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Toda e qualquer vacina está descartada, diz Bolsonaro

do UOL

Hanrrikson de Andrade

Do UOL, em Brasília

21/10/2020 12h49Atualizada em 21/10/2020 19h12

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) disse hoje que os processos de compra de qualquer vacina contra a covid-19 estão descartados, por enquanto. A declaração foi dada após o presidente visitar a instalações da Marinha em Iperó (SP), nesta manhã.

Toda e qualquer vacina está descartada. Tem que ter uma validade da Saúde e uma certificação por parte da Anvisa também

Ele também afirmou ter ordenado o cancelamento do acordo feito pelo Ministério da Saúde com o governo de São Paulo para aquisição de 46 milhões de doses da CoronaVac, a vacina desenvolvida pelo laboratório chinês Sinovac em parceria com o Instituto Butantan (SP) para combater o novo coronavírus.

O protocolo de intenções foi assinado no dia 19 de outubro e anunciado ontem em reunião realizada entre governadores e o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello.

Já mandei cancelar, o presidente sou eu, não abro mão da minha autoridade (...) Até porque estaria comprando uma vacina que ninguém está interessado nela, a não ser nós

Mais cedo, em suas redes sociais, o presidente já havia exposto sua insatisfação com a repercussão das negociações referentes ao acordo mediado pelo ministro Pazuello para compra da CoronaVac. Bolsonaro recebeu várias críticas de apoiadores —alguns se disseram "traídos"— e mensagens que pediam que ele não adquirisse vacina produzida por uma "ditadura comunista". Em resposta, disse que não compraria a "vacina chinesa de João Doria" e que o povo brasileiro não seria "cobaia".

Após reclamação de Bolsonaro na internet, o secretário-executivo do ministério, Élcio Franco, negou qualquer acordo com o governo de São Paulo e disse que o que houve foi um "protocolo de intenção" assinado com o Instituto Butantan. Reforçou que o governo não comprará vacinas vindas da China.

O ofício, assinado pelo ministro da Saúde, porém, confirmava a intenção de compra, desde que a vacina fosse autorizada pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), como qualquer outro imunizante.

Cerca de 200 vacinas estão sendo desenvolvidas no mundo contra a covid-19, segundo a OMS (Organização Mundial de Saúde). Relatório da entidade aponta que os estudos clínicos do imunizante desenvolvido na China ocorrem também na Turquia e na Indonésia. E o governo do Chile anunciou, em agosto, que deve participar da fase 3 dos testes.

Disputa com Doria

A CoronaVac é peça central de um novo conflito entre Bolsonaro e o governador João Doria (PSDB), ex-aliados que se tornaram desafetos e possíveis concorrentes na eleição presidencial de 2022.

Bastante irritado, o chefe do Executivo federal disse que não fala com Doria, que o "diálogo é zero", e acusou o tucano de agir por interesse eleitoral. "Parece que é a última cartada dele na busca de popularidade ou para retratar tudo aquilo que ele perdeu durante a pandemia."

"Uma pessoa [Doria] tentou tirar um proveito político em cima disso, ele tinha uma audiência marcada para hoje com o ministro Pazuello. Ele [Pazuello] passou mal, acho que está baixado no hospital ainda, e depois o Pazuello fez uma videoconferência com alguns governadores onde o Doria entrou no circuito. E o Doria, acabando a videoconferência, correu para a imprensa para falar que ele havia assinado um protocolo para a aquisição de vacina chinesa, essas são as palavras dele."

"Eu não converso com uma pessoa que usou meu nome nas eleições e meses depois começou a me atacar", completou o presidente, lembrando que Doria venceu a disputa eleitoral com Márcio França (PSB), em 2018, na condição de aliado —a parceria ficou conhecida em SP como "BolsoDoria".

Acordo anunciado por Pazuello

O anúncio do acordo para aquisição das vacinas Coronavac ocorreu ontem, em uma reunião entre Pazuello e 24 governadores —incluindo Doria. "Se o Butantã nos fornecer essas 46 milhões de doses iniciais, a gente já consegue iniciar a vacinação", disse o ministro da Saúde. Hoje, no entanto, Bolsonaro desautorizou o seu próprio ministro.

Embora tenha ressaltado que a premissa para compra de vacina destaca-se pela segurança e eficácia conforme aprovação da Anvisa, o governo federal assinou, em agosto, MP (Medida Provisória) que libera R$ 1,9 bilhão para produção, compra e distribuição de 100 milhões de doses da vacina desenvolvida pela Universidade de Oxford em parceria com o laboratório Astrazeneca. No Brasil, a pesquisa sobre esse imunizante é liderada pela Fiocruz.

As vacinas da Sinovac e da Astrazeneca estão na mesma fase 3, o estágio em que são feitos testes massivos do imunizante. Nenhuma delas ainda tem eficácia comprovada nem autorização de uso pela Anvisa.

Bolsonaro também contradiz os esforços do atual governo em divulgar, incentivar e produzir cloroquina, medicamento cuja eficácia nunca foi comprovada contra o coronavírus. O Exército brasileiro havia produzido até julho 3 milhões de comprimidos do medicamento. Os custos da produção, de mais de R$ 1,5 milhão, são alvo de investigação do Ministério Público de Contas e do TCU.

"A vacina tem que ter uma comprovação científica, diferentemente da hidroxicloroquina, posso falar sobre isso, tem que ter sua eficácia. Não pode inalar (quis dizer inocular) algo em uma pessoa e o malefício ser maior do que o benefício, apenas isso", rebateu o presidente hoje, quando questionado sobre o medicamento.

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