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França: policiais negros e de origem árabe denunciam racismo de colegas brancos

06/06/2020 12h13

O recente debate mundial sobre o racismo e a violência policial colocou a França diante de uma realidade raramente abordada: o preconceito de policiais brancos contra os colegas negros ou descentes de árabes. O escândalo eclodiu na quinta-feira (4), depois do anúncio, pelo diretor-geral da Polícia Nacional, de que um grupo de policiais de Rouen foi enviado para o conselho de disciplina, em meio a uma investigação interna aberta no fim de 2019.

O recente debate mundial sobre o racismo e a violência policial colocou a França diante de uma realidade raramente abordada: o preconceito de policiais brancos contra os colegas negros ou descentes de árabes. O escândalo eclodiu na quinta-feira (4), depois do anúncio, pelo diretor-geral da Polícia Nacional, de que um grupo de policiais de Rouen foi enviado para o conselho de disciplina, em meio a uma investigação interna aberta no fim de 2019.

A denúncia foi feita por um policial negro que, em dezembro, teve acesso a dezenas de mensagens de um grupo no WhatsApp no qual seus próprios colegas se referiam a ele de maneira racista. A investigação foi comanda pela Inspeção Geral da Polícia Nacional, por "difamação pública agravada e provocação não pública à discriminação".

Nas mensagens, seis policiais escrevem comentários como "ele [vítima] faz um trabalho de negro [termo pejorativo em francês]", além de outras frases de baixo calão. "Eu tinha a impressão de me entender bem com os meus colegas. Fiquei chocado", contou o policial que prestou queixa, ao site de investigações Mediapart.

Em outros trechos, é o racismo em relação ao público que fica evidente. Os policiais comentavam ao vivo audiências judiciais das quais participavam, realizando a segurança de suspeitos ou do tribunal. Utilizam termos chulos para se referir a ciganos e ironizam que, em uma determinada audiência, há apenas "negros" na plateia, "negros na acusação" e "o acusado? Um negro".

Racistas assumidos

Os profissionais também não se constrangem em dizer que fazem parte da "fascistosfera" francesa e se consideram "nacionalistas raciais". "Este país merece uma guerra racial bem suja", escreveu um deles.

A polêmica levou outros policiais a quebrarem o silêncio, por meio da imprensa. À emissora Franceinfo, um policial de origem magrebina relata que, desde o primeiro dia no posto, foi apelidado de "bougnoule", expressão pejorativa para designar descendentes de árabes.

"Lembro de um colega que, quando eu era mais novo, dizia que se negava a apertar a mão dos policiais negros e árabes porque, para ele, eles não tinham nada a fazer na polícia francesa", relatou a fonte, sob anonimato. Um racismo que, segundo ele, se reflete todos os dias na profissão, nas abordagens nas ruas.

"Se não aceitamos, eles dizem que não temos senso de humor"

À emissora BFM TV, foi a vez uma policial descendente de árabes contar que, quando foi transferida para o sul da França, teve de ouvir dos colegas: "Mas você não é daqui!". Os comentários racistas se tornaram rotina, sempre em tom de brincadeira, e ela decidiu gravá-los. "Quando eu digo 'bougnoule', é pejorativo de verdade: é um árabe bastardo", afirmou um colega, aos risos.

"São injúrias que, para eles, são como brincadeiras. Eles acham engraçado e, se não aceitamos, eles dizem que não temos senso de humor", contou.

Nesta sexta-feira (5), o caso tomou outra dimensão quando centenas de mensagens de cunho racista escritas em um grupo de policiais no Facebook foram divulgadas por sites franceses. Entre elas, havia não apenas comentários ofensivos em relação a suspeitos ou detidos, mas também sobre os próprios colegas. O Ministério Público de Paris, a pedido do ministro do Interior francês, Christophe Castaner, abriu um inquérito de "injúria pública de caráter racista" e "provocação ao ódio racial".

O grupo privado conta com cerca de 8 mil policiais. "Se forem confirmados, esses comentários inaceitáveis abalam gravemente a honra da polícia nacional, na qual homens e mulheres se engajam para proteger os franceses, inclusive do racismo e das discriminações", reagiu o ministro.  

"Os policiais são policiais 24 horas por dia. Eles devem respeitar a deontologia profissional. Grupos como este não são aceitáveis", declarou o sindicato nacional de policiais UNSA-Police.

 

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