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Como funciona a investigação de um acidente aéreo?

do UOL

Alexandre Saconi*

Colaboração para o UOL, em São Paulo

20/07/2019 04h00

Quando ocorre um acidente aéreo, há várias etapas de investigação para tentar saber as causas e evitar repetições. A Aeronáutica tem em sua estrutura um órgão com essa função: o Cenipa (Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos).

Criado em 1971, é o setor responsável por apurar e prevenir as ocorrências aeronáuticas, ou seja, acidentes, incidentes e incidentes graves, como quedas, saídas de pistas, falhas em voo etc.

O Cenipa diz que a investigação das ocorrências aéreas, diferentemente de um inquérito criminal, tem como foco descobrir o que levou uma dessas ocorrências a acontecer, e não quem a originou. Isso pode causar confusão, mas as investigações são paralelas e independentes, e podem compartilhar informações entre si. Ao final da investigação do Cenipa, são emitidas recomendações de prevenção.

Veja a seguir o passo a passo de uma investigação de acidente aéreo:

Ação inicial

Destroços de aeronave da FAB no Cenipa, em Brasília - Alexandre Saconi/UOL
Destroços de aeronave da FAB no Cenipa, em Brasília
Imagem: Alexandre Saconi/UOL

A ocorrência aeronáutica pode ser notificada por qualquer cidadão diretamente aos órgãos oficiais. Com isso, uma das equipes dos Seripas (Serviços Regionais de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos, órgãos pertencentes ao Cenipa) é designada para ir ao local e iniciar a análise do acidente.

Se todos estiverem seguros e a ação dos bombeiros já tiver sido encerrada, tem início a preservação da área e coleta de dados e indícios, além das entrevistas com testemunhas e sobreviventes. Partes da aeronave podem ser recolhidas para análise em laboratório, assim como a caixa-preta.

Na investigação, costumam estar envolvidos diversos profissionais de áreas como engenharia, psicologia e medicina. Por exemplo, é analisado se o piloto estava enfrentando uma carga de trabalho estressante ou se estava sob efeito de drogas.

A aeronave pode até mesmo ter seus destroços remontados para verificar o que pode ter ocorrido, como uma falha mecânica. Aí entra o trabalho da equipe de engenharia, que, por meio de exames e testes laboratoriais, pode detectar se houve fadiga do material, se um cabo se rompeu ou se foi forçado além do limite.

Relatório final

Com todas as informações em mãos, o investigador encarregado elabora o relatório final, que contém os fatores que contribuíram para o acidente e recomendações de segurança.

Caixa-preta

Caixa-preta é o principal item buscado em uma investigação de um acidente aeronáutico - Alexandre Saconi/UOL
Caixa-preta é o principal item buscado em uma investigação de um acidente aeronáutico
Imagem: Alexandre Saconi/UOL

Existem vários tipos de caixa-preta no mercado, e não é toda a aeronave que é obrigada a ter esse dispositivo. Todos os aviões de linhas aéreas comerciais possuem um desses gravadores, mas pequenos aviões não são obrigados.

Há caixas-pretas que gravam todas as ações realizadas no avião e a voz dos pilotos, enquanto outras apenas gravam os sons da cabine de comando. Todos esses dados ficam em um núcleo, que precisa aguentar às mais diversas condições de temperatura e umidade para manter a integridade dos dados.

Após serem resgatadas dos locais dos acidentes, as caixas-pretas são encaminhadas ao Labdata (Laboratório de Leitura e Análise de Dados de Gravadores de Voo), ligado ao Cenipa.

Esse é o único local da América Latina com capacidade para fazer a análise de caixas-pretas. Ali, os dados são extraídos e remontados posteriormente em uma animação computadorizada do voo para auxiliar os investigadores a entender o que aconteceu e causou o acidente.

Curiosidades

  • Os relatórios finais do Cenipa não possuem nomes das pessoas que estavam no voo. A intenção é reforçar o objetivo de prevenção, e não de incriminação.
  • A caixa-preta, na verdade, é laranja. Essa cor ajuda os investigadores a encontrar o equipamento em locais de acidente.
  • A caixa-preta é feita de materiais muito resistentes, como o titânio, e costumam ficar na cauda dos aviões comerciais. Elas têm de resistir a uma temperatura de mais de 1.000º C por, pelo menos, uma hora, além de aguentar ficarem submersas a profundidades de até 6.000 metros.
  • Existem caixas-pretas denominadas CVR (Cockpit Voice Recorder), que são os gravadores de voz, e FDR (Flight Data Recorder), que são gravadores de dados. Os aviões comerciais são obrigados a possuir o modelo que inclui os dois tipos de gravador.
  • O Cenipa possui uma área onde estão diversos destroços de acidentes com aviões e helicópteros da Aeronáutica. Ela serve de treinamento para os investigadores compreenderem o que ocorreu em casos reais.
  • Após o término da investigação, os destroços das aeronaves são devolvidos aos proprietários.

*O repórter viajou a Brasília, onde fica a sede do Cenipa, a convite da Abear (Associação Brasileira das Empresas Aéreas)

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