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Delator gravou cobrança de dívida de propina a aliado de líder de Bolsonaro

Líder do governo no Senado, o senador Fernando Bezerra Coelho colocou o cargo à disposição - Pedro Ladeira - 28.mar.2019/Folhapress
Líder do governo no Senado, o senador Fernando Bezerra Coelho colocou o cargo à disposição Imagem: Pedro Ladeira - 28.mar.2019/Folhapress
do UOL

Felipe Amorim

Do UOL, em Brasília

19/09/2019 17h32Atualizada em 20/09/2019 03h54

Resumo da notícia

  • Líder do governo e filho são suspeitos de receber propina
  • Investigações apontam R$ 5,5 milhões em pagamentos
  • Empresário grava cobrança de dívida de R$ 1,7 milhão

Um dos delatores que levaram à operação policial contra o senador Fernando Bezerra Coelho (MDB-PE) gravou a conversa que teve com um aliado do senador na qual foi negociado o pagamento de um empréstimo fruto de propina para financiamento de campanhas eleitorais.

A informação consta da decisão do ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Luís Roberto Barroso que autorizou a operação.

Bezerra foi alvo de operação da Polícia Federal que investiga suspeitas de pagamento de propina ao senador por empreiteiras ligadas às obras de transposição do rio São Francisco. Os fatos sob investigação são relativos à época em que Bezerra foi ministro da Integração Nacional durante o governo da ex-presidente Dilma Rousseff (PT). As obras de transposição estavam sob a responsabilidade da pasta da Integração.

O diálogo foi gravado pelo empresário e delator João Carlos Lyra Pessoa de Mello Filho durante um encontro, em fevereiro de 2017, com Iran Padilha Modesto, ligado ao senador Fernando Bezerra.

Em 2012, Iran foi coordenador financeiro da campanha eleitoral à Prefeitura de Petrolina (PE) do deputado federal Fernando Coelho Filho (DEM-PE), filho do senador, e atuou como assessor de Bezerra Coelho quando este foi secretário estadual no governo de Pernambuco.

O motivo da reunião, segundo o delator, foi o de discutir o pagamento de uma dívida de R$ 1,7 milhão, contraída pelo senador em 2014 para custear gastos de campanha dele e do filho, o deputado Fernando Coelho.

No diálogo, o intermediário de Bezerra afirma que o senador poderia utilizar a Prefeitura de Petrolina, comandada por um de seus filhos, para quitar a dívida.

O áudio da conversa passou por perícia da Polícia Federal, que não constatou indícios de adulteração.

O delator afirma que só concedeu o empréstimo porque a construtora OAS teria se comprometido a quitar a dívida do senador. Como isso não ocorreu, ele passou a cobrar diretamente Fernando Bezerra.

O valor, segundo João Carlos Lyra, foi repassado por meio de entregas em dinheiro a Iran Padilha e por meio de transferências bancárias a empresas de um segundo delator que atuou no esquema.

O delator conta ainda que, antes da reunião em que gravou a conversa com o emissário do senador, teve um encontro com o próprio Bezerra na casa do senador em Recife. Segundo Lyra, o parlamentar lhe ofereceu como forma de quitar a dívida a entrega de apartamentos em Salvador e de um terreno em Gravatá (PE), proposta que foi recusada pelo delator. Essa reunião teria ocorrido em março de 2016.

A Polícia Federal cruzou informações sobre ligações telefônicas e a localização dos aparelhos celulares dos suspeitos no momento da reunião e concluiu que o encontro provavelmente ocorreu no dia 15 de março daquele ano, uma terça-feira, por volta das 11h.

A PF também constatou que as entregas de dinheiro relatadas pelo delator coincidem com a localização geográfica dos aparelhos de telefone celular de João Carlos Lyra e de Iran Padilha Modesto, segundo consta na decisão judicial que autorizou a operação.

A conversa gravada foi transcrita pela PF e anexada ao inquérito que investiga as suspeitas contra Bezerra no STF.

O ministro do STF Luís Roberto Barroso  - Carlos Moura/SCO/STF
O ministro do STF Luís Roberto Barroso
Imagem: Carlos Moura/SCO/STF

Há indícios de que esquema funcionou após Lava Jato

Na decisão que autorizou a operação contra o senador, o ministro Luís Roberto Barroso afirma que o fato indica haver indícios de que "ainda em 2017 o sistema de repasses de valores indevidos continuava, mesmo após a menção ao nome do senador na Operação Lava Jato", escreve o ministro na decisão.

Hoje, em entrevista a jornalistas, o senador disse ver "excessos" na operação, argumentando que a PGR (Procuradoria-Geral da República) teria opinado no processo que não seriam necessárias ações de busca e apreensão contra ele.

"Decisão judicial a gente cumpre e depois você recorre e discute ao longo do processo", disse Bezerra.

A PGR foi contrária à realização de busca e apreensão contra o senador, com o argumento de que não haveria indícios de que ele conservasse consigo provas sobre os fatos investigados.

Mas o ministro do STF Luís Roberto Barroso rejeitou a posição da PGR e autorizou as buscas, afirmando que "na criminalidade organizada econômica, porém, o natural é que todos os envolvidos tentem ocultar provas e não evitar deixar registros de seus atos", diz o ministro na decisão.

A investigação que resultou na operação de hoje teve início em 2017, a partir da delação de investigados presos na Operação Turbulência.

Essa operação foi responsável por identificar o proprietário do avião que caiu em 2014 matando o ex-governador pernambucano e então candidato à presidência pelo PSB, Eduardo Campos.

A identificação do empresário João Carlos Lyra Pessoa de Mello Filho como dono da aeronave, levou a PF a operações suspeitas feitas por empresas dele e a outros dois empresários investigados que também firmaram acordo de delação premiada: Eduardo Freire Bezerra Leite e Arthur Roberto Lapa Rosal.

Foram esses três delatores que relataram os pagamentos suspeitos ao senador Fernando Bezerra Coelho.

Não há relação entre o acidente aéreo e a investigação contra o senador. Mas foram as operações financeiras identificadas pela PF na Operação Turbulência que levantaram suspeitas sobre a atuação dos empresários nos repasses a Fernando Bezerra.

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