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Leilão de parafernália nazista é alvo de críticas na Alemanha

Kate Brady, Verena Greb

20/11/2019 17h43

Uma cartola usada por Hitler e um vestido que pertenceu a Eva Braun estão entre os objetos ofertados por um leiloeiro alemão. Venda desse tipo de item é legal no país, mas costuma levantar acusações de culto ao nazismo.Ao percorrer um dos famosos mercados de pulga de Berlim é mais do que provável que se encontre um objeto da era nazista. Talvez seja um cartão postal ou uma xícara de chá – pequenos itens dos dias mais sombrios da Alemanha são tudo, menos objetos escondidos neste país.

Mas o que acontece quando itens que pertenceram a oficiais nazistas são leiloados na Alemanha? Isso leva à propagação da propaganda da extrema direita ou agrega valor histórico? A Alemanha se viu confrontada com este debate de longa data novamente neste 20 de novembro de 2019.

Em um leilão organizado pela Hermann Historica em Grasbrunn, perto de Munique, mais de 840 itens que pertenceram a ex-nacional-socialistas – também da liderança – foram colocados à venda. Entre eles, o cilindro dobrável de Adolf Hitler, uma edição de luxo com moldura prateada de seu livro Minha luta, o vestido cocktail de Eva Braun e um sabre de aço damasco com uma cabeça de leão no punho usado pelo oficial da Waffen-SS (os braços armados da Schutzstaffel) Fritz Klingenberg.

Críticas ao leilão nazista

O leilão recebeu fortes críticas, entre outras da Associação Judaica Europeia (EJA), que se manifestou favorável que o evento fosse impedido de ser realizado. Em tempos em que são observados um crescimento na violência de direita e em manifestações antissemitas, o presidente da EJA, Menachem Margolin, afirmou considerar o leilão uma oportunidade para alguns "glorificarem os nazistas".

"É errado monetizar esses itens manchados de sangue, especialmente na Alemanha", disse o rabino. "Entendo que não é ilegal comprar e vender lembranças nazistas. Mas não é uma questão de legalidade, mas de moralidade. É errado."

O direito da casa de leilões Hermann Historica, Bernhard Pacher, tentou relativizar as críticas. Os principais compradores são "museus, coleções estatais e colecionadores particulares que lidam com os assuntos com muito cuidado". A casa também tenta impedir que pessoas erradas obtenham os itens leiloados, assegurou Pacher à agência alemã de notícias DPA.

Quem compra itens devocionais nazistas?

Em partes, a afirmação de Pacher é contestada por Stephan Klingen, do Instituto Central de História da Arte de Munique. Em entrevista à DW, ele disse que parte do princípio que "os museus hoje não podem pagar os preços que estão sendo anunciados, especificamente para esses tipos de itens que são colocados na mesa".

Klingen afirmou suspeitar que "caçadores e aficionados" compraram os objetos nazistas. "Esta é a nossa experiência com essas aquisições. É simplesmente fato deque há muito interesse em todo o mundo – nos EUA, na Inglaterra, na Rússia – para tais objetos", disse.

No entanto, uma propensão a objetos como os oferecidos no leilão "Orden und Militaria ab 1919" (Condecorações e Militar a partir de 1919) nem sempre está associada ao partido nazista NSDAP ou à ideologia nazista. Muitas partes interessadas simplesmente querem possuir um troféu – isso é, ao mesmo tempo, "o epítome do mal", segundo Klingen.

Klingen e Philipp Lenhard, funcionários do Departamento de História e Cultura Judaica da Universidade Ludwig-Maximilian de Munique, concordam que os itens devocionais oferecidos nos leilões raramente são de interesse para arquivos ou pesquisas.

"Trata-se, até onde tenho conhecimento, de fontes de materiais historicamente completamente irrelevantes. O fato de alguém gastar dinheiro com o cilindro dobrável de Hitler só pode ser explicado pela circunstância de o comprador ser atraído pelo fato de estar perto de um dos maiores criminosos da história humana", afirmou Lenhard.

Assim como Klingen, ele também disse acreditar que, embora se possa chamar isso de culto nazista, o comprador não necessariamente compartilha automaticamente as visões dos nacional-socialistas.

Para avaliar se os itens oferecidos são de importância histórica, a DW conversou com o historiador Arnd Bauerkämper, da Universidade Livre de Berlim. Em sua opinião, em certa medida, isso depende se os objetos são providos como símbolos nazistas ou não. "Possivelmente, lançam luz sobre a história do nacional-socialismo, mas devem ser colocados no contexto correto."

Na Alemanha é legal possuir e vender objetos da era nazista – desde que todos os símbolos nazistas sejam removidos ou encobertos. É proibida a exibição pública desses símbolos. Bauerkämper explicou que os especialistas são responsáveis pela classificação dos objetos e pelo fornecimento de informações básicas, assim como se encontra em museus. Caso os objetos não possam ser ordenados eles, então, servem apenas para fins de voyeurismo.

O historiador e cientista político Matthias Küntzel teceu uma formulação ainda mais rígida, em entrevista à DW. Ele firmou acreditar que itens como as roupas disponibilizadas pela casa de leilão devem ser destruídos. Em contrapartida, os livros apresentados no leilão deveriam estar numa biblioteca especializada.

A autenticidade dos bens

Como muitos mercados, o comércio de peças da era nazista também enfrenta o problema da falsificação. Klingen disse que a cena de falsificação "é bem organizada e provavelmente, ao menos, tão grande quanto a cena que trata de objetos respeitáveis".

Acima de tudo, são bolsas de valores no exterior que oferecem um ensejo em que possam ser negociados itens devocionais nazistas. As casas de leilão, em contrapartida, verificam os objetos a serem leiloados com antecedência – dentro do escopo de suas possibilidades.

Conforme mostrou o leilão perto de Munique, às vezes, as pessoas gastam muito dinheiro comprando um objeto bastante desejado. O comprador do cilindro dobrável de Hitler desembolsou 50 mil euros, e a edição mencionada do livro Minha luta trocou de proprietário por 2.200 euros.

Em vista ao montante gasto em algumas peças, Lenhard afirmou ser a favor de que sejam "doados os recursos para uma causa de caridade, como a luta contra o antissemitismo na Alemanha".

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Autor: Kate Brady, Verena Greb

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