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15 dias

Na Amazônia peruana, indígenas ashaninkas recordam crueldade do Sendero Luminoso

27/09/2021 10h29

Pichari, Peru, 27 Set 2021 (AFP) - Vítimas dos massacres cometidos pelo Sendero Luminoso no Peru, na década de 1980, os índios ashaninka da Amazônia esperam que a guerrilha morra junto com seu violento líder Abimael Guzmán, cremado na última sexta-feira (24).

O chefe da comunidade ashaninka Otari, David Barboza Vargas, lembra a guerrilha como uma "doença" nesta aldeia cercada por plantações de mandioca, cacau e folhas de coca. Localizada em Pichari, na selva da região de Cuzco, esta comunidade sofreu em primeira mão a violência do Sendero.

"Para mim, na década de 1980, houve uma 'doença do Sendero' (...) Não quero que volte", disse à AFP o chefe desta comunidade que enfrentou o Sendero Luminoso com arcos e flechas.

"Estamos convencidos de que já houve traição demais dos nossos povos ashaninka em toda Amazônia", acrescentou Vargas, de 62 anos, com um cocar colorido com penas de papagaio.

Pichari fica no maior vale cocaleiro do Peru, banhado pelos rios Apurímac, Ene e Mantaro, mais conhecido como VRAEM e epicentro recorrente de confrontos armados entre militares e dissidentes da guerrilha Sendero Luminoso aliados ao narcotráfico, de acordo com as autoridades.

Nesta região, vivem cerca de 200 ashaninkas em situação de extrema pobreza, morando em casas rústicas de madeira com telhados de folha de palmeira.

Os ashaninkas foram o principal grupo nativo da Amazônia vítima da violência do Sendero Luminoso durante o conflito interno peruano (1980-2000).

- Comunidades arrasadas -Vargas relembra o destino cruel das comunidades ashaninka massacradas.

"Foram mortos a tiros quando corriam para entrar no rio", lembra, emocionado, depois de contar que perdeu vários parentes pela violência.

Entre 1986 e 1996, os ashaninkas estiveram no fogo cruzado entre os guerrilheiros maoístas e as forças de segurança.

Uma Comissão da Verdade e Reconciliação (CVR) chamou a matança de ashaninkas nesta área de "holocausto".

Cerca de 40 comunidades desapareceram, e mais de 6.000 indígenas morreram. Isso corresponde a pouco mais de 10% de sua população, estimada em 55.000 pessoas em 1993.

Segundo depoimentos coletados pela CVR em 2003, o Sendero Luminoso sequestrou indígenas, fazendo deles servos e agricultores. Mulheres foram estupradas para gerar "soldados".

O líder da comunidade Pitirinquini, Abel Casiano, foi sequestrado quando tinha 16 anos, em 1986, e conseguiu escapar após dois anos de cativeiro.

"Eles me pegaram. Crianças ashaninka foram levadas, mas consegui fugir pela montanha", conta Casiano, de 52 anos, ao receber a AFP com o rosto pintado, um sinal de sua autoridade.

"Sofremos. Diziam: 'esse é o Partido Comunista', 'esse é o exército guerrilheiro', 'vamos lutar, vamos vencer o governo'", lembrou.

Casiano disse que o Sendero Luminoso esfaqueou sua mãe Victoria e seus irmãos Sonia, Alicia, Norma e Simón.

"Nós, como ashaninkas, fomos afetados pelo Sendero. Comunidades desapareceram. Até agora não sabemos o que aconteceu com os irmãos ashaninkas", declarou o vice-presidente da Organização Ashaninka do Rio Apurímac (OARA), Reyna Barboza.

Barboza disse que sua comunidade temeu um retorno dos piores momentos da violência guerrilheira após o recente massacre cometido por dissidentes do Sendero Luminoso em San Miguel del Ene. Um ataque a dois bares deixou 16 mortos em maio deste ano. Entre as vítimas fatais, havia quatro crianças.

Os ashaninkas são uma etnia que vive na selva central e sudeste do Peru. É a mais numerosa entre as 65 etnias indígenas amazônicas do país.

Após sua derrota militar há três décadas, a grande maioria dos líderes da guerrilha de extrema-esquerda está atrás das grades.

Seu líder, Abimael Guzmán, que passou 29 anos na prisão, morreu aos 86 anos, em 11 de setembro, na penitenciária onde cumpria pena perpétua desde 1992.

A Promotoria ordenou sua cremação, que ocorreu na sexta-feira passada.

A história da guerrilha "é a história da morte de toda a família no Peru", declarou o presidente do comitê de autodefesa indígena ashaninka e mashiguenga, Chayeki Tinkavo, de 37 anos.

"Graças a Deus, estamos vivos. Queremos viver em paz e tranquilidade, trabalhando para que não haja mais assassinatos", disse Chayeki, de arma e flecha na mão.

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