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Reino Unido e UE fecham acordo para Brexit sem garantia de êxito

17/10/2019 22h14

Bruxelas, 18 Out 2019 (AFP) - Os líderes do Reino Unido e da União Europeia fecharam nesta quinta-feira (17) um "excelente novo acordo" do Brexit, sobre o qual pesa, no entanto, a persistente ameaça de rejeição pelo Parlamento britânico.

Após dez dias de negociações intensas e muita especulação, Londres e seus 27 parceiros europeus chegaram a um entendimento de última hora, duas semanas antes do divórcio, marcado para 31 de outubro.

"Tudo parece indicar que estamos muito perto do fim", disse o chefe do Conselho Europeu, Donald Tusk, anunciando a adoção pelos dirigentes da UE do texto em uma cúpula em Bruxelas.

Entretanto, as atenções agora se voltam para os deputados britânicos, diante da incerteza em torno da adoção do pacto. O primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, está ciente destes receios.

O presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, advertiu que se a Câmara dos Comuns não aprovar o acordo "estaremos em uma situação muito complicada".

"Estou muito confiante de que, quando os deputados de todos os partidos examinarem esse acordo, verão o mérito de apoiá-lo", disse o chefe de governo antes de retornar ao seu país para realizar uma campanha de sedução.

Há quase um ano, nesse mesmo local, sua antecessora Theresa May também alcançou, após duras negociações, um acordo, descrito como "o melhor possível", que foi posteriormente rejeitado pelos deputados britânicos.

Essa rejeição levou à queda de May, e o Brexit, decidido por referendo em 2016, foi adiado duas vezes. Johnson resiste a pedir o terceiro adiamento.

- O não do DUP -Tanto o Fundo Monetário Internacional (FMI) quanto a patronal britânica celebraram um novo acordo, mas se mantiveram prudentes sobre a possibilidade de seu êxito.

"Claro que é bem-vindo", disse a respeito do acordo Kristalina Georgieva, diretora-gerente do FMI.

O texto foi mal recebido em Londres, tanto entre a oposição como entre os aliados de Johnson, os unionistas da Irlanda do Norte do DUP, o que fez reviver o fantasma do veto.

O acordo retoma basicamente o que foi negociado por May, mas modifica seu ponto mais conflituoso: como garantir uma troca fluida de mercadorias entre a província britânica da Irlanda do Norte e a República da Irlanda - país da UE -, sem a necessidade de reintroduzir uma fronteira física.

Seu objetivo é preservar o frágil acordo de paz na Sexta-feira Santa, que em 1998 encerrou três décadas de um sangrento conflito na Irlanda do Norte entre unionistas protestantes e republicanos católicos, e proteger o mercado único europeu da concorrência desleal britânica.

O atual acordo prevê uma solução técnica complexa, segundo a qual a província britânica continuará sendo regida por algumas regulamentações europeias do mercado único e permaneceria de fato em uma união aduaneira com a UE, embora permanecesse legalmente na mesma área aduaneira do resto do Reino Unido.

No entanto, esse sistema "excepcional", que o negociador europeu Michel Barnier justificou pela "situação única" da Irlanda do Norte, se choca com a feroz oposição dos unionistas irlandeses que não querem que seu território tenha um tratamento diferente do restante do Reino Unido.

- Anos de crise política e social -O trabalhista Jeremy Corbyn, principal líder da oposição, pediu a rejeição do acordo, argumentando que, além da questão irlandesa, não há muitas mudanças em relação ao acordo de May, e pediu um segundo referendo para resolver o impasse do Brexit.

No entanto, não é certo que ele consiga manter seu partido unido no parlamento, já que vários deputados trabalhistas são a favor de deixar a UE.

Os legisladores britânicos se reunirão excepcionalmente no sábado, dia em que, por lei, Johnson deve pedir um novo adiamento da data de saída, caso o acordo não seja adotado.

Se conseguir que a adoção do texto, o carismático e controverso premiê se tornará herói na difícil missão que acabou com a carreira de sua antecessora.

Um acordo pode acabar com anos de profunda divisão política e social, reforçada pelas próximas eleições legislativas antecipadas.

Diante da ameaça de um novo bloco e embora Johnson se mostre reticente, a UE não descarta um terceiro adiamento.

"Toda a questão do adiamento desaparece um pouco agora", mas isso "não quer dizer que no sábado não voltará à mesa", disse um diplomata europeu. "May também fechou um acordo com a gente" que nunca foi concretizado, lembrou.

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