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Em política externa, mudanças nos EUA serão moderadas

24/01/2021 14h03

Washington, 24 Jan 2021 (AFP) - Joe Biden começou sua presidência claramente se distanciando de Donald Trump: na substância e na forma, da mudança climática à imigração, passando pela (re)abertura dos Estados Unidos para o restante do mundo.

Em vários temas internacionais importantes, porém, o governo Biden sinalizou que não se desviará da linha seguida por seu antecessor. Uma intenção que incomoda a ala progressista de seu partido, ávida por uma ruptura mais contundente em relação a Trump, mas que respeita a tradição americana de continuidade em política externa.

O cientista político Paul Poast, da Universidade de Chicago, disse que o objetivo fundamental dos Estados Unidos desde o fim da Guerra Fria é manter a primazia, um desafio que se tornou ainda mais pertinente com a ascensão da China.

"Talvez a retórica mude um pouco, mas seja quem for o presidente, o objetivo geral da política externa do país continua o mesmo. E, com Biden, não acho que isso vai mudar", avaliou.

Escolhido por Biden para ser seu secretário de Estado, Antony Blinken disse em sua audiência de confirmação do Senado que Trump "tinha razão ao adotar uma abordagem mais dura para com a China".

Ele também observou que manterá a embaixada dos EUA em Israel em Jerusalém, uma decisão histórica de Trump sobre o "status" dessa cidade santa, e apoiou o reconhecimento de Juan Guaidó, por parte de Washington, como presidente encarregado de uma Venezuela devastada pela crise.

Mesmo no Irã, Blinken e a nova diretora de Inteligência Nacional, Avril Haines, usaram uma linguagem quase idêntica para responsabilizar Teerã pela violação do acordo internacional assinado em 2015. O pacto foi denunciado por Trump.

"Tivemos um bom começo" com Blinken, sorriu o senador Lindsey Graham, um aliado do magnata republicano.

O futuro chefe da diplomacia dos EUA, um antigo defensor dos refugiados, respondeu à pergunta de Graham sobre uma caravana de hondurenhos que pretendia chegar aos Estados Unidos, aconselhando os imigrantes "a não vir".

A abordagem de Blinken pode ser, em grande parte, uma jogada política, ao enfrentar um Senado igualmente dividido entre republicanos e democratas. Parece ter valido a pena, já que ele caminha para uma fácil confirmação no cargo.

Biden cumpriu suas promessas de reverter algumas das decisões mais polêmicas de Trump, tomando medidas imediatas para reincorporar Washington ao acordo climático de Paris, frear a saída dos Estados Unidos da Organização Mundial da Saúde (OMS) e suspender a proibição de entrada de pessoas procedentes de vários países de maioria muçulmana.

Blinken disse também que o governo porá fim ao apoio militar americano à devastadora ofensiva da Arábia Saudita no Iêmen, destacando o papel do reino alinhado a Trump no que as Nações Unidas chamam de o maior desastre humanitário do mundo.

- Pequenas mudanças -Phyllis Bennis, do Institute for Policy Studies (IPS), um "think tank" de tendência mais à esquerda do espectro político em Washington, disse que Biden se prepara para ser o presidente mais progressista da história moderna americana moderna em questões-chave como igualdade econômica, justiça racial e clima.

"De qualquer modo, acho que a política externa é a arena onde se vê a maior lacuna entre a ala centrista de Biden e a ala progressista", disse ele.

Biden "tem pessoas muito reflexivas, como Blinken, inteligente, com experiência, mas também precisamos de ideias novas e ousadas", acrescentou.

Bennis elogiou a retirada do apoio aos sauditas no Iêmen e se referiu à medida como o auge de anos de ativismo para criar consciência sobre a terrível realidade desse país em guerra. Ele também expressou, no entanto, preocupação especial com a política da equipe de Biden em relação a Israel.

"As ações de Trump foram projetadas para agradar aos elementos mais extremos da vida política israelense e, se Biden não revertê-las, os Estados Unidos normalizarão esses extremos", explicou.

A maioria dos principais funcionários de Biden serviu com ele no governo de Barack Obama, que ganhou fama com sua oposição à invasão do Iraque, mas que, uma vez no cargo, enviou tropas para o Afeganistão, intensificou ataques de drones e enfrentou a China.

Trump prometeu acabar com as "guerras eternas", em que seu país embarcou, mas intensificou ainda mais os ataques de drones e aumentou os gastos militares como parte de sua política de "America First" ("Estados Unidos em Primeiro Lugar").

"Se havia alguém que poderia ter mudado radicalmente a política externa dos Estados Unidos era Trump, mas ele também não fez isso totalmente. Trump foi como uma exceção que confirmou a regra", completou Phyllis Bennis.

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