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Processo de impeachment contra Trump deixa Ucrânia em posição difícil

Roman Goncharenko

21/11/2019 12h26

Em meio a inquérito nos EUA, presidente Zelensky se vê num dilema: se confirmar pressão de Washington, perde a boa vontade de Trump. Se desmentir, arrisca fechar a porta para uma futura Casa Branca sob Joe Biden.Volodymyr Zelensky queria alcançar fama internacional. Seu sonho se tornou realidade – mas não da forma que ele imaginava. Como ator, ele sonhava ser célebre no mundo inteiro, disse numa entrevista, no início de outubro. Mas "isso, eu não queria", comentou o presidente da Ucrânia sobre seu papel como figura-chave nos pré-inquéritos para um possível processo de impeachment contra seu homólogo americano, Donald Trump.

Meio ano após ser eleito, o bem-sucedido humorista de TV, de 41 anos, e com ele, toda a Ucrânia, está na mira da política dos Estados Unidos e da mídia, e a tendência é crescente. O detonador foi o relatório anônimo de um whistleblower dos meios de segurança americanos sobre um telefonema entre Trump e Zelensky, em 25 de julho.

Os democratas do Congresso dos EUA acusam seu presidente de abuso do cargo, por ter sugerido investigações contra o ex-vice-presidente Joe Biden, possível adversário de Trump nas eleições de 2020. Antes do telefonema, o presidente sustara centenas de milhões de dólares destinados à ajuda militar para a Ucrânia. Trump e Zelensky negam ter havido pressão de Washington sobre Kiev.

Caso se inicie o processo de impeachment, políticos ucranianos também deverão ser convidados a depor em Washington. Nunca, na história recente, a antiga república soviética recebeu tanta atenção, nem mesmo durante a anexação da Crimeia, em 2014. Mas, se na época o país tinha que se esforçar, por todo o mundo, para obter atenção, desta vez é o contrário.

Zelensky praticamente não se pronuncia em público sobre os desdobramentos na capital americana. A Ucrânia está "cansada" da celeuma em torno da controversa participação do filho de Biden na empresa privada de gás Burisma, declarou o presidente nesta terça-feira (19/11) à emissora americana de TV CNN: o país já tem "suficientes problemas próprios".

Segundo o colunista da DW em Kiev Serhiy Rudenko, Zelensky se encontra num dilema. "Se ele admitir que houve pressão de Washington, perde a boa vontade do atual presidente dos EUA. Se desmentir, arrisca assim fechar a porta para a futura Casa Branca, caso Joe Biden assuma."

Volodymyr Yermolenko, da organização midiática Internews Ukraine, vê a situação de forma semelhante: "Creio que a estratégia de Kiev consiste em evitar tomar partido", comentou à DW. A Ucrânia não pode se permitir perder o apoio americano, pois assim ficaria, de fato, sozinha diante da Rússia.

No entanto, Kiev não permaneceu inteiramente neutro, e anunciou que o caso Burisma voltou a ser examinado pela Procuradoria-Geral do país. Também a suposta ingerência ucraniana no pleito presidencial americano de 2016 poderá ser investigada, declarou Zelensky, frisando que Washington não apresentou quaisquer provas de tal interferência.



Ucrânia "tóxica"

Os efeitos negativos do escândalo já se fazem sentir na própria Ucrânia. "O pior que pode nos acontecer é nos transformarmos na bola desse jogo", observou o ministro ucraniano do Exterior, Vadym Prystaiko, numa entrevista à emissora BBC, em meados de novembro. Contudo, isso "já é um fato, infelizmente", e Kiev tenta escapar desse papel.

Washington já liberou a verba para ajuda militar que havia sido bloqueada e continuará apoiando Kiev, declarou o secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo. Mas as relações diplomáticas estão abaladas. Há meses, ambos os países não mantêm diplomatas regulares em suas capitais. Após a renúncia do encarregado especial dos EUA para a Ucrânia, Kurt Volker, no contexto do escândalo, continua desocupado esse posto de extrema importância para Kiev.

"Após os acontecimentos dos últimos meses, os diplomatas ucranianos se tornaram tóxicos para Washington", explica o ucraniano Kostyantyn Yelisieiev, diplomata e ex-vice-chefe da Casa Civil sob o antecessor de Zelensky, Petro Poroshenko.

Outros observadores de Kiev vão ainda mais longe em sua análise, afirmando que, do ponto de vista dos EUA, todo o país é agora "tóxico". "A Ucrânia, em geral, e todos os programas de assistência são meticulosamente examinados", escreve em seu blog Alyona Hetmanchuk, diretora do think tank New Europe Center, sediado em Kiev.

Diante desse quadro, é improvável que os EUA participem de negociações com a Rússia para resolver a questão do leste da Ucrânia, como pretende Zelensky. Igualmente questionável é se o presidente aceitará o convite de Trump para uma visita oficial a Washington, em meio às ameaças de um processo de impeachment.

Também é difícil imaginar que Trump viaje para Kiev. Se assim for, até segunda ordem, o breve encontro entre os dois líderes em setembro, à margem da Assembleia Geral da ONU, terá também sido o último.

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Autor: Roman Goncharenko

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