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Juan Carlos da Espanha, símbolo da democracia, deixa o país cercado por escândalos

03/08/2020 19h00

Madri, 3 Ago 2020 (AFP) - Símbolo da democracia espanhola, com décadas de popularidade por seu papel na transição pós-Franco, o rei emérito Juan Carlos teve sua imagem manchada por suspeitas de corrupção que o pressionaram a deixar o país.

Seis anos depois de abdicar, o rei emérito Juan Carlos I está em uma situação complicada. Ele é investigado pelos tribunais suíço e espanhol e enfrenta um crescente clamor para deixar o Palácio da Zarzuela e salvar a monarquia, sob comando de seu filho Felipe VI.

Os espanhóis tomaram conhecimento nos últimos meses dos detalhes sobre a gestão pouco transparente do dinheiro cedido pela Arábia Saudita ao ex-chefe de Estado - 100 milhões de dólares - que ele teria recebido secretamente em uma conta na Suíça e em paraísos fiscais em 2008.

Seus problemas não são novos. Eles começaram com a investigação de corrupção contra seu genro Iñaki Urdangarin e sua filha caçula, a infanta Cristina, acusada em 7 de janeiro de 2014 por suposta fraude fiscal e lavagem de dinheiro no caso contra o marido.

A notícia chegou no pior momento. No dia anterior, o monarca se apresentou de uma forma muito diferente da habitual. Convalescente de sua nona operação em menos de quatro anos, um rei fisicamente fraco e gaguejante leu um breve discurso em um ato militar.

Juan Carlos parecia ainda mais cansado do que em 18 de abril de 2012, quando surpreendeu o país ao pronunciar um pedido de desculpas histórico na televisão: "Sinto muito. Eu errei e isso não acontecerá novamente".

Alguns dias antes, surgiram controvérsias sobre uma caçada a elefantes em Botsuana, de onde foi repatriado com uma fratura no quadril, acompanhado por sua então amante, a alemã Corinna Larsen, a quem teria presenteado com 65 milhões de euros, segundo a imprensa.

Outra aparição na televisão, 31 anos antes, marcou o auge de seu reinado: em 23 de fevereiro de 1981, o monarca em uniforme militar ordenou que os oficiais que ocupavam o Congresso retornassem ao quartel, tornando-se o salvador da jovem democracia espanhola.

- Embaixador do luxo -O acidente em Botsuana marcou um antes e um depois para Juan Carlos, coroado aos 37 anos, em 22 de novembro de 1975, dois dias após a morte de Franco, que conduziu a Espanha em sua modernização.

A naturalidade do chefe de Estado, apreciador de esportes e discreto em sua vida pessoal, ganhou ao longo dos anos respeito dentro e fora de seu país.

O prestígio internacional não resistiu à crise econômica que, a partir de 2008, diminuiu repentinamente a prosperidade do país e provocou desconfiança dos cidadãos nas instituições.

Os incessantes problemas de saúde do monarca, iniciados com a remoção de um tumor benigno do pulmão em maio de 2010, ajudaram a ofuscar sua imagem. Com sua reputação prejudicada, Juan Carlos cedeu a coroa a seu filho Felipe VI em 2014 e, em 2019, se aposentou da vida pública.

Juan Carlos Alfonso Víctor María de Borbón y Borbón nasceu em 5 de janeiro de 1938 em Roma, onde seu avô, rei Alfonso XIII, se exilou após a proclamação da Segunda República Espanhola em 1931.

Seu pai, Juan de Borbón, nunca assumiu o trono, afastado por Francisco Franco devido a opiniões que ele considerava muito liberais.

O ditador, que chegou ao poder com o fim sangrento do regime republicano após a Guerra Civil (1936-39), preferiu o jovem Juan Carlos, a quem chamou em 1948 a continuar seus estudos na Espanha, longe dos pais exilados em Portugal.

- Propulsor da democracia -O jovem monarca, nomeado sucessor do ditador em 1969 e coroado em 1975, rapidamente se livrou do pesado legado franquista e partiu para o caminho da transição democrática.

Juan Carlos definiu sua missão da seguinte maneira: "A ideia principal da minha política era garantir que os espanhóis nunca mais se dividissem em vencedores e perdedores".

Ao contrário do que os nostálgicos de Franco esperavam, em pouco tempo lançou as bases do Estado democrático: legalizou partidos políticos, nomeou um presidente de governo - o centrista Adolfo Suárez - a quem encarregou de organizar eleições e aprovar por referendo uma nova Constituição em 1978.

Sua intervenção histórica de 23 de fevereiro de 1981 confirmou seu papel como propulsor da transição.

"Eu sabia que os militares me aceitariam porque fui nomeado por Franco (...), porque havia passado por todas as academias militares e conquistado a amizade de muitos", afirmou.

E "acima de tudo, porque eu era o chefe supremo das Forças Armadas", disse ele.

Depois de completar seu treinamento militar e seus estudos em direito e economia, o futuro monarca casou-se em 1962 em Atenas com a princesa Sofia, filha mais velha do rei Paulo I da Grécia. O jovem casal se estabeleceu no Palácio Zarzuela, perto de Madri, onde vive desde então.

Do casamento nasceram a infanta Elena em 1963, Cristina em 1965 e Felipe, seu sucessor, em 1968.

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