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Mais jovem e até então menos letal, segunda onda na Europa gera alerta

do UOL

Carolina Marins e Lucas Borges Teixeira

Do UOL, em São Paulo

21/10/2020 04h00

A Europa voltou a acender o sinal vermelho da pandemia do novo coronavírus nos últimos dias. Depois de meses de estabilidade com números baixos, os registros diários de novos casos bateram recorde em diversos países em outubro e especialistas já falam na consolidação de uma segunda onda.

Segundo dados divulgados pela OMS (Organização Mundial de Saúde) na última terça (20), o continente voltou a passar as Américas em número de novos casos. Na última semana, a Europa registrou 927 mil novos casos confirmados em 24 horas contra 798 mil deste lado do Atlântico.

Para especialistas ouvidos pelo UOL, já se pode falar em segunda onda. Esta, no entanto, apresenta uma peculiaridade em relação à primeira, entre março e abril: tem atingido maior número de jovens e, apesar de os números de novos casos diários estarem batendo recordes na maioria dos países, o número de mortes, até então, não acompanha tal proporção.

Com recorde de mais de 11 mil novos casos confirmados na última segunda (19), a Itália registrou, no mesmo dia, apenas 69 óbitos. Em março, durante o pico, ultrapassava 800 mortos entre um dia e outro.

O motivo, avalia Domingos Alves, professor da FMUSP-Ribeirão (Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo em Ribeirão Preto), se dá por um conjunto de razões, mas ele destaca três: o fato de mais pessoas jovens serem infectadas atualmente, o uso de máscara pela população e a melhoria nos tratamentos contra a doença.

"A primeira onda foi tipicamente uma epidemia para velhos. Agora, você vê pelos dados que ela está se espalhando entre os jovens. Além disso, há estudos que mostram, hoje, que o uso de máscara pela população não diminui apenas a propagação do vírus, como o dano. Com o uso em massa, quem pega tem sintomas mais leves", afirma o professor da USP.

Ele alerta, no entanto, que este cenário não irá perdurar. "O número de mortes deverá crescer. Não vai ficar assim. A bolha jovem invariavelmente vai furar, eles vão acabar passando para pais, avós", afirma Alves.

Na Espanha, embora a taxa de óbitos ainda esteja muito inferior às de março e abril, o número voltou a crescer. Na última terça (20), o país registrou 222 óbitos, maior taxa desde o dia 29 de abril.

O número cresceu em diversos países em outubro. Na França, a escalada se deu a partir da primeira quinzena de agosto, um mês e meio depois da reabertura total. No último domingo (18), o país registrou mais de 32 mil novos casos, um recorde absoluto na pandemia.

Portugal, que teve uma primeira onda mais leve do que os vizinhos, também viu seus números bateram recordes neste mês. Com 101 mil casos totais, o país ibérico só tinha registrado mais de mil novos casos por dia em duas ocasiões até o início de outubro. Desde então, isso já ocorreu 13 vezes.

Para o neurocientista Miguel Nicolelis, coordenador voluntário do Comitê Científico de Combate ao Coronavírus do Consórcio Nordeste, os números mostram que existe "claramente" uma segunda onda "se materializando na Europa".

"A França colocou o sistema hospitalar em estado de emergência porque já tem mais de 50% dos leitos nas UTIs [unidades de terapia intensiva] do país com novos casos. A Espanha já vinha numa toada muito ruim. A própria Itália apresentou na quinta o maior número de casos desde abril", afirma Nicolelis.

Até abril, o número mais alto de casos registrados em um intervalo de 24 horas na Itália, primeiro epicentro europeu da doença, era de 6.557, de acordo com a OMS. Este número foi ultrapassado em todos os dias desde a última quinta (15), quando registrou 7.332 novos diagnósticos. No domingo (18), o índice teve nova alta e ultrapassou 11.700.

Um dos fatores, diz Alves, foi a flexibilização das medidas de isolamento social, incluindo retorno às aulas e das atividades de turismo e lazer.

