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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Governo Bolsonaro aprofunda maior regressão econômica e social da história

José Paulo Kupfer

Jornalista profissional desde 1967, foi repórter, redator e exerceu cargos de chefia, ao longo de uma carreira de mais de 50 anos, nas principais publicações de São Paulo e Rio de Janeiro. Eleito “Jornalista Econômico de 2015” pelo Conselho Regional de Economia de São Paulo/Ordem dos Economistas do Brasil, é graduado em economia pela FEA-USP e integra o Grupo de Conjuntura da Fipe-USP. É colunista de economia desde 1999, com passagens pelos jornais Gazeta Mercantil, Estado de S. Paulo e O Globo e sites NoMinimo, iG e Poder 360.

do UOL

19/04/2021 15h01

O Brasil está vivendo a maior regressão econômica e social de sua história republicana. O crescimento da economia e a renda per capita recuaram, nos últimos sete anos, ao mesmo tempo em que as desigualdades de renda, a pobreza e a fome aumentaram. Este é um país em marcha à ré, que só conseguirá começar a estancar o retrocesso, segundo projeções, em 2024, depois de mais uma década perdida.

Esse retrocesso vem desde 2014, início do segundo mandato de Dilma Rousseff na presidência, consolidando-se no governo de Michel Temer. A aceleração recente da tendência se deve, em parte, aos choques causados pela pandemia de covid-19. Mas, no governo de Jair Bolsonaro, a gestão negacionista da crise sanitária e a política econômica reforçaram e aprofundaram o quadro regressivo.

A política econômica de Bolsonaro, conduzida pelo ministro da Economia, Paulo Guedes é obsessivamente focada em esforços nem sempre bem-sucedidos de reequilibrar as contas públicas, com cortes em gastos públicos, Diante dos prejuízos causados pelas restrições decretadas ou voluntárias à movimentação de pessoas e mercadorias, essa política opera na contramão do que está sendo praticado no resto do mundo. Na grande maioria dos demais países, volumes inéditos de recursos públicos estão sendo mobilizados no enfrentamento das consequências econômicas e sociais da pandemia.

O enfrentamento das graves consequências sociais e econômicas da pandemia por Bolsonaro tem sido hesitante, de um lado, e desastroso, de outro. O resultado é um momento, hoje inédito no mundo, e não tão comum, mesmo no Brasil quando sofria com a hiperinflação, em que o país se vê às voltas com uma estagflação - aquela situação de desarranjo na economia que se traduz em recessão ou baixo crescimento, combinada com pressões inflacionárias, normalmente inexistente quando a atividade e a demanda recuam.

Do ponto de vista do cenário mais geral da economia, o que se constata é que a atividade econômica murchou e o mercado de trabalho encolheu, o que nem assim ajudou a conter o desemprego. No desdobramento dessa contração, a renda per capita desabou e a pobreza avançou. Com isso, as desigualdades voltaram a crescer e, com elas, a fome e a insegurança alimentar.

Depois de uma das três maiores recessões desde 1901, ao longo de 11 trimestres, entre o segundo trimestre de 2014 e o quarto trimestre de 2016, no qual a economia mergulhou 8,2%, a recuperação tem sido a mais lenta da história. Com crescimento medíocre nos cinco anos seguintes, a atividade econômica ainda não tinha superado as perdas ocorridas na grande recessão quando voltou a afundar em 2020, empurrada para baixo pela pandemia. Em 2021, sete anos após o último pico, registrado no primeiro trimestre de 2014, o PIB ainda está 4,5% abaixo daquele ponto.

Essa involução foi ainda mais regressiva para a renda per capita. Dados do FMI mostram um recuo, na década passada, de 8%. Medida por PPP (paridade de poder de compra, na sigla em inglês), a renda per capita brasileira caiu de US$ 15,4 mil para US$ 14,1 mil, no período. No ranking de 191 países listados pelo FMI, a renda per capital brasileira desceu da 77ª posição, em 2011, para o 85º lugar, no ano passado.

