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Bolívia é sacudida por protestos diante de iminente resultado eleitoral

Protestos na Bolívia após resultado de eleições ser divulgado - David Mercado/Reuters
Protestos na Bolívia após resultado de eleições ser divulgado Imagem: David Mercado/Reuters

23/10/2019 00h15

La Paz, 23 Out 2019 (AFP) - Uma violenta manifestação ocorria na noite desta terça-feira nos arredores do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em La Paz, diante da iminente conclusão da polêmica apuração dos votos das eleições de domingo, que inicialmente apontavam para um segundo turno e agora indicam uma vitória direta do presidente Evo Morales.

Centenas de pessoas enfrentaram a polícia em uma praça do centro de La Paz, onde o TSE tem sua sede, constatou a AFP.

Os manifestantes, contrários ao presidente, lançaram paus e pedras contra a polícia, que reagiu com bombas de gás lacrimogêneo.

Os jovens, com máscaras, gorros e até capacetes, enfrentaram o forte esquema policial montado em torno do TSE, aos gritos de "fraude, fraude e fraude".

O grupo utilizou contêineres de lixo do serviço municipal para tentar fazer uma espécie de barricada contra a polícia de choque, queimando seu conteúdo.

Não há informação oficial sobre detidos ou feridos.

O vice-presidente do TSE, Antonio Costas, pediu demissão nesta terça, em meio às fortes críticas ao trabalho do organismo pela paralisação - de 20 horas - da contagem preliminar dos votos.

A renúncia foi motivada pela "desatinada decisão do Tribunal Superior Eleitoral de suspender a publicação dos números do Sistema de Transmissão dos Resultados Preliminares Eleitorais (TREP)", explicou Costas na carta dirigida ao vice-presidente boliviano, Álvaro García, também presidente do Congresso, que designa os membros do TSE.

"Não participei (desta decisão), apesar de ser vice-presidente do TSE", destacou Costas na carta.

A determinação de suspender o fluxo de informação produziu em mim "perturbação porque havíamos feito um trabalho esmerado, um trabalho cuidadoso, com 94% do TREP", disse Costas à rádio Panamericana.

Foi uma decisão "precipitada não publicar (os dados e suspendê-los em 84%) e fazê-lo um dia depois, provocando uma situação tão complexa como irracional".

Quando a contagem rápida foi suspensa, o TREP havia contabilizado 84% dos votos válidos e dava 45,28% para o presidente Evo Morales, contra 38%,16 para Carlos Mesa, o que quase garantia um segundo turno.

Mas após uma inexplicável paralisação de 20 horas, a apuração mostrou uma mudança radical, com a eleição de Morales no primeiro turno.

O presidente, no poder desde 2006, evita um segundo turno com mais de 50% dos votos válidos ou 40% com pelo menos uma vantagem de 10 pontos sobre o segundo colocado.

A situação colocou sob suspeita o TSE e a missão de observadores da Organização dos Estados Americanos (OEA) pediu explicações ao órgão eleitoral.

- Atenção regional -A OEA convocou uma sessão de seu Conselho Permanente para esta quarta-feira, em Washington, a pedido de Brasil, Canadá, Colômbia, Estados Unidos e Venezuela (o representante de Juan Guaidó), para abordar "a situação na Bolívia".

Em resposta, o governo boliviano solicitou à OEA enviar "o mais rapidamente possível" uma missão técnica a La Paz para auditar "uma a uma as atas" das eleições de domingo, questionadas no país e no exterior, disse o chanceler Diego Pary.

Em carta enviada ao secretário-geral da Organização de Estados Americanos (OEA), Luis Almagro, a Bolívia está "solicitando que, o mais rapidamente possível, [a entidade] possa estabelecer uma comissão que faça uma auditoria em todo o processo de contagem oficial dos votos das eleições de 20 de outubro", disse Pary em coletiva de imprensa.

Washington denunciou uma tentativa de "subverter a democracia na Bolívia" e a União Europeia pediu "respeito à vontade do povo boliviano".

Brasil, Espanha, Argentina, Colômbia e Peru também expressaram preocupações sobre a contagem de votos.A oposição boliviana, sindicatos, organizações empresariais e cívicas começaram a preparar protestos para a quarta-feira, depois de o país andino ter vivido uma segunda-feira de violentos protestos.

- Greve -Um coletivo de organizações civis pediu para paralisar indefinidamente as atividades em todo o país a partir de quarta-feira.

"Vamos à greve, até que vocês digam", anunciou Luis Fernando Camacho, líder do Comitê Cívico Pró-Santa Cruz, diante de vários militantes da oposição em um ato nesta rica região no leste da Bolívia.

O sindicato dos médicos, que manteve uma greve de mais de um mês por reivindicações trabalhistas, se mobilizou nesta terça-feira em La Paz. "Hoje se pede a democracia", disse seu líder, Luis Larrea.

A influente plataforma civil Conade, que aglutina comitês cívicos de todo o país, anunciou também "resistência civil" diante da possível vitória de Morales e sua adesão à greve geral de quarta-feira.

Diante do clima de violência, a Igreja Católica pediu "paz e serenidade" e que o TSE "cumpra seu dever de árbitro imparcial".

Mesa, que governou a Bolívia de 2003 a 2005, denunciou uma "fraude" e anunciou na segunda-feira que não reconhecerá os últimos resultados provisórios "que são parte de uma fraude consumada de maneira vergonhosa".

Historiador e jornalista de 66 anos, convocou uma "mobilização cidadã" até que se difunda o resultado definitivo.

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