enterros feitos a toque de caixa, sem tempo para despedidas.

Segundo a AFP, desde o início da pandemia de coronavírus o número de enterros no cemitério da Vila Formosa aumentou 30%. Muitos destes casos não entraram nas estatísticas oficiais de mortos pela covid-19.

"Aqui enterramos cerca de 45 pessoas por dia, mas na última semana foram de 12 a 15 a mais. É muito pior do que vemos nas notícias", disse à AFP um coveiro que, em um lote do Vila Formosa I, cavava covas em fileiras para serem utilizadas no dia seguinte.

Prevendo o aumento da demanda, a prefeitura contratou uma empresa para reforçar com 220 funcionários temporários os 22 cemitérios da rede municipal, que foram obrigados a cortar 60% do seu quadro de 257 coveiros por pertencer a grupos de risco.

Quatro enterros em meia hora

Na tarde do último 31 de março, os caixões chegavam com tanta rapidez que os sepultadores tiveram que pedir alguns minutos para terminar com um dos enterros que já ocorria, antes de começar o seguinte.

Sob um sol forte e um céu limpo, quatro enterros ocorrem em um intervalo de meia hora em um único lote do cemitério: três casos suspeitos de covid-19 e um confirmado.

"Minha avó estava com os sintomas e fez o exame, mas o resultado demorará mais duas semanas (para sair)", disse Ricardo Santos, que velou de forma rápida e com poucos familiares Regina Almeida, de 92 anos, em um dos três toldos de cor verde dispostos fora da capela do cemitério, como mandam as recomendações sanitárias.

O Brasil por enquanto só tem testado para covid-19 os casos hospitalizados, os de clí­nicas e os profissionais de saúde, o que proporciona subnotificação. Até a tarde de ontem, o Ministério da Saúde tinha contabilizado 6836 casos oficiais, com 241 mortes.

São Paulo, epicentro da pandemia no país, registrou mais de 150 dos mortos por coronavírus no país desde que o primeiro contágio foi informado em fevereiro. Porém, a Secretaria de Saúde contabiliza 201 exames de pessoas já mortas que esperam o resultado para a doença.

O diagnóstico de José de Santana, de 77 anos, é um dos que figura nessa lista. Seu filho, Genilton Santana, enterrou o pai acompanhado apenas por um amigo. Com uma máscara branca e os olhos cheios de lágrimas, portando apenas a Certidão de Óbito.

"Causa da morte a ser informada, aguarda exames", aparece na explicação sobre o falecimento. "Mostrem isso para ver se as pessoas começam a entender o quão sério isso é", disse Genilton à AFP.

Da "gripezinha" ao "maior desafio"

Divulgação
Imagem: Divulgação

Na sua capa de hoje, o Washington Post lembrou que muitos países do hemisfério Sul demoraram para agir na crise do coronavírus, e que o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) chamou a pandemia de "gripezinha". São Paulo e outros estados brasileiros adotaram medidas de quarentena parcial, antes mesmo de Bolsonaro admitir na última terça que se tratava do "maior desafio" do país.

E o país começou a se preparar para a emergência, que deve chegar ao seu auge entre abril e junho. Um decreto federal autorizou na última quarta-feira o enterro de pessoas sem uma Certidão de Óbito em casos excepcionais.

Despedida em seis minutos

O coronavírus também modificou a preparação dos corpos que, por precaução, agora deixam os hospitais dentro de uma bolsa de material plástico especial. A prefeitura de São Paulo, que compra semestralmente 6 mil caixões para sua rede de serviços funerários, solicitou em março outras 8 mil unidades.

Os coveiros devem vestir trajes de proteção brancos, máscaras e luvas. Desde que se abre a porta do carro funerário até a colocação da coroa de flores sobre o túmulo já coberto de terra, todo esse momento dura apenas seis minutos.

As Certidões de Óbito de todos os casos confirmados ou sob suspeita da covid-19 são etiquetados como "D3", o que obriga a manter o caixão fechado, gerando uma despedida sem ver os rostos e velórios sem abraços, com menos de 10 pessoas.

O fluxo de familiares entrando e saindo não para. Alguns se despedem tocando nos cotovelos. Outros não conseguem acatar as regras de distanciamento social em meio à perda, e diante da incerteza de um diagnóstico se abraçam, dizendo: "Vamos, isso é muito triste".

* Com AFP

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