"Basta olhar o verão europeu. [Os números] haviam caído e, a posteriori, teve exacerbação do relaxamento das medidas restritivas, as pessoas lotando as praias no calor. Agora, você está vendo as consequências disso", avalia Alves, doutor em Sistemas de Informação em Saúde.

A Espanha, que retomou as atividades de lazer no fim de maio e as aulas no começo de junho, viu a escalada dos casos um pouco mais cedo do que os vizinhos. Em agosto, já apresentava números de novos casos semelhantes aos da primeira onda, em março e abril. Em setembro, já via este número dobrar para mais de 16 mil.

Brasil lembra mais Estados Unidos

Embora a experiência pela qual a Europa está passando sirva de lição para o Brasil e o mundo, especialistas ouvidos pelo UOL dizem que não é no velho continente que devemos mirar, mas nos Estados Unidos.

"Esses países [europeus] tiveram uma queda abrupta e sustentada [nos índices] a níveis muito baixos: baixo número de óbitos e de casos. A gente não teve isso. A gente se mantém num patamar elevadíssimo desde o início da epidemia. Efetivamente, o que a gente tem é ainda uma primeira onda no Brasil", afirma Bernadete Perez, vice-presidente da Abrasco (Associação Brasileira de Saúde Coletiva).

"Quando você observa os dados americanos, vê o que seria a nossa segunda onda. Eles tiveram números com diminuição e voltou a crescer. É de se esperar o que vai acontecer no Brasil. A maioria dos estados tem praticado um grande número de casos estáveis, mas sem redução considerável. O que a gente vai chamar de segunda onda é uma consequência da primeira onda", concorda Alves.

Os Estados Unidos, epicentro global da pandemia desde abril, viu uma leve queda nos números de casos entre agosto e setembro depois do pico em julho. Agora, o número de casos diários está voltando a crescer para um patamar superior às mais de 60 mil novas confirmações/dia.

"Os Estados Unidos tiveram um platô longo. Depois, tiveram uma segunda explosão, ainda na primeira onda, e agora estão com números muito parecidos com os do Brasil. Com 44, 45 mil casos por dia, variando entre quinhentos e em mil mortes por dia. Mas é um país com uma população de trezentos e dez milhões de habitantes, 50% a mais do que a população brasileira. Quando você fizer essa comparação, você vê claramente que a situação no Brasil é bem ruim", alerta Nicolelis.

Distanciamento social e manutenção da estrutura de saúde podem ajudar

Como evitar, então, que a primeira onda se transforme em uma segunda onda ainda mais danosa para o Brasil? Retomando — ou intensificando — práticas de distanciamento social e não desmobilizando toda a estrutura de saúde.

"A gente não tem uma medida farmacológica hoje, ainda não têm vacina, não tem bala de prata para isso [acabar com o vírus]. A gente tem efetivamente a possibilidade do distanciamento físico e das medidas de proteção individual e coletivas articuladas com uma série de respostas capazes de proteger a população ao longo do tempo", afirma Perez.

Nicolelis, que apresentou um estudo recente que indica como medidas de isolamento teriam evitado o avanço da pandemia no Brasil em março, diz entender que o lockdown não será adotado no Brasil agora, mas reforça que medidas de distanciamento são determinantes para bons resultados.

"Se tivesse sido feito um lockdown e um controle do fluxo pelas rodovias brasileiras, com barreiras sanitárias, rodízios ou mesmo a interdição de tráfego particular por períodos, nós teríamos tido um resultado bem melhor. [Mas] se nós não tivéssemos feito nem o que foi feito, a situação teria sido ainda pior e o colapso do sistema de saúde teria sido ainda mais amplo do que foi", afirma o neurocientista.

Além disso, aponta Alves, não pode acontecer o desmonte das estruturas de combate à pandemia, como tem sido feito na maioria das cidades. "Nós temos de testar mais pessoas. Isso [desmontar estruturas] é uma decisão política de olho em eleições. Do jeito que estamos, uma segunda onda mais severa no Brasil não é caso de 'se', mas de 'quando'", conclui o pesquisador.

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