A perda de renda dos brasileiros, nesses últimos anos, atingiu mais os mais pobres. Entre 2014 e 2019, segundo cálculos do Banco Mundial, a renda dos 40% mais pobres caiu 1,5% ao ano, enquanto os demais grupos de renda obtiveram ganho médio anual na renda de 0,3%. Com isso, o índice de Gini, que mede o grau de desigualdade de uma população (quanto mais perto de 1, mais desigual a amostra), e tinha avançado de 0,525, em 2015, para o pico de 0,550, em 2018, voltou a cair para 0,547, em 2019, devendo ter retrocedido ao nível de seis anos atrás, em 2020.

Tais perdas produziram retrocessos em cascata. Brasileiros antes situados na classe média caíram para os estratos mais pobres. No primeiro trimestre de 2021, depois de encerrado o auxílio emergencial do ano anterior, segundo projeções da FGV-RJ, 17,7 milhões de pessoas voltaram à pobreza. Os extremamente pobres, eram 9,5 milhões, em agosto de 2020, o equivalente a 4,5% da população, mas somavam já 27,2 milhões, quase 13% do total de brasileiros, em fevereiro passado. Em 2019, 11% da população, num conjunto de 23 milhões de pessoas, se encontravam na extrema pobreza.

A classe média encolheu e, pela primeira vez em 10 anos, a pirâmide de renda brasileira mostra que classe média e pobre dividem 47% do total, de acordo com pesquisa do Instituto Locomotiva, em março último. De 2010 a 2020, a classe média recuou de 54% da população total para 51%, caindo para 47%, em 2021. Na direção contrária, a classe pobre aumentou de 38% para 43% da população, até o ano passado, subindo agora para 47%.

Num movimento natural, diante da regressão da renda, aumentaram os níveis de maior pobreza. Esse movimento havia sido estancado e até mesmo em parte revertido com o auxílio emergencial de 2020 e outros benefícios públicos que deram sustentação ao emprego, com programas de ajuda a empresas. Mas um erro do governo, que, no fim de 2020, considerou "baixíssimos" os riscos de novas onda de covid-19 e eliminou auxílios e programas de suporte a empregos e empresas, fez com que os números da pobreza explodissem.

No primeiro trimestre de 2021, depois de encerrado o auxílio emergencial do ano anterior, segundo projeções da FGV-RJ, 17,7 milhões de pessoas voltaram à pobreza. Os extremamente pobres, eram 9,5 milhões, em agosto de 2020, o equivalente a 4,5% da população, mas somavam já 27,2 milhões, quase 13% do total de brasileiros, em fevereiro passado. Em 2019, 11% da população, num conjunto de 23 milhões de pessoas, se encontravam na extrema pobreza.

Desse quadro de ampla regressão, a consequência mais dramática é a da fome e de suas sequelas, inclusive cognitivas, sobretudo em crianças. Dados do IBGE mostram ter havido, nos últimos sete anos, aumento expressivo das residências em que a falta de comida era, pelo menos, uma preocupação cotidiana. De 23% dos lares brasileiros, em 2013, o total daqueles em que rondava o espectro da fome, subiu para 37%, em 2018, indicando tendência de chegar a 40%, em 2019.

Pesquisa mais recente, entre novembro e dezembro de 2020, parte de um projeto conjunto da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Universidade de Brasília (UnB) e Universidade Livre de Berlim, constatou a existência de 32 milhões de pessoas, ocupando 15% dos lares brasileiros, em situação de fome. Em situação de insegurança alimentar, ou seja, pelo menos com preocupação se haveria comida no prato amanhã, são mais de 125 milhões de brasileiros, quase 60% da população. Um quadro, numa palavra, catastrófico.

Errata: o texto foi atualizado
Diferentemente do informado em uma versão anterior deste texto, no oitavo parágrafo, o Índice de Gini, que varia de 0 a 1, aponta mais desigualdade quanto mais se aproxima de 1. O texto foi corrigido.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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