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Padres casados somam 7.000 no Brasil e lutam para voltar à Igreja Católica

do UOL

Carlos Madeiro

Colaboração para o UOL, em Maceió

17/02/2020 04h00

Resumo da notícia

  • Padres casados querem voltar a ser reconhecidos pela Igreja Católica
  • Francisco, porém, rejeitou proposta de ordenar homens casados como padres

A rejeição do papa Francisco em ordenar homens casados para atuação na Amazônia surpreendeu integrantes do MFPC (Movimento Nacional das Famílias dos Padres Casados). No Brasil, segundo a entidade, existem cerca de 7.000 padres casados.

Se houvesse uma posição favorável do papa a esse ponto, eles poderiam considerá-lo um passo a favor na luta para voltarem a ser reconhecidos na Igreja.

"Estamos mais preparados do que eventuais leigos que fossem ordenados a partir de agora para ajudar a Igreja", afirma João Tavares, responsável pela comunicação no MFPC e vice-presidente da Federação Latino-Americana de Padres Casados, em entrevista ao UOL. "E muitos de nós gostariam de ajudar. Mas ainda não houve abertura para nós."

Tavares conta que há conversas sobre o tema, mas ainda é cedo para pensar em uma resposta positiva. "Francisco está em diálogo conosco, sabe do problema, e nos pediu para ficarmos unidos e insistindo. Estamos na agenda dele, mas os bispos têm medo de nós que saímos, pois muitos somos muito mais preparados do que seus padres atuais da ativa", afirma.

Hoje, o MFPC —que nasceu no fim da década de 1970— mantém a Associação Rumos, que foi fundada em 1986 para apoiar quem deixa a Igreja. "Em geral, saíamos de mãos abanando, sem conhecimento do mundo, quase todos sem diploma superior válido e tendo de lutar num mundo novo pela subsistência da sua família", conta.

"Nada mais natural, portanto, que os padres que iam deixando o ministério sacerdotal tenham se buscado e encontrado para fazerem uma caminhada juntos, se apoiando e encorajando mutuamente, cultivando seus muitos valores comuns", completa.

João Tavares, vice-presidente da Federação Latino-Americana de Padres Casados, e sua esposa, Sofia - Arquivo Pessoal
João Tavares, vice-presidente da Federação Latino-Americana de Padres Casados, e sua esposa, Sofia
Imagem: Arquivo Pessoal

Além de acolher aqueles que deixam a igreja por conta do casamento, a associação mantém encontros frequentes e dialoga sobre "os problemas da Igreja no Brasil e possível inserção em algum trabalho pastoral, social ou até político".

Tavares diz que alguns padres casados continuam no ministério, ingressando em igrejas cristãs como a Luterana, a Anglicana ou a Ortodoxa, por exemplo. Segundo a associação, existem hoje cerca de 150 mil padres casados no mundo.

Surpresa com o papa

Para João Tavares, a decisão do papa de não ordenar homens casados para Amazônia não deixou de ser uma surpresa. "É uma decisão estranha, inesperada e, para muitos, decepcionante", diz.

Segundo ele, o papa acenou com a possibilidade de liberar a ordenação de homens casados após pedido de Dom Erwin Krautler, então bispo do Xingu. O objetivo do bispo seria atender as mais de 700 comunidades espalhadas pela floresta e de muito difícil acesso.

"[O papa] respondeu que o pedido devia vir das bases, e que os bispos da região fizessem propostas ousadas", pontua. "O Sínodo abordou o assunto, votou com maioria de dois terços que fossem ordenados homens casados na Amazônia, mas Francisco nem acena ao assunto na Exortação Apostólica 'Querida Amazônia'."

Tavares atuou por 12 anos como padre no ministério sacerdotal no sul do Maranhão até que decidiu casar-se. Ele afirma que não sabe se a decisão do papa ocorreu "por medo de um cisma na Igreja ou se foi estratégia de Francisco para que o assunto seja mais aprofundado, mais bem estudado e resolvido mais adiante".

Para ele, ordenar homens casados, sem uma séria preparação filosófica, bíblica e teológica, talvez também não seja a melhor solução. "Por outro lado, continuar a ordenar padres celibatários após tantos anos de seminário, também não está dando certo, e as vocações são sempre menos", avalia.

Ordenação de casados ainda pode ser discutida

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