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As duas faces do legado do regime de Bokassa na Rep. Centro-Africana

20/09/2019 10h14

Bangui, República Centro-Africana, 20 Set 2019 (AFP) - O dia 21 de setembro de 2019 será especial para Tita-Samba Solé. Na data, ele vai comemorar a queda do regime de Jean Bedel Bokassa na República Centro-Africana e recordará sua saída da prisão.

O sábado marcará o 40º aniversário do dia em que Solé foi libertado da prisão de Ngaraba, em Bangui, onde ficou detido durante três anos por um capricho do ditador Bokassa, apesar de ter sido um de seus favoritos e membro de seu círculo político.

Apesar de sua detenção, Solé lembra de "um grande presidente", deposto em setembro de 1979 por um golpe de Estado estimulado pela operação Barracuda do Exército francês, que representou o ponto final do regime de Bokassa, presidente a partir de 1966 e autoproclamado imperador em 1977.

Conhecido no exterior sobretudo por sua extravagante cerimônia de coroação imperial, na qual pretendia imitar seu ídolo Napoleão, e pelo caso de corrupção dos diamantes que contribuiu para a derrota do liberal Valéry Giscard d'Estaing nas eleições presidenciais francesas de 1981, Bokassa mantém uma reputação considerável em seu país.

Os habitantes da República Centro-Africana, um dos países mais pobres do planeta e ainda devastado pela guerra, sentem nostalgia do passado? Este não é o único motivo, pois além de seu patriotismo e inação diante da corrupção, "Bokassa será recordado por tudo que construiu", afirma Solé, que atualmente trabalha como conselheiro de uma organização internacional, após exercer o jornalismo durante muitos anos.

- "Duas caras" -Agricultura, infraestrutura, educação, indústria: durante os 13 anos de mandato, o "construtor" multiplicou os investimentos em diversos setores da economia para estimular um país à altura de suas ambições.

Perto do Monumento dos Mártires, construído em memória dos 50 estudantes mortos pelo regime em 18 de janeiro de 1979, a Universidade de Bangui lembra um dos lados mais sombrios do imperador, que morreu em 1996 na capital do país.

Grandes torres com fachadas deterioradas e dominadas pela poeira e ervas daninhas. Fontes que não recebem água há décadas. A única universidade do país é um dos vestígios da utopia de cimento de Bokassa, cujas aspirações de modernidade foram interrompidas em 1979.

Xavier Mbembele conserva, porém, boas lembranças do ex-presidente. Nascido em 1954, quando seu país ainda era a colônia francesa Ubangui-Chari, este professor de História morava no fim de 1979 em uma área para estudantes universitários no quarto andar da Torre B.

Atualmente, trabalha no departamento de arquivos da universidade, onde ainda existem vestígios dos saques e da destruição provocados pela guerra.

O professor apresenta um livro amarelado que tem como título "Ngaraba, casa dos mortos". A obra destaca o relato de um ex-detento da prisão de Bangui, um símbolo da repressão de um regime que estava à mercê dos presságios e paranoias de seu todo-poderoso líder.

Em 1979, Mbembele escapou por pouco de ser preso. Vários colegas, assim como seu professor de Matemática, não saíram vivos da prisão.

"A memória de Bokassa tem dupla face", reconhece o professor sobre o ditador que foi apelidado de "ogro".

Solé foi testemunha da violência. Em 1976, o jovem oficial de 23 anos era suspeito de tentativa de seduzir a amante do ex-presidente. Por este motivo, foi detido em uma cela de quatro metros quadrados com outras cinco pessoas, que mal eram alimentadas.

"Não havia dia sem execuções", recorda Solé.